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Crónicas

Balada da livraria fechada

Hoje já não está na moda falar da Crise. E, no entanto, para lá das crises das notícias ou dos livros de História, há outras crises bem palpáveis e que nunca desaparecem.

1. O início

Muita gente, quando pensa em empresas, vai logo pensar na horripilante palavra “empreendedorismo” — ou então pensa em grandes empresários, homens a gritar na bolsa, escritórios infindáveis em ruas feitas de vidro. Mas não é dessas empresas de que falo hoje — falo das livrarias, das mercearias, das retrosarias, das lojas de electrodomésticos, dos cafés, dessas empresas de porta aberta e montra transparente, onde alguém, atrás dum balcão, atende quem entra e faz parte da vida de quem por ali passa todos os dias.

Quem decide criar uma empresa destas começa sempre com algum entusiasmo, uma esperança que ali esteja uma vida feita por si, algo de que se possa orgulhar — para quem está de fora, pode ser difícil compreender essa sensação de esperança concreta. A verdade é que, nesses primeiros dias, tudo se faz com um sorriso nos lábios e até a impaciência das filas das finanças é parte do prazer de construir qualquer coisa. Escolhe-se o nome, pinta-se a parede, vai-se ao notário, escolhe-se um contabilista, aprende-se a pagar impostos, taxas e contribuições, fala-se com um advogado, percebemos que afinal não sabíamos assim tanto do mecanismo do mundo.

Depois, abrimos a porta. Para conseguir imaginar melhor, pense o leitor numa livraria. O primeiro dia dessa livraria. A vida inteira roda à volta desse espaço que cheira ao princípio do mundo.

Entra, a medo, o primeiro cliente — e nós, sorrindo, sentimos qualquer coisa que não está assim tão distante do primeiro dia de escola ou da primeira vez que entrámos numa casa só nossa. Correndo o risco de exagerar, diria que, nesse sorriso do dono da livraria no primeiro dia, temos até um resquício do primeiro beijo ou do primeiro amor.

2. Os dias que passam

Os dias continuam. A vida muda. A tal livraria que imaginámos começa a fazer parte da cidade. A sua montra, a sua cor, a sensação de conforto para quem passa na rua… Lá dentro, o dono continua a aparecer, todos os dias, com o entusiasmo de quem trabalha num sítio que também é a sua casa. Os clientes começam a ser da casa; já se sabem as manias, os gostos, as conversas…

Passam anos. Há algum cansaço. Todos os anos aparece uma nova regra, um novo aborrecimento. Nem tudo corre bem. O contabilista aborrece-nos com contas, facturas em falta, uma nova norma qualquer que é preciso cumprir. Os clientes vão e vêm e nem sempre vêm tantas vezes como vão.

De vez em quando, há um novo arranque: abre-se um novo espaço, renova-se a montra, muda-se a cor da parede, inventa-se algo novo para aliviar o medo de que as coisas falhem; lembramo-nos, como se fosse ontem, desses primeiros dias.

3. O fim

Os perigos são muitos, as armadilhas outras tantas. Por vezes — e ninguém sabe quando será — as coisas falham mesmo. A livraria fecha. A montra tapada, os restos de livros espalhados pelo chão, as facturas acumuladas. Processos, papéis, chatices e visitas ao contabilista, ao advogado, ao notário, aos correios — mas agora os pés são pesados, não apetece saltar da cama, não há futuro que se veja nestas minúcias burocráticas. O trabalho continua, não sei quantas horas por dia, mas não já para chegar ao fim do mês de portas abertas e vida paga, mas antes para reduzir um pouco o peso da dívida — e há esse outro momento que não cabe aqui em que é preciso dizer a quem lá trabalha que tudo acabou e amanhã já não devem vir.

É a tal crise bem pesada e bem concreta. É a montra fechada e o desemprego sem apelo e sem apoio. É o peso do que não se faz, das conversas que já não há, é a sensação de ter bebido leite estragado, o peso da culpa de quem nem sente vontade de reclamar do mundo junto dos amigos.

Procuram-se razões. Tudo aconteceu porque abriu ali outra loja, porque alguns clientes desapareceram, porque o mercado isto e aquilo — não importa. Para muitos, um negócio é uma palavra estranha, quase indecorosa. Para quem abre uma loja — uma livraria ou outra — um negócio é parte da vida, é o seu trabalho, é uma pequena aventura. Quando falha, a história sabe a um filme que acaba mal, a uma viagem em que não chegámos ao fim, a um casamento falhado.

Pare o leitor à frente da montra da livraria fechada. É de noite e, no vidro, vê os reflexos do trânsito e das inevitáveis ambulâncias da cidade. Já não está ninguém ali. Há apenas as cartas com que o carteiro atafulhou o chão por trás da porta. Olhe pelo vidro e veja o fantasma dos entusiasmos passados, dessas noites mal dormidas para criar a livraria — e, por fim, imagine a dor mordida no lábio de quem fecha por uma última vez a porta da sua livraria, da sua vida, do seu pequeno orgulho, e se afasta pela rua fora a pensar em tudo e nada, com cartas das finanças no bolso.

Há quem recomece uma e outra vez porque sim ou porque não. No meio disto tudo, ninguém os canta. Deixem-me, assim, a esses que trabalham e às vezes caem para que nós possamos comprar um livro, um pão ou um pedaço de tecido, esses que inventam uma vida de porta aberta e muita paciência, deixem-me dar-lhes o meu muito obrigado.

(Crónica no Sapo 24.)

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Marco Neves

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