Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

As línguas do Afeganistão (e a origem da palavra «azul»)

Perante tudo o que por lá está a acontecer, talvez pareça inútil falar das línguas do país. E, no entanto, serve para conhecermos um pouco mais daquele país, para lá da imagem difusa das notícias. No fim, ainda encontramos a origem de algumas palavras muito nossas…

Uma origem comum

O Afeganistão, como quase todos os países do mundo, tem muitas línguas, mais do que uma pequena crónica consegue comportar sem afastar irremediavelmente os leitores. Há, no entanto, dois idiomas especialmente importantes: o persa, a língua que mais afegãos conhecem (muitos deles como segunda língua) e o pastó, a língua do leste do país, partilhada com algumas regiões do Paquistão.

Estas línguas parecem-nos muito distantes, mas têm a mesma origem que o português: o proto-indo-europeu, uma língua falada há uns 6000 anos, que também acabou por dar origem, entre outras, ao sânscrito, ao grego, ao russo, ao inglês e ainda ao nosso latim. Ou seja: o português e o persa pertencem à mesma família linguística. O português faz parte da subfamília latina, enquanto o persa pertence à subfamília iraniana (tal como o pastó e outras línguas, entre elas o curdo).

Deixemos, por hoje, o pastó de lado e olhemos para o persa, língua de vários impérios da História, com uma das mais antigas literaturas do mundo.

Uma língua em três sabores

O persa tem hoje três normas: o persa iraniano, o persa afegão e o persa do Tajiquistão. Como acontece em muitas línguas, as normas escondem um contínuo de dialectos misturados entre si.

Estas três normas são muito diferentes? Discussões deste tipo são difíceis mesmo quando conhecemos bem a língua, quanto mais quando estamos tão distantes… Há diferenças lexicais, sintácticas, fonéticas — para não falar das diferenças de sistemas de escrita —, mas parece haver entre os falantes uma noção clara de que a língua é a mesma.

Para complicar as coisas, a língua tem três nomes oficiais diferentes. No Irão, chama-se «farsi», no Afeganistão chama-se «dari» e no Tajiquistão chama-se «zaboni tojikī». Estes são os nomes oficiais. Todos os falantes sabem usar «farsi» como nome geral da língua — e é essa a preferência de muitos.

Quanto ao sistema de escrita, o Irão e o Afeganistão usam a escrita persa (baseada na escrita árabe) e o Tajiquistão usa o alfabeto cirílico. Se um português aterrar no Tajiquistão, vê à sua volta o alfabeto cirílico. Talvez se convença estar a olhar para palavras em russo. Na verdade, está a olhar para palavras persas…

Olhemos para uma diferença interessante entre duas das normas. O som [w] do persa clássico tornou-se [v] no persa iraniano. Esta é uma transformação que também se deu entre o latim e o português — poderá ser mais do que coincidência: as mudanças fonéticas, apesar de imprevisíveis, seguem algumas tendências comuns entre línguas.

Agora, o mais curioso: o persa afegão manteve o som [w] do persa clássico e usa o [v] apenas como variante do som [b]. Ou seja: no Afeganistão, também há quem troque os vês pelos bês.

Frutas e cores a viajar

Além da origem comum, temos também várias palavras que fizeram a viagem do persa ao português, muitas delas com paragem no árabe (uma língua com uma origem muito diferente). A palavra «laranja», por exemplo, teve origem na palavra persa «nârang» (que já tinha vindo do sânscrito) e chegou ao português vindo do árabe. Curiosamente, o persa tem hoje duas palavras para laranja: «nârang» e ainda «portoqâl», que designa, em especial, a laranja doce. Sim, «portoqâl» tem origem no nome do nosso país.* Foi uma troca de cromos linguísticos… 

Outro exemplo muito importante é a palavra «azul», que tem origem na palavra árabe «lāzuward», que por sua vez tem origem no persa «lâjvard», o nome do lápis-lazúli, uma pedra de cor (enfim) azul. Usamos muitas outras palavras de origem persa (muitas delas com paragens intermédias): «açúcar», «limão», «pijama» — até «pato»! Há mais. Dificilmente um português passará um dia inteiro sem usar palavras de origem persa…

*Nota: o persa não é a única língua que usa o nome do nosso país para designar a laranja doce. Deixo ligação para um artigo em que escrevo sobre o tema.

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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7 comentários
  • Há um poema muito interessante sobre as cores e sua origem. recomendo vivamente aos leitores que o leiam com atenção. Aborda-se o azul e o laranja. Já agora. sabiam que o italiano á a única língua que tem uma palavra para o azul-claro (distinguindo-o do azul normativo) e sabeis porque é que rosa e laranja quando cores levam ou não hífen?

  • Aprecio muitíssimo estes seus artigos de âmbito linguístico. Grato por estas felizes oportunidades, aceite um muito cordial abraço de felicitações. Norberto Ávila

  • Olá professor! Outro dia, por acaso, conheci o alfabeto tifinague, bem próximo ao fenício – ou que pelo menos o lembra. É usado – não sei em que escala, pelos tuaregues – o único dos bérberes ainda a usá-lo. Não encontrei muita literatura a respeito aqui no Brasil. Talvez você tenha escrito artigo a respeito, mas fica a sugestão, caso não tenha escrito sobre o assunto. Gosto das suas publicações e acompanho sempre que a minha corrida vida permite. Abraço!

  • Quanto mais leio seus artigos mais percebo a complexidade das línguas . E mais valorizo a língua portuguesa pois muitos dirão que o português falado em cada país onde é oficial difere muito de país a país mas está aí o farsi para provar que a língua pode diferir mas na essência permanece a mesma e seus falantes tem consciência disso . Outros artigos do Marco mostraram essa diversidade , como o norueguês , o dinamarquês e o árabe . Aguardemos mais outros sobre as línguas e suas variantes

    • O assunto de línguas que são essencialmente a mesma mas que as normas oficiais fazem o possível por as afastar é o caso do galego e o português. Na Galiza a Real Academia Galega trabalha incessantemente para confinar o galego no âmbito do espanhol e afastar-nos do que historicamente foi o nosso tronco galego-português.

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Marco Neves

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