Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Cinco ideias falsas sobre tradução

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1. “A tradução é impossível.”

Sim, anda por aí uma ideia muito engraçada e que repetimos à exaustão sem pensar muito nela (por exemplo, quando falamos da supostamente intraduzível “saudade“): a tradução, segundo essa ideia, é impossível. Há quem ache que nunca podemos transmitir o que é importante entre as várias línguas — e, no entanto, todos os dias há quem faça traduções e todos nós usamos traduções sem nos apercebermos. É uma actividade “impossível” que afinal é bem possível. A tradução pode ser difícil (claro que é), mas não é impossível: os tradutores lá conseguem desenvencilhar-se melhor do que por aí se julga. E, se pensarem bem, a comunicação é bem mais difícil entre pessoas que falam a mesma língua, mas pensam de formas muito diferentes do que entre pessoas que falam línguas diferentes, mas têm ideias semelhantes.

2. “A tradução é demasiado fácil.”

Se alguns acusam a tradução de ser impossível, muitos dizem que é tão fácil que até o primo de 9 anos sabe traduzir. Não há muito a dizer perante isto: é claro que, às vezes, é fácil traduzir — enquanto outras vezes é trabalho a raiar (lá está) o impossível. Tal e qual como escrever: todos nós sabemos fazer listas de supermercado, mas há muito poucos verdadeiros escritores — e também muito poucos que saibam redigir um manual técnico de uma qualquer área. A linguagem é imensa: para usá-la como deve ser pode ser preciso criatividade, ou conhecimentos técnicos avançados, ou paciência, ou muito trabalho — tudo isso também acontece com a tradução, em que para além de trabalhar com a nossa própria língua, temos de lidar com outra língua, com as suas manias e absurdos (que todas têm) — isto para não falar da língua própria de cada área técnica, por exemplo, e com todas as ferramentas necessárias para fazer um bom trabalho.

3. “A tradução não serve para nada.”

Por estes dias em que — supostamente — todos falam inglês, muitos sentem, intimamente, que a tradução tem os dias contados. E, no entanto, ela existe e cresce. A verdade é esta: podemos falar inglês e usá-lo para longas conversas com amigos doutras línguas e para negociar sem grandes dificuldades, mas quando queremos ler alguma coisa, seja literatura da boa ou um banal catálogo, continuamos a preferir a nossa própria língua. Não há maior tiro no pé do que uma empresa que quer vender, por exemplo, em França e publica os seus catálogos e a sua publicidade em inglês (além de ser, em muitos casos, proibido).

4. “A tradução é pouco criativa.”

A tradução exige grande criatividade. É uma criatividade um pouco diferente da criatividade da escrita (embora também tenha muito desta). É uma criatividade relacionada com a resolução de problemas, com a procura de soluções. Se quiserem, podemos dizer que é uma criatividade que tem de incluir muito da criatividade da escrita, conciliando-a com a fidelidade ao nosso texto de partida: é a criatividade necessária para reproduzir a originalidade e surpresa de um outro texto no nosso próprio texto, que tem de ser original e surpreendente sem deixar de ser fiel. É difícil e cansativo — mas também um desafio magnífico para quem gosta de trabalhar com palavras e de defender a comunicação e a arte.

5. “A tradução é rápida.”

Quase nunca é rápida. Por vezes, demoramos mais tempo a traduzir um texto do que a escrevê-lo (quem escreve pode optar por ir por outro caminho se determinada palavra for um escolho; quem traduz tem de resolver todos os problemas que lhe aparecem pela frente). Infelizmente, esta ideia falsa leva a pedidos de tradução com prazos absurdos, em que depois de um mês a escrever um catálogo, alguém pede a um tradutor para o traduzir em dois dias. Traduzir é um pormenor, não é? Para outro exemplo, agora da área da legendagem, leiam este artigo da Luísa Ferreira sobre como traduzir um filme demora muito mais do que a duração do próprio filme — para quem traduz, isto é óbvio; mas para muitas pessoas, traduzir é tão fácil como falar. E está tão longe disso que até dói — dói, literalmente, depois de dias de trabalho intenso.

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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4 comentários
  • A traduzir o romance cento e tal, só posso dizer que este artigo está, todo ele, correto.

  • Correctissimo, na tradução técnica o tempo necessário para pesquisa é muito, traduzindo sempre na mesma área, há muitos anos.

  • Inteiramente de acordo. Já traduzi poemas do francês e do castelhano e sei bem o que passei. Inclusivamente fui confrontado com uma proposta que recusei de traduzir um livrinho de poemas do castelhano com o pagamento da tradução à linha. Campeia por aí a desvalorização deste (e de quantos mais?) trabalho.
    Cordiais saudações.

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