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Brasil e Portugal: o tamanho importa?

Há uns meses encontrei esta foto no Twitter, com a legenda “o Brasil é enorme”:

BRASIL-TAMANHO

Ora, um português, perante isto, lembra-se logo disto, um cartaz de propaganda do Estado Novo:

PORTUGAL-TAMANHO

A diferença, claro, é que o Brasil é de facto enorme e Portugal estava apenas a fingir (até porque uma boa comparação teria de pôr as colónias dos outros países europeus ali ao lado).

Mas há algo que me intriga: Portugal fazia isto (ou melhor, o Estado Novo fazia isto) para se arrogar uma grandeza territorial que só tinha na imaginação colonialista da altura. Havia uma certa provocação e um certo sentimento de inferioridade. E também uma certa pena de não sermos realmente maiores.

Já o Brasil é, de facto, grande. Enorme. É um dos maiores países do mundo em território. É, como diz o hino, um colosso.

Mas por que razão é preciso afirmá-lo como se fosse algo desconhecido? Como se fosse uma afirmação política, que partilhamos no Twitter? Se virmos bem, no caso do Brasil, é quase tão estranho como Portugal fazer um cartaz a dizer “Portugal é maior do que Andorra!”

Quando olho para a imagem do Brasil com os outros países dentro, vejo medo que alguém não perceba que o país é mesmo muito grande. Por via das dúvidas, convém até pôr no hino que são um colosso. Que ninguém se engane, por favor.

Não vejo os norte-americanos ou os canadianos com necessidade de afirmar a grandeza do território através de comparações com países europeus. Talvez haja também aqui alguma da insegurança de país pequeno que o Brasil herdou de Portugal. Um pouco como um filho gigante de pais pequenos que gosta de sublinhar que é muito grande.

Ou talvez seja outra coisa qualquer — talvez seja apenas uma forma de afirmação, necessidade que todos os países sentem. Se temos um grande território, sublinhemos o grande território…

Afinal, nós por cá também andamos com tendência para isto:

PORTUGAL-MAR

(Esta última imagem encontrei-a num post do Malomil sobre este mesmo assunto.)

Por fim, a teoria que julgo mais acertada, neste tema tão difícil e fugidio: no fundo, temos (portugueses e brasileiros) alguma inveja da suposta importância alheia, do tamanho simbólico dos outros países. Precisamos, assim, de mostrar o tamanho do corpo, para compensar a pouca importância que julgamos ter, o nosso diminuto tamanho simbólico.

Será isso?

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Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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18 comentários
  • Mas tamém é verdade que a projeçom Mercator pom o Brasil (e os outros estados do hemisfério Sul) como se fossem mais pequenos do que som. Eu, por exemplo, fiquei abraiado quando soubem as verdadeiras dimensons do Brasil, que nos mapa-múndi nom chega ao tamanho de Groenlándia…

  • Perdoe-me, mas esta exata imagem do Brasil estava num livro que, em minha infância (e já levo 35 anos), era já velho. Imagino que ele fosse da década de 70, época da Ditadura Militar no Brasil, que tinha como propaganda dois lemas: ‘Brasil Grande’ e ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Não me recordo de ter visto qualquer imagem sequer parecida deste tempo de menino para cá…

    • Parece haver, então, um paralelo entre o uso dos dois mapas aqui mostrados (o terceiro é mais recente): são invenções das ditaduras.

  • Observemos que ele traz a Alemanha ainda dividida, a Tchecoslováquia ainda unida e uma ‘Rússia Branca’ que é chamada hoje em dia, por aqui, de Bielorrússia.

    • Bernardo, penso que Rússia Branca e Bielorrússia eram sinônimos ao tempo em que o país era uma república unida à URSS.

      Com a independência, o país (governado por um ditador com ares stalinistas…) mudou seu nome para Belarus.

  • Concordo com a teoria com que termina este artigo. Afinal, a reafirmação (para consumo interno e externo) da verdadeira dimensão de um território é como um argumento que tenta provar que uma grande dimensão geográfica tem de significar poder: poder suficiente para que o país mereça ser uma das figuras do jogo de poder universal, do xadrez global. Portugal, durante o salazarismo, sentia que perdia a influência na política internacional que pensava ainda merecer, um pouco paralela à importância internacional que a própria Europa perdia talvez sem o perceber ainda; e hoje é o Brasil que procura afirmar-se como uma potência em emergência e que construirá parte da História futura do mundo. Estes mapas são uma tentativa de obrigar à aceitação internacional da nossa importância usando o argumento mais arcaico da Humanidade: o tamanho. Como se a Suíça tivesse de ser grande para ser um país rico ou como se a Dinamarca tivesse de ser grande para ser o país onde melhor se vive no mundo… Perante sintomas, na sociedade, de que não temos relevância no equilíbrio internacional do poder, sentimos necessidade de dizer que somos de um enorme tamanho, ou que a nossa língua é das mais faladas, ou que a nossa posição geográfica está a meio do planisfério (não interessa se o mundo é redondo ou não, o que interessa é o planisfério), ou que isso da globalização foi invenção nossa. Os países são as suas sociedades, e as sociedades são constituídas por pessoas: os países têm as mesmas fraquezas, as mesmas forças e sofrem dos mesmos complexos que as pessoas. Os países não querem ser vistos como insignificantes, querem desempenhar um papel importante, querem olhar para o vizinho do lado e mostrar alguma coisa que têm melhor que o vizinho. Se o tamanho puder ser uma dessas coisas, já está!

  • O Brasil além de ser um gigante sul americano possui uma extraordinária unidade nacional a começar pelo idioma português que é falado em toda sua imensa área territorial , fazemos fronteira com dez países ,temos mais de sete mil km de litoral , temos a maior floresta do planeta e uma das maiores cidades do mundo (São Paulo) , somos um dos maiores produtores agrícola da terra , temos o maior rio em volume d’agua do mundo(rio Amazonas) e temos uma população de 204 milhões de habitantes . Com tudo isso acho que existe uma pontinha de inveja por parte de alguns portugueses, onde uma antiga colônia se tornou mais importante perante ao mundo que sua ex-metrópole .

    • Não existe inveja nenhuma dos portugueses pela dimensão territorial do Brasil, aliás, se o Brasil é gigante deve-o inteiramente ao antigo colonizador, que, sabiamente, conseguiu enganar os espanhóis. Mas, nunca ouvi qualquer agradecimento por parte de brasileiros a este feito e de lhe termos deixado, quanto a mim, o mais belo idioma do planeta. O que lamento, com mágoa mesmo, é o desprezo dos brasileiros pela sua própria história, apagando a antiga metrópole do mapa, como se tivessem nascido de uma barriga de aluguer, sempre com argumentos que se o colonizador fosse outro, o Brasil seria então um país bem melhor. É só ver as colónias holandesas (nenhuma desenvolvida com o Suriname como vizinho), as colónias inglesas e francesas, etc…

  • Triste comentário a respeito do Brasil. Os sites comparativos de tamanho servem somente para fins de ilustração e não para menosprezo de qualquer país ou povo. Infelizmente os portugueses conhecem pouco do Brasil e dos brasileiros e vice versa, o que acaba por aumentar o preconceito. Convido o nobre companheiro a nos conhecer e parar de acreditar que pensamos desta forma que Vossa Senhoria acredita.

    • Cara Ruth, o artigo é uma crítica a alguns portugueses e a alguns brasileiros que sentem alguma insegurança em relação à importância dos respectivos países. Não é minimamente negativo: se vir bem, é precisamente o contrário. Tenho todo o respeito pelo Brasil e defendo em muitos textos deste blogue aquilo mesmo que diz: aumentar o conhecimento mútuo para diminuir o preconceito. Convido-a a visitar outros artigos sobre o Brasil. Obrigado pela visita!

      • Eu não vi nada de menosprezo no artigo, acho bem colocado, Professor.
        As pessoas deveriam acordar e ver que somos parte do planeta e estamos todos de passagem.

        No próprio Brasil, praticamente qualquer brasileiro (de norte a sul) vai dizer que “a Amazonia é nossa”(nos referimos à parte que esta em território brasileiro) mas há um movimento no R.G. do Sul, ou nos 3 estados do sul, para se separar do Brasil. Vá entender…
        E a Amazonia, como toda a A.L. pertence aos E.U.A. se(quando) eles decidirem “descer” para tomar posse, muita gente vai aplaudir(especialmente no sudeste) muitos vão se revoltar mas nada poderá ser feito.
        Eu penso que o Brasil tem os dias contados como “união”, dada à falta de visão e atitude entreguista da “elite” que mandou e manda(coisa de séculos) no que chamamos de “Brasil”(na verdade, são muitos países em um).

  • Na verdade, países gigantes tendem a ser autocentrados, como se o mundo girasse em torno deles. É assim com os EUA e a Rússia, por exemplo, onde as pessoas tendem incluso a serem monoglotas. A China possivelmente anda igual. De tempos em tempos pesquisas nos EUA demonstram a ignorância do estadunidense médio frente a informações geográficas básicas da Europa, da América do Sul… Verdadeiras piadas. Portanto tem lá sua validade esse tipo de mapa que demonstra as dimensões comparadas do Brasil, porque a maioria dos brasileiros não faz a menor ideia do que significa, na prática, ter 8,5 milhões de km2, tampouco conhece as dimensões da França, da Espanha ou da Alemanha reunificada. Muito menos a sua relação com o tamanho do Brasil. A demonstração prática, comparativa, que parece óbvia e dispensável para os ilustrados (como nós?), é uma surpresa curiosa para a massa da população brasileira, que sabe da grandeza territorial nacional de maneira abstrata e difusa. No Brasil dizemos, em tom de chiste: “Entendeu ou quer que eu desenhe?” quando alguém parece não entender uma coisa que tentamos explicar. O tal mapa comparativo seria um uso literal deste chiste.

    ps.: quase ninguém no leste do Brasil (a área mais povoada, atlântica, que segue o horário oficial brasileiro, “de Brasília”) sabe que há mais dois fusos horários no país, e que quando é meio-dia em São Paulo, Rio, Brasília etc., ainda são 11 horas da manhã em Manaus, na Amazônia central, e apenas 10 horas em Rio Branco, capital do Acre, a poucas centenas de quilômetros dos Andes bolivianos e peruanos.

    Menos gente ainda sabe que a “barriga do Nordeste” (litoral e Zona da Mata dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, incluindo a grande metrópole Recife) está geograficamente no fuso G -2h, ou seja, 1 hora a mais que Brasília. Mas por razões de ordem prática (seguir os horários dos bancos, repartições públicas e mais recentemente da TV a satélite) segue a hora de Brasília. Algo semelhante se dá, aliás, com a Espanha.

    Há atualmente um telejornal da Rede Globo que começa às 5 horas da manhã (‘Hora Um’), horário de Brasília, que mostra a certa altura imagens de câmeras das ruas das principais cidades brasileiras. Enquanto as ruas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre estão mergulhadas na mais negra escuridão, as cenas do Recife mostram o sol a dourar os edifícios pernambucanos. A jornalista disfarça e nunca comenta o “fenômeno”. Mas é simples: pela “hora do sol” são já mais de 6 horas da manhã no Recife (hora em que sempre é dia claro nos trópicos próximos ao Equador). O relógios marcam 5 e pouco porque as autoridades assim o determinaram…

    Enfim, a ignorância das coisas básicas é geral e qualquer dado melhor explicado agrada e educa.

    É o que penso.

  • Primeiramente meus parabéns pelo blogue, Sr. Marcos Neves! É um primor! Ainda hoje em dia há quem se orgulhe imensamente do tamanho do país. Num aplicativo de estudo de espanhol só vi cenas assim de nós, brasileiros. Os hispanófonos não sentem necessidade disso. Mas todos pomos fotos de praias do Atlântico, do Pacífico, lagos da Patagônia, montanhas dos Andes etc. A minha impressão é que a nossa identidade nacional se assenta principalmente no território e, infelizmente, esquecemo-nos da história. São poucos os monumentos dos grandes vultos. Estátuas podem ser tão importantes quanto o romance histórico. Não sei dizer quantas pessoas entendem a identidade nacional fundada na história, mas creio ser poucas. Acrescente-se a isto o fato de que, nos dias que correm, a autoestima do brasileiro estar baixa.

  • Talvez antes seja uma tendência de regimes autoritários, buscar mostrar uma certa grandeza nacional como forma de ganhar legitimidade. A idade da imagem sobre o Brasil, por exemplo, já se vê na representação da Alemanha.

  • Por quê batem tanto no Brasil esse país não fizera nada para VCS esse seu artigo fala só por VCS não representa o Brasil mais amor por favor♡♡♡♥:-):-):-)

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