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Português

«Beijinho grande» é erro de português?

Não.

E pronto, é só isto.

Estou a brincar. É claro que não é só isto.

Vejamos a suposta lógica de quem acha que a expressão é erro: «beijinho» é diminutivo, logo não pode ser grande. Ainda agora encontrei este argumento num artigo publicado num jornal nacional.

Antes de mais, sem sair da lógica literalista que acha que um beijinho tem de ser um beijo pequeno, a verdade é que podemos ter beijinhos maiores do que outros e, por isso, uns podem ser grandes e outros pequenos — mesmo que todos (grandes e pequenos) sejam menores do um beijo, assim, sem diminutivo.

No entanto, a questão nem é essa… «Beijinho» é uma palavra que surgiu a partir do diminutivo de «beijo», mas — como é hábito das palavras (essas safadas) — ganhou um significado ligeiramente diferente: um beijinho tende a ser um beijo na face. No fundo, o beijinho é um tipo de beijo. E esse beijo na face pode ser pequeno, grande ou assim-assim. Até pode ser um beijo no ar, vejam lá bem.

Depois — e como é que o inventor deste erro não se lembrou disto? — o diminutivo em português também serve para imprimir uma conotação carinhosa (digamos assim) ao que estamos a dizer. A minha casinha pode ser uma casa a dar para o grandinha. Aliás, pela lógica de quem não gosta de «beijinhos grandes», «grandinha» ou «grandito» ou «grandinho» seriam palavras a raiar o absurdo. Ele tem um cantinho só dele lá em casa — e é bastante grande, esse cantinho… O meu filhinho está muito grande — cada vez maior!

Enfim. Sou só eu — ou esta mania de enfiar as expressões da língua numa lógica arrumadinha é muito redutora? Ainda por cima quando se trata de beijos, beijinhos e abraços?

Qualquer dia ainda me dizem que não posso usar a expressão «abraços», porque, no fundo, damos apenas um, no singular? E os cumprimentos, para quê dizer «sinceros»? Há assim tanto perigo de estarmos a mandar cumprimentos mentirosos?

Deixemo-nos destas tretinhas. Divirtam-se e… beijinhos grandes!

Conheça estes e outros erros falsos no Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

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Marco Neves

13 comentários

São tretinhas mesmo, um beijinho grande soa melhor do que um beijão (seja soprado, repenicado ou não!).

… e não tenham medo de dar beijinhos, grandes, carinhosos, sinceros.
Só uma língua como a nossa para usar essas aparentes frases ilógicas mas tão saborosas! Beijinho grande é um (pseudo) “erro” delicioso, e pronto!

Prezado Prof. Marcos Neves. Sou seu leito assíduo. Veja, esse tema de diminutivo e aumentativo é muito giro. Aí e aqui, também. Leia isso que escrevi mo meu BLOG.
Abraço: Luiz Cesar Saraiva Feijó.

UM DIVERTIDO PASSEIO LINGUÍSTICO

(IN, https://professorfeijo.blogspot.com/)

Sangão é um município catarinense a 18 km de Tubarão, na costa central do Estado, cortado pela BR 101. Também é um bairro do município de Criciúma. Parece ser aumentativo de SANGA, subst. fem., rio pequeno, com pouca água; riacho. Mas pode ser voçoroca (do tupi). Então, SANGÃO seria um grande rio pequeno ou um grande pequeno rio. E mais, nesse município catarinense existe um bairro chamado SANGÃOZINHO. Seria, assim, um pequeno grande rio pequeno. Que coisa! Pensam que acabou? Tem mais. Lá, nesse bairro, existe o SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE. Tentem pronunciar esse nome: parece que é SÃO GÃOZINHO. Um nome de santo. Pois é. Esse fenômeno fonético ocorre porque o ditongo nasal se evidencia no sintagma que possui extenso corpo fonético. Já isso não ocorre em SANGÃO, de reduzido corpo fonético.
O interessante é que, além da produtividade desse substantivo, a possível etimologia de SANGA estaria no “Quicongo”, uma língua banta, de Angola, África. Os escravos traficados trouxeram esse nome para o Brasil. E mais. No Sul, onde a influência africana no vocabulário de nossa língua é menor do que no Sudeste, o vocábulo SANGA é de uso corriqueiro e até de uso poético. “Água de Sanga” é um bem construído livro de poesia de Colmar Duarte, lá de Uruguaiana, quase um poeta argentino… Abro um parêntese aqui para dizer que nos pampas junto às fronteiras, é comum se ouvir dizer que o povo rio-grandense é um povo miscigenado. É verdade, mas lá, se diz que essa miscigenação foi entre o europeu (português e espanhol) e o índio. Não falam do negro. E SANGA é nome de origem africana, muito usado e produtivo, como vimos. Já o termo correspondente, VOÇOROCA, que é tupi, é pouco usado ou quase nunca empregado. Já no Paraná, esse termo é mais ouvido. Há até uma grande represa que fornece água potável para Curitiba que se chama Represa Voçoroca. Os termos tupis ocupam grande parte da onomástica catarinense e foi muito bem estudada por Lino João Dell’Antonio, no livro “Nomes Indígenas dos Municípios Catarinenses: significado e origem”. A tese desse autor é interessantíssima, pois o mesmo afirma que, sendo o índio nômade, ele marcava os lugares especiais com termos realmente significativos. Explico melhor. Em Santa Catarina qualquer rio é cheio de capivara. Então, um lugar ou um rio se chamar Capivari não acrescentaria absolutamente nada à orientação de ninguém. É interessante, pois, a análise – hipótese linguística – que o autor faz, também, da origem de LAGES, cidade importante no centro do planalto catarinense, aplicando sua teoria às origens do nome de LAGES, que diz ser uma corrupção linguística de “hayé” e significa atalho, uma referência ao atalho das Tijucas, feito por Cristóvão Pereira de Abreu, em 1733. Finalmente, aceitamos sua argumentação final, quando diz que muitos nomes de lugares foram dados pelo homem branco, utilizando termos da língua tupi.
Tudo isso é fruto de anotações que faço em minhas viagens, quando tento observar as construções linguísticas de nosso povo e seus outros muitos comportamentos sociais. Procuro juntar essas observações em uma espécie de redação ou crônica-de-viagem, misturando curiosidades linguísticas com as mais diversas práticas esportivas, e entre elas o futebol, pois ele sempre está presente na vida simples, que corre junto às estradas por onde passo.

Assim, conversando na frente do SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE com a rapaziada de plantão, nesses tempos de futebol nacional, onde Santa Catarina até já colocou quatro clubes para disputar a primeira divisão do campeonato brasileiro, resolvi saber alguma coisa sobre esse time de várzea. Disseram-me que tem poucos anos. Três ou quatro, mas já possui um terreiro para seus treinos e jogos: SANGÃOZINHO X VISITANTES estava escrito na entrada do campo, anunciando o próximo jogo.
Mas para finalizar, já que estamos falando de futebol, essa grande metalinguagem sociológica, não posso deixar de registrar aquela inusitada entrevista de um jovem repórter da Rádio Poti, do Rio Grande do Norte, que fora conversar, no fim da partida, com o jogador Dirran, do Clube Atlético Potengi, que perdeu para o Potyguar, da segunda divisão do campeonato do Rio Grande do Norte, no, então, famoso estádio Machadão. Embora seu time tivesse sido derrotado, Dirran foi considerado o craque do jogo. Eis o diálogo:

REPÓRTER – “Você tem parentes na França? E esse seu nome é de origem francesa?”
DIRRAN – “Não sinhô, meu apelido é CU de Rã, mas como num pode falar na rádio… então, eles abrevéia”.

ATÉ A PRÓXIMA

Sendo bem burro quanto à nossa lingua (é à de outros) delicio-me lendo suas palavras. Obrigado por seus ensinamentos.

Tenho de agradecer este esclarecimento acerca do “beijinho grande” porque muitas vezes utilizei e sempre com aquela culpa e receio dos fiscais de português.
Mas, e esta expressão é mesmo arrepiante, que dizer do “abreijo”… Um horror e até fico arrepiada de o escrever.
Reparo que são apenas homens que a usam…
Beijinhos grandes!

Peço desculpa de contrariar mas eu só tenho visto escrito por mulheres. De uma maneira ou de outra, é algo que me soa demasiado a “abrolhos” e por isso nem para pisar serve, sobretudo descalços.

Mesmo que seja uma expressão usada só por mulheres, é isso razão para ser erro de português? Na verdade, é tão errado como dizer «o meu filhinho está grande», como tentei explicar no texto. Mas obrigado pelo comentário! 🙂

Já agora que estamos nos beijinhos, nas casinhas e no meu amorzinho diria que o meu grande amorzinho vai receber um grande beijinho e repenicado, oh meu Deus! na minha grande casinha. Estou a ficar em transe com estas tretinhas.
É a nossa maneira muito particular de falarmos. Lá dizia o meu Presidente que nós não dizemos logo o que queremos, mas que rodeamos e andamos à volta do assunto até chegarmos aos finalmente. Quero um beijo! Não, nós preferimos dizer gosto muito de beijinhos… hi hi hi, e talvez possamos dar um beijinho, que achas meu amorzinho???

Abraço,
Pedro

Leio infalivelmente e com prazer todas as publicações deste seu blogue. Gosto muito de suas posições sensatas em relação à língua, da reiterada lembrança de que quem faz uma língua são os seus falantes, e do sutil alerta que envia aos que se consideram “donos” do idioma, criadores de regras e descobridores de “erros”. Só mesmo um linguista consciente para fazer isso. Parabéns, professor! Abraços (no plural).

Adoro ler os seus artigos bem como os comentários que se lhe seguem. Sempre que leciono português para os estrangeiros, dou sempre relevo ao nosso carinho pelos diminutivos que, no Brasil, tomam proporçôes ainda maiores ( quer um copinho de águinha fresquinha ? ) porque me parece que são a expressão da alma lusófona, a puxar para o emocional. Contrariamente ao que muitos pensam, o diminutivo não serve apenas para reduzir o tamanho ( a cadeirinha) nem o aspeto afetivo ( o beijinho) mas também pode imprimir um aspeto depreciativo ( aquele fulaninho). Diga-se, de passagem, que na língua francesa o diminutivo é pouco utilizado, sendo substituído pelo”petit”, “petite” junto ao substantivo ou adjetivo. Talvez por isso, nos confrontemos com traduçôes diferentes do ” Le Petit Prince” de Camus Encontrei no Brasil ” O Pequeno Príncipe” e em Portugal ” O Pincipezinho” ; uma tradução dá mais relevo ao tamanho outra ao aspeto carinhoso.. Será?

Caríssimo professora Marco Neves, para não ser acusado de beijoqueiro, na maioria da vezes digo /escrevo, tudo de bom! Será errado?

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