Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

As línguas do Luxemburgo (por António Callixto)

A recente crónica de Marco Neves sobre a situação linguística do Luxemburgo levou-me a redigir, a seu pedido, o seguinte complemento de informação. Faço-o na qualidade de residente naquele país desde 1986, onde desempenhei as funções de chefe da tradução portuguesa do Tribunal de Contas Europeu – uma das instituições da União Europeia – até à minha aposentação no final de 2012.

Nas ruas do Grão-Ducado, lêem-se jornais principalmente em alemão, mas também em francês, coexistindo por vezes ambas as línguas no mesmo jornal e até na mesma página. E também há algumas partes em luxemburguês, embora em menor percentagem. O “Luxemburger Wort”, o maior jornal luxemburguês, é um bom exemplo da “coexistência pacífica” das três línguas, principalmente no formato em papel, pois na versão online há uma maior separação. Existem também jornais exclusivamente em francês.

Os nomes das ruas e outras indicações em locais públicos estão principalmente em francês, mas também em luxemburguês e, em alguns casos, em alemão. A maior parte das povoações tem um nome oficial em francês (ou alemão), que aparece em letras maiúsculas nas respetivas placas, tendo por baixo o nome “vernáculo”, em luxemburguês e em minúsculas.

Como se afirma na crónica, o que se fala nas ruas de certas povoações alemãs perto da fronteira com os Países Baixos está mais próximo do neerlandês ou do frísio do que da variante de alemão falada na Baviera ou na Áustria, do mesmo modo que os dialetos falados na região de Trier (Alemanha, Platt(deutsch), na de Arlon (Bélgica) ou na de Thionville (França), todas fronteiriças do Luxemburgo, estão muito próximo do luxemburguês, sendo por vezes designados como tal.

Linguisticamente, o luxemburguês é o mais setentrional dos dialetos franco-moselenses (FR dialectes franco-mosellans, DE moselfränkische Dialekte), cujo extremo meridional é marcado pelo suíço-alemão (Schwyzertüütsch). Entre ambos, encontramos por exemplo o alsaciano.

O Luxemburgo tem atualmente três línguas oficiais – francês, alemão e luxemburguês, sendo o luxemburguês a língua nacional e o francês a língua jurídica e administrativa.

O luxemburguês já era há muito tempo língua literária (ver por exemplo https://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Rodange), mas a sua oficialização em 1984 levou ao surgimento de dicionários, gramáticas, compêndios, manuais, etc. para a sua aprendizagem, a qual apenas se verifica a nível superior, embora haja uma tendência cada vez maior para o ensinar na escola secundária.

No sistema escolar, os alunos começam a ler e a escrever exclusivamente em alemão, avançando depois para o ensino do (e em) francês e mantendo-se o luxemburguês – apesar de ser a língua materna – apenas como língua oral. A língua escrita, como acabo de referir, apenas se ensina a nível superior, portanto com caráter facultativo. Essa realidade explica, por exemplo, a enorme hesitação da maior parte dos luxemburgueses quanto à ortografia oficial, que praticamente nunca aprenderam. Eles simplesmente não escrevem em luxemburguês (para além das mensagens SMS entre amigos)! E explica também o facto de qualquer luxemburguês ter muito mais facilidade e destreza em ler um livro ou um jornal em alemão do que em luxemburguês. Daí que os artigos “sérios” nos jornais sejam redigidos em alemão, reservando-se o luxemburguês para anedotas e/ou artigos de segundo plano, muitas vezes com caráter lúdico. Quando chegam ao final do percurso escolar, os alunos falam e escrevem alemão e francês, mas não escrevem luxemburguês, embora, se forem luxemburgueses, o falem.

Além das três línguas oficiais, qualquer luxemburguês com escolaridade média exprime-se igualmente em inglês sem grande dificuldade. O português, embora logicamente sem qualquer estatuto oficial, é a terceira ou quarta língua mais falada no país, sendo curioso referir que se encontram inscrições em português – por vezes infelizmente não da melhor qualidade – em locais públicos como escolas, hospitais, elevadores, etc. Até se costuma dizer que a maior parte dos dentistas luxemburgueses sabe dizer “abra a boca” em português, tal é a frequência com que atendem pacientes portugueses!


António Callixto foi chefe da unidade de tradução portuguesa do Tribunal de Contas Europeu entre 1986 e 2012. Reside actualmente no Luxemburgo. 

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