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Português

Como eu aprendi, e continuo a aprender todos os dias, o Português (por Marina Dellalyan)

Convidei Marina Dellalyan, leitora desta página, para descrever como foi o seu encontro com a língua portuguesa. Aqui fica o testemunho. Muito obrigado!

Foi em 1990 que visitei pela primeira vez Portugal.

A minha irmã já vivia em Lisboa com o marido, recém-casados, os dois músicos,  convidados pela Fundação Gulbenkian, por um ano, no máximo dois anos. Seria uma bela experiência para quem era jovem e começava a sua vida profissional. Naquele ano tinha falecido o meu pai. A minha irmã convidou-me a mim e a minha mãe para visitarmos Lisboa e estarmos em família, na altura de Natal. Eu, com o meu filho de 2 anos, e a minha mãe chegámos em Dezembro e ficámos mais ou menos um mês.

A vida aqui era deslumbrante para mim. Já tinha viajado para os EUA e alguns países de Europa, mas Portugal tinha uma cara muito familiar e sentia-me como se estivesse em casa. Recordo que estava aterrorizada com o português e achava que nunca seria capaz de aprender uma única palavra. O meu contacto com a língua era muito reduzido, claro. Na televisão estava a falar uma senhora que deformava a cara toda para dizer qualquer palavra e as maneiras dela a falar eram um autêntico pesadelo para mim. Confesso que tudo soava me muito agressivo, agreste, só estava a ouvir os rrrrrrr, os ssssss, os xxxxxxx, os shshshshschchchch…. Parecia um aparelho antigo de som electrónico.

A segunda viagem foi em 1993.

Desta vez fiquei um pouco mais tempo. Entretanto já tinha nascido o primeiro filho da minha irmã e eles não  mostravam sinais de querer voltar para Arménia. No fim de algum tempo voltei, mas desta vez já não para Yerevan, Arménia, mas para Moscovo, onde o meu marido tinha a sua empresa.

A vida em Moscovo era insuportável. Depois de um inverno lisboeta, cheio de flores, de árvores verdes, o sol a brilhar no céu azul, pessoas tranquilas e de boa fé, a paisagem de Moscovo era mais que triste, escura, feia, cheio de lama em todo o lado, a vida quotidiana muito agitada, irritada e nervosa, sempre na ofensiva, com muita criminalidade, de vários calibres, em cada esquina. Cansei me definitivamente daquela cidade anti-humana, anti-social, anti-natural, corrupta e perigosa. Tinha que pensar nos meus filhos, na segurança, no futuro, na educação deles. Claro que Moscovo era, e é, uma cidade cultural, mas ao mesmo tempo também havia muito chauvinismo e xenofobia, isso depois de colapso de URSS, os russos não perdoavam a ninguém pelo grande falhanço de política de Big Brother. Não havia muitas nem poucas razões para que fossem simpáticos. O país respirava ódio.

Chegou o tempo de eu querer viver em Portugal. Assim foi.

Antes de mudar a minha residência pensei ter algumas aulas de português para saber o mínimo dos mínimos, porque já sabia que ia trabalhar como professora de piano numa escola de música. Tive cinco aulas com um senhor português e, se não estou em erro, era jornalista correspondente em Moscovo. Bem, aprendi muito pouco, quase nada, apenas boa tarde, boa noite, como está… ele não falava russo, eu não falava português.

Cheguei, no final de Agosto de 1995, com os dois filhos e duas malas.

Os primeiros tempos foram bastante difíceis. A direcção da escola, sabendo que eu não falava português, tinham distribuído alunos adolescentes com quem eu podia falar em inglês.

Na primeira reunião que tive na escola não percebi nada, nem uma palavra, e prometi a mim mesmo  que esta situação acontecia pela primeira e ultima vez. Da próxima vez teria que compreender pelo menos algumas coisas.

E comecei a estudar, sozinha. Apenas tinha três dicionários, um de Russo para Português,  outro de Português para Russo e o terceiro de inglês para Português. Comprava revistas e jornais e lia, a maior parte das vezes, sem entender uma única palavra. Procurava e encontrava palavras que já sabia de inglês ou de russo. Não estava ainda familiarizada com a sonoridade e fonética da língua. Tudo era muito estranho. A maior parte das vezes refugiava-me no inglês e falava com as pessoas em inglês. Entendia que não era uma solução adequada ou saudável. Estava em Portugal e tinha que falar português. Acontece que os meus exercícios de tanto ler e escrever começaram a dar alguns resultados. No fim de dois meses a minha comunicação começou a ganhar alguma segurança, alguma forma, muito delicada e frágil, mas simpatizada por quase todos que se maravilhavam com os meus progressos e com a minha capacidade de arrancar tão rapidamente. Na secretaria da escola, quando era preciso escrever algo, uma senhora muito querida, a Maria Antónia, ajudava-me com os tiles, acentos, cedilhas  e explicava-me o significado das palavras.

Os primeiros livros que li em português eram traduções dos clássicos russos. Já tinha lido os originais e o facto de conhecer a obra e o enredo de acontecimentos, ajudavam-me a compreender as palavras desconhecidas. Os meus livros estavam cheios de sublinhados em várias cores onde cada cor significava algo para lembrar, para separar, para decorar, para comparar, para passar no caderno… As margens das páginas estavam cheias de notas, traduções em várias línguas que me podiam ajudar a entender alguma coisa.

Não recordo qual foi o primeiro livro, não traduzido de russo, mas originalmente escrito em português, porque foi uma passagem bastante suave e natural.

Com quem aprendi falar mesmo, foi com os meus alunos. Havia um “pacto secreto” entre nós: eu falava tudo como conseguia, mas eles tinham que me corrigir. Eu ensinava-lhes a tocar piano e eles ensinavam-me a falar português. Passado muitos anos um dos meus alunos recordava estes tempos e elogiava a minha capacidade de aprender. Os alunos, as vezes, têm uma capacidade de armazenamento de memórias bastante estranhas…

A minha maneira de formar as frases e expressar-me precisa sempre de um polícia no interior da minha cabeça. Eu ao falar tenho que me controlar em todas as concordâncias gramaticais. Feminino -masculino é uma ameaça real, muitas vezes até por causa de duas  razões interessantes. De duas línguas que domino totalmente, o arménio não tem feminino e masculino. Nós  entendemos o género das palavras e  dos nomes pelo significado. Pelo contrário, o russo tem 3 géneros: feminino, masculino e do meio (neutro). Muitas palavras são em russo são de género diferente  do  português. Por exemplo, em português as palavras que vêm do antigo grego e  têm acabamento …ma (tema, cinema…) são masculinas e em russo são femininas. A terminação das palavras é um assunto de entrar em labirinto e não saber como sair. O planeta em russo é A planeta… Às vezes sei que faço traduções na minha cabeça em várias línguas ao mesmo tempo, o que complica um pouco a minha fala e o pensamento. Acho muita graça nas palavras que acabam na letra A e não são femininas, e pelo contrário, as palavras que não acabam em A mas que são femininas (tarde)… «Dia» e «Noite» têm os géneros misturados, «Mulher» e «Colher» não deviam ser de feminino pela terminação das palavras. «Em Angola» mas «Na Arménia»… «A multidão», «A gente» mas «O Povo», «A Pátria» (tem a ver com pai, certo?), «O limão» mas «A mão»… «O céu» mas «A Céu»… depois não falem mal do alemão, sim?

Hoje em dia prefiro ler em português, compro 90 % dos meus livros em português. Mas sei também que mais que leia livros em português, faço e vou continuar a fazer muitos erros. Não estou preocupada com o meu sotaque porque sei que isso nunca vai sair de mim, por mais que eu tente, vai haver coisas que não sei como distinguir. A minha sobrinha brinca comigo dizendo que a minha rotunda é diferente de todas as rotundas de Portugal. A minha rotunda é mais aguda, mais bicuda, mais triangular e pouco circular. Uma pessoa amiga diz me que eu falo arménio mas com as palavras portuguesas.

Acho o português uma língua muito viva, com muito sabor e gosto. Os meus escritores de eleição são: António Lobo Antunes e José Saramago. Li quase tudo de Saramago, mas não li tudo de Lobo Antunes. O livro Explicação dos Pássaros fez-me apaixonar pela língua portuguesa. Sinto-me feliz por poder ler em português tanta literatura traduzida de tantas outras línguas, não me importo se a tradução está feita directamente da língua original ou de uma outra, chinês-inglês-português, porque português é uma língua extremamente lógica, expressiva, flexível e com sentido. Divirto-me quando apanho erros nos livros, na imprensa, na televisão. Há muitos. Mas às vezes é triste e incompreensível quando os portugueses não entendem as diferenças entre «há» e «à», ou dizem «parece-me a mim» e outras situações semelhantes.

Ler em outras línguas, hoje em dia para mim, só se for mesmo por obrigação. Sinto que, infelizmente, estou bastante afastada da minha língua-mãe. O meu arménio está a tornar-se algo estancado, não se desenvolve, não está vivo. Na Arménia dizem que tenho um sotaque estranho para o arménio, que as letras saem diferentes. É a mesma coisa que acontece com a sensação de estar cá e estar lá. Aqui sinto-me bem e sinto-me parte de tudo isso, por bem e por mal, mas sei que aos olhos de muitos sou e serei sempre  estrangeira. Lá sinto-me bem e é o meu país de origem, onde tenho os meus amigos de infância, familiares e muitos conhecidos, mas também sinto que já não pertenço e não sei muita coisa, não posso saber, não tenho tempo.

O meu tempo é aqui.


Marina Dellalyan nasceu em Yerevan, capital da Arménia. Começou a estudar piano, com o seu pai, com apenas 4 anos. Estudou na Escola de Música Tchaikovsky e depois no Conservatório Nacional Komitass. Terminou com distinção como Solista, Concertmaister e Professora de piano. Vive  em Lisboa desde 1995.  É  professora de piano na Escola Nossa Senhora do Cabo e concertista, colaborando com vários músicos, nomeadamente Dellalian Trio, onde é membro fundador junto com a sua irmã violinista Narine Dellalian e violoncelista Levon Mouradian.

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Marco Neves

6 comentários

Em primeiro lugar: excelente artigo. Sempre tive um grande carinho pelo povo Arménio. Não só pelo aquilo que nos deu – e continua a dar – o Arménio Calouste Gulbenkian, mas pelo genocídio que sofreu este povo, às mãos dos Turcos. Há uma passagem do texto que, realisticamente, a cronista nos fala da vida em Moscovo logo após a queda da União Soviética e leva-me para a leitura, que aconselho vivamente, do livro ” O Fim do Homem Soviético ” da prémio Nobel da Literatura Svetlana Alexievich.
Um abraço para a cronista, onde nela, abraço todo o Povo Arménio.

Obrigada pelo seu comentário, caro Miguel Ângelo Costa. Agradeço a sua referência do livro “ O fim do Homem Soviético”. Confesso que não conheço mas vou procurar. Apesar de não ter grandes saudades daqueles tempos posso imaginar que será fácil para mim de me identificar e reconhecer em muitas situações.
Sim, o meu povo sofreu muito pelas mãos dos turcos. A minha família é sobrevivente de genocídio do 1915. Todos os meus avós, do lado da minha mãe e do meu pai, eram órfãos e cresceram nas instituições de ajuda humanitária que surgiu da parte dos muitos países como Grécia, Italia, França, Líbano. Em quatro gerações só eu e os meus filhos é que nascemos na mesma cidade. Isso é trágico mas, ao mesmo tempo, mudou a minha compreensão do mundo, da vida. A minha geografia naturalmente é muito larga e abrangente. Talvez é por isso que Portugal, com a sua simplicidade e modo natural das coisas, foi tão familiar para mim, mas antes de o sol, mar e o céu azul, foi e é por causa das pessoas, sem alguma dúvida.
Um abraço e, mais uma vez, muito obrigada pela sua simpatia.

Inacreditável, como ela aprendeu tão bem este rude e doloroso idioma. Parabéns e ficamos nós aqui em dúvidas: porque gostamos do samba e não da samba. Abraços,

Caro Mauricio, agradeço o comentário. Rude e doloroso? Nãaaaao!!! Deve haver outras línguas ainda mais difíceis para aprender.
Gostar do samba ou da samba ? Hmmmmm… talvez seja uma das facetas que faz gostar desta diversidade toda.
Obrigada e bem haja!

Muito interessante! Mais um importante depoimento de gente que aprende nossa língua e se enlaça nela, não a largando mais…
Lembrou-me a história do húngaro Paulo Rónai, que aprendeu o português na Hungria e, depois de uma estada rápida em Portugal, veio para o Brasil, onde se fixou, tornou-se professor, tradutor, filólogo e deixou descendência. Um de seus livros é “Como aprendi o português e outras aventuras”, que vale muito a pena ler.
Se a Sra. Dellalyan um dia vier ao Brasil (quando o mundo escapar a esta pandemia!), sugiro que visite (se já não a conhece) a cidade de São Paulo, onde está a maior colônia de armênios e descendentes no país.
Perto da estação do metrô/metro “Armênia”, no bairro da Ponte Pequena (o tradicional reduto dos armênios na cidade), além das igrejas do rito armênio há um monumento em memória das vítimas do genocídio.
A imigração armênia, mesmo não sendo muito numerosa, também deu sua cota de contribuição ao Brasil: há uma atriz conhecidíssima, Aracy Balabanian; o reitor da Universidade de São Paulo, Prof. Agopyan, é armênio de nascimento; a universidade, inclusive, tem há várias décadas uma cátedra de língua e literatura armênia.

Caro sr. Júlio Cesar Pedrosa, muito obrigada pelo seu comentário.
O seu comentário fez me lembrar de um dos livros de Chico Buarque, “Budapeste”, precisamente sobre aprendizagem de uma língua muito estranha, no inicio do livro, e que depois se torna uma língua de trabalho, de traduções e de vida diária.
Já estive no Brasil há dois anos, mas visitei só a região de Rio de janeiro, Angra dos Reis, Ilha Grande… Foi uma viagem bonita e inesquecível.
Tenho alguns amigos arménios que vivem no Brasil e tenho alguma ideia da comunidade arménia na cidade de São Paulo. Nesta universidade, onde há a cátedra de Língua e literatura arménia, fazem bom trabalho para criação dos dicionários, traduções e divulgação da língua arménia.
Gostava, claro, um dia poder visitar São Paulo também. A vida é bonita e rica com estes intercâmbios culturais e, simplesmente, com o conhecimento das outras realidades, outras visões, experiências e existências.
Agradeço muito a sua simpatia e bem haja.

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