Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

40 000 anos num só dia (sem sair de Peniche)

Fomos dar uma volta à minha terra e encontrámos homens das cavernas a olhar para as estrelas, espanhóis à procura de ouro inca — e um X que fugiu do mapa.

1. Uma gruta na falésia

Há dias em que a história do mundo nos passa à frente dos olhos. Foi o que me aconteceu no último sábado do mês passado. Imaginei-me homem das cavernas e acabei a olhar para algo extraordinário que a minha sobrinha descobriu a passar pelo céu.

Vamos por partes.

No Baleal. Fotos de Ana Varela e Ayo Reis.

Para fazer um livro, às vezes é preciso andar muito e entrar em grutas. Foi por isso que uma equipa inteira com um livro na cabeça se pôs a percorrer Peniche e arredores. A ideia era ensaiar roteiros em volta das aventuras do tal livro (que já digo qual é).

Éramos nove: o Pedro, que pôs este projecto a andar, a Riikka, a Andréa, a Ana, a Ângela, o Ayo, a Zélia e o Rui Venâncio, historiador da Câmara de Peniche, que serviu de guia. Eu também lá estava no meio, pois então. A acompanhar, os meus filhos Matias e Simão e o Kai, filho do Pedro e da Riikka. 

Peniche é a minha terra. Já a percorri de ponta a ponta mais do que uma vez, a pé, de bicicleta, até de carro. Também já a vi pela janela de um avião e até a espreitei vista de satélite (pela janela do meu telefone). Mas ­— e talvez devesse ter vergonha de revelar o pecado — nunca tinha ido à Gruta da Furninha.

Pois, nesse sábado de correrias, lá nos pusemos a descer a escadaria cravada na falésia e vi-me, por fim, frente a frente com a famosa gruta. Famosa, sim! Ali se encontraram, no século XIX, alguns dos mais antigos vestígios humanos em território português, para sermos mais concretos, os vestígios mais ocidentais de neandertais. Para eles, aquela gruta era, de forma muito literal, o fim do mundo.

Entrámos na gruta, como figuras na capa de um qualquer livro de aventuras. Depois de uma pequena subida periclitante, chegámos a uma pequena sala. Quer dizer, podia ser pequena ou grande que eu não sabia: os meus olhos não viam nada. Estava numa noite antiga. A imaginação, essa, já andava a correr, a fazer aparecer neandertais a sair do pequeno túnel que começava a conseguir ver, ao fundo da galeria.

Foi para lá desse túnel, num poço de uns seis metros, que se encontraram ossos, no século XIX, que hoje sabemos serem de neandertais e de humanos modernos de há 40 000 anos. Esses humanos antigos não faziam ideia, entretidos como andavam nos seus dias, mas estavam a viver antes do princípio da História. E, no entanto, já contavam histórias uns aos outros.

2. Neandertais à solta no pinhal

Foi numa homenagem a essas histórias que todos contamos uns aos outros que, há uns anos, escrevi um livro de aventuras, onde havia um tesouro perdido entre túneis e grutas de Peniche. Pelo caminho, contei histórias reais, histórias inventadas e histórias que ninguém sabe se são reais ou inventadas (nem eu). O título original era A Baleia que Engoliu Um Espanhol ­­— digo «título original» porque andamos agora à procura de novo título para a segunda edição, que incluirá, se tudo correr bem, novas histórias, um guia histórico, um mapa do tesouro e ilustrações, como um verdadeiro livro de aventuras. É essa a ideia em que andamos a trabalhar: um livro criado em equipa, uma homenagem a esta terra, um livro que apeteça ler, folhear, escrevinhar, levar para casa e que ajude a imaginar a História deste lugar. Foi por essa razão que não tivemos opção que não fosse ir à Furninha. Por ali haverá, tenho a certeza, uma das entradas para os túneis que levam ao tesouro.

Conversas à entrada da Furninha. Fotos de Ana Varela e Ayo Reis.

Dentro da gruta, virei-me para fora. Os olhos, a tentarem habituar-se ao escuro, viram o mar com um brilho fora do normal. Perguntei-me: é certo que os homens das cavernas gostavam muito de cavernas. Mas porquê escolher aquela gruta em particular, pendurada numa falésia?

Saímos. O Rui explicou-nos que, na época em que por ali cirandavam os velhos humanos, não havia mar ali. Se entrássemos numa máquina do tempo e aterrássemos há 40 000 anos, teríamos à nossa frente um tremendo pinhal. A gruta não ficava numa falésia, mas numa encosta.

Imaginei uma família há 40 000 anos a assomar-se à entrada da gruta, mas a ver pinheiros em vez de ondas. Nas clareiras daquela floresta antiga, viam longínquas fogueiras. Uma ameaça a aproximar-se? Ali estariam protegidos.

Imaginei o dia a cair em noite e as estrelas a aparecer. A paisagem podia ser outra, mas as estrelas não seriam muito diferentes. Vi uma criança a apontar para o céu, a perguntar aos pais que luzes eram aquelas. Certamente haveria nomes para as estrelas — e histórias. As histórias seriam a forma de passar essas longas noites na caverna ou à sua entrada, com o pinhal a ondular ali em baixo, onde hoje passa o barco das Berlengas.

3. Ouro no fundo do mar

Desde esses tempos em que os homens das cavernas andavam às turras (e aos beijos, dizem os nossos genes), a história da humanidade continuou, o mar avançou, Peniche deixou de ser um planalto paleolítico e transformou-se numa ilha. Terão aqui aportado gregos e fenícios. Apareceram mouros e até passaram por aqui viquingues (dizem). Também haverá por estas grutas vestígios de povos de que já esquecemos o nome.

Certo é que os cruzados que vieram ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa passaram, no mar, entre a Ilha de Peniche e o continente. Um deles, Guilherme de Corni, acabou por ficar senhor das terras de Touria, mais tarde Atouguia. O Rui, como bom historiador, lá me desfez mais um mito: o tal Guilherme, que sempre me tinham dito ser um franco, era provavelmente inglês — e da Cornualha. Não muda muito: nobre como era, falaria francês normando, como qualquer inglês de sangue azul daquela época.

Com tanta gente a cirandar à volta desta terra, é de esperar que alguns barcos fossem ao fundo. Fomos à Papoa, um resto de vulcão antigo, onde o Rui nos mostrou o ponto exacto do naufrágio do San Pedro de Alcántara, no século XVIII, quando Peniche já não era uma ilha.

A Andréa à procura do San Pedro de Alcantara. Fotos de Ana Varela e Ayo Reis.

O San Pedro de Alcantara era um navio espanhol que, num daqueles erros que acontecem a qualquer um, apontou a Cádis e foi parar a Peniche. Era de noite, o mapa não era recente, a Papoa parecia as Berlengas… O navio encontrou umas belas rochas e foi ao fundo, com grandes perdas de pessoas e ouro peruano. Lá dentro, vinha o filho de Túpac Amaru, imperador inca supliciado pelos espanhóis (que ainda lhe roubaram o filho, porque esquartejá-lo não chegava).

O Rui explicou que Espanha enviou muita gente para recolher o ouro que se encontrasse nos mares traiçoeiros da costa norte de Peniche. Terminado o trabalho, lá seguiu o tesouro em direcção a Cádis num novo navio — que também afundou. As maldições dos Incas são tramadas.

Muitos dos espanhóis que vieram para Peniche nessa época por cá ficaram. Não consta que tenha ficado algum inca libertado no naufrágio, mas nunca se sabe. Não custa imaginar que nas nossas veias corra sangue inca. São insondáveis as profundezas das misturas humanas. Também não custa imaginar que algum do ouro espanhol tenha ido parar a alguma gruta de Peniche, a acrescentar ao tal tesouro que por lá está (ou será que imaginei?).

4. O X marca o lugar

Nessa conversa ao sol de sábado à tarde, falámos de outros naufrágios por aquela zona. Ali da Papoa vê-se muito bem as Berlengas e os Farilhões. O Rui explicou-nos que, em redor das Berlengas, há vários navios afundados, bem conhecidos dos mergulhadores. Disse-nos ainda que, em redor dos Farilhões, onde o mar é bem mais profundo, haverá certamente muitos navios antigos por descobrir. De vez em quando lá aparece uma ânfora romana nas redes dos pescadores… Ouvi «ânfora» e lá fiquei com a imaginação a fugir-me das mãos. Afinal, o livro começa com ânforas antigas, cheias de garum. Mas essa história fica para quem o quiser ler.

Já que ali estávamos, na Papoa, explorámos aquela península dentro de uma península. Lá no meio está uma curiosa construção que, vista de lado, não se parece com nada. São quatro muros, apenas. O Rui confirmou-nos que ninguém sabe muito bem quem fez aquilo nem para que servia.

Sorri. Se há ilhas do tesouro onde o X está no mapa, Peniche, talvez para compensar o facto de já não ser uma ilha, tem um X cravado no próprio território. É ali, claro, que está o tesouro. Só temos de escavar um pouco.

Fomos a muitos outros lugares desta terra tremenda. Olhámos para o osso da baleia na Atouguia da dita cuja, encontrámos vestígios de uma muralha destruída no Terramoto de 1755 (na praia do Quebrado), vimos fortificações do tempo das Invasões Francesas (no Baleal), fizemos um piquenique nas Cesaredas (onde, no livro, há um nazi enterrado), acabámos, por fim, na Fortaleza de Peniche, que é agora um Museu Nacional.

O dia foi muito bom. A volta chegou ao fim.

5. O fogo e as estrelas

Esse sábado era o dia da festa de Peniche, que costuma culminar com barcos iluminados, à noite, a passar pelo pinhal inundado em frente à Furninha. Nada disso aconteceu este ano, por culpa do que se sabe. Houve, isso sim, um fogo de artifício sobre Peniche, antigo planalto paleolítico, ex-ilha medieval e actual península a transbordar de histórias.

A casa dos meus pais fica numa aldeia próxima de Peniche. No terraço, vê-se o concelho quase todo — até às Berlengas. À noite, Peniche é uma faixa de luzes no horizonte. Fomos lá para cima ver o fogo.

Estava demorado. Entretivemo-nos a contar histórias e a conversar, enquanto os miúdos corriam pelo terraço. A minha sobrinha Lilah, de sete anos, pôs-se a usar o telemóvel do pai para ver os nomes das estrelas e das constelações, muito entusiasmada com o céu nocturno que ali se revela. O meu filho mais novo gritava de cada vez que passava um avião, a piscar.

De repente, há um ponto de luz que não pisca, semelhante a uma estrela muito brilhante, mas que andava bem depressa por entre as constelações. O que é aquilo?, perguntou a Lilah, entusiasmada. O meu irmão Diogo apontou o telemóvel e todos olhámos. Era a Estação Espacial Internacional. Deixámos os telemóveis de lado e olhámos, apenas, para o céu, por onde aquela geringonça com gente dentro percorria o céu a 27 000 km/h, a brilhar da luz do sol como nenhuma estrela brilha. Nunca tinha visto e fiquei de boca aberta. Foi como disse: nesse dia, fui dos tempos das cavernas ao espaço.

Aposto que o brilho nos olhos da minha sobrinha não será muito diferente do brilho dos olhos de uma criança à porta da Gruta da Furninha, há 40 000 anos, a querer saber mais, a querer ouvir histórias, a querer imaginar aventuras.

A estação desapareceu no horizonte. Ouvimos um estrondo ao longe e um clarão. Virámo-nos todos para Peniche, no horizonte. O fogo foi impressionante. Acontece na noite anterior ao primeiro domingo de Agosto, todos os anos. Os humanos não desistem de marcar os anos que passam. E eles passam…  Passou muito tempo desde que uma família de antigos humanos olhou para estrelas à entrada da Furninha. Houve muito naufrágio, muitas conversas, muitas guerras e muitas vidas. Daqui a 40 000 anos, se houver ainda humanos, talvez haja quem imagine como era viver às portas da idade espacial, quando os humanos se entretinham a rodar em volta da Terra, à espera de outras viagens. Talvez Peniche seja então um planalto no meio da planície e o mar esteja longe. Talvez seja de novo uma ilha. Certo é que, se houver humanos, haverá gente a contar histórias sobre este lugar.

Se quiser saber mais sobre o projecto do livro (que ainda há-de ter um título), participe neste grupo de Facebook.

Receba os próximos artigos


Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

Comentar

4 comentários
  • Gostei da história!
    O Marco, escreve muito bem.
    Parabéns.
    José Oliveira.

  • Obrigada pelo artigo.
    Finalmente, “ouvi-o falar” da Turminha. Sabe, certamente, que foi utilizada por humanos em diversas fazes da evolução e, tal como o Menino do Lapedo, é, por muitos investigadores, considerado um marco do cruzamento entre Niandertalenses e Homosapiens. Que língua falariam? Será que se perdeu completamente?

  • O meu telemóvel pergou-me uma rasteira: quiz dizer Furninha e saiu-me outra coisa.
    Já agora, qual é a origem da palavra e, especialmente, o seu significado desde tempos imemoriais que teimamos em recordar.
    Obrigada mais uma vez.

  • Há 600 anos ainda era uma ilha. Suponho que foi nela que se refugiaram e se renderam os últimos lusitanos em armas contra Roma. E que, na Orla Marítima, é a Agónida Grande.

Certas Palavras

Autor

Marco Neves

Blogs do Ano - Nomeado Política, Educação e Economia