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Crónicas

Cinco tesouros escondidos numa livraria

Ora, hoje, mais do que tentar escrever alguma coisa, apetece-me recomendar as palavras de outros. Não, não são recomendações de Natal. Não ofereça estes livros: quando os comprar, fique com eles e leia-os do princípio ao fim. Depois, compre-os novamente e ofereça-os a quem quiser!

1. A Vida Imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skloot)

Um livro já com alguns anos, mas que descobri agora, ao acaso, numa livraria longínqua. Deixei a paisagem a passar lá fora, enquanto me embrenhava na história de Henrietta Lacks, uma negra norte-americana que morreu de cancro há décadas, depois de doar (sem saber) algumas células à ciência — células que ainda hoje se reproduzem nos laboratórios de todo o mundo, numa imortalidade que ninguém previu. Essa doação foi essencial para o desenvolvimento da medicina — só essa história já seria suficientemente interessante, mas quando se junta à história da família de Henrietta, ficamos com um livro inesquecível entre mãos.

2. O Impostor (Javier Cercas)

Se Henrietta foi importante para a História sem nunca o ter sabido, Enric Marco foi um catalão que inventou uma importância histórica que nunca teve. Durante anos, todos pensaram que tinha estado num campo de concentração nazi. Chegou mesmo a presidente de uma associação de sobreviventes. Depois, soube-se que era tudo mentira. Javier Cercas conta a história em forma de romance, mas sem entrar no território da ficção.

O livro deixou-me de nariz enfiado nas páginas durante o Natal do ano passado — e hoje penso que não deixa de ser uma leitura com o seu quê de importante, quando andamos a falar todos de mentiras públicas como se fosse uma coisa recente. Note-se que Enric Marco se tornou um exímio contador de histórias comoventes — que nunca aconteceram…

3. Everybody Lies (Seth Stephens-Davidowitz)

Enric Marco mentiu. E, no fundo, todos mentimos. Pelo menos, é o que nos diz o Google. Espero que alguém esteja, neste preciso momento, a traduzir este livro. Olhando para os dados que o Google tem sobre todos nós — não, diga-se, sobre cada um de nós, mas sim sobre a quantidade de procuras que fazemos — e ainda para mais uns dados que, até há poucos anos, estavam inacessíveis, o autor descobre a verdadeira geografia do racismo dos E.U.A., quais são as nossas grandes inseguranças, algumas curiosas diferenças culturais do mundo, se afinal o tamanho importa ou não, entre muitas outras descobertas importantes ou apenas interessantes. Um livro que nos deixa a ver o mundo de outra maneira…

4. Arriscar a Pele (Nassim Nicholas Taleb)

Ora, se Stephens-Davidowits se atira de cabeça para as águas profundas dos Grandes Dados, Nicholas Taleb tenta refrear os ânimos. O autor desconfia tremendamente dessa catadupa de dados — que mais não é (diz Taleb) do que um palheiro cada vez maior onde cada vez mais é difícil encontrar a agulha… Tudo é mais opaco e aleatório do que parece — já nos dizia ele desde o primeiro livro.

Neste último, acabado de chegar às livrarias portuguesas, Taleb defende o princípio moral antiquíssimo de que devemos arriscar a pele em tudo o que fazemos ou dizemos, sob pena de nos tornarmos charlatães, como acontece com grande parte dos autores e comentadores actuais (não digo eu; diz Taleb). Taleb é irrascível, caprichoso, tremendo. Irrita-nos, muitas vezes. Mas tem razão em muito do que diz — e vale bem a pena ler este livro!
Sobre o tal princípio do arriscar a pele — é mesmo o que parece. Diz-nos o autor que um engenheiro, depois de construir uma ponte, devia viver lá por baixo com a família. Certamente que menos pontes cairiam…

5. Quem Vamos Queimar Hoje? (Nelson Nunes)

Na verdade, hoje em dia, todos arriscamos a pele ao falar em público — porque quase todos falamos em público quando publicamos nas famosas redes sociais.
Ora, basta uma piada mal afinada para começarmos a arder na fúria da multidão enraivecida. Mas, apesar de tudo, é mais provável que sejamos parte dessa multidão do que vítimas da fogueira.

Por isso, este livro é tão importante. Não para nos limitar a liberdade de expressão — o autor é um grande defensor do princípio — mas para percebermos o poder que temos nas mãos. Um poder — admitamo-lo! — que mal sabemos utilizar.

Quem brinca com o fogo, queima-se. Ou, pelo menos, queima quem não merece.

Foi um percurso um pouco sinuoso pelos prazeres escondidos nas estantes das livrarias. Mas um percurso que vale a pena, garanto.

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Marco Neves

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