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Crónicas

Como levar duas chapadas em Budapeste (ou as cinco maneiras de viajar melhor)

1. Arranjar uma desculpa

Ah, é tão bom visitar uma cidade com alguma desculpa para a viagem — assim não temos de aguentar o dedo em riste a acusar-nos do maior dos crimes: ser turista!

Pois, é verdade, estou em Budapeste…

(ou estava, há duas semanas, quando escrevi esta crónica para o Sapo 24)

… bem longe de casa, mas tenho um alibi. Vim a uma útil e interessante conferência cujos pormenores interessam tanto ao leitor como a política externa do Butão. Peço só que confie em mim: estou aqui por boas razões. Não sou turista! Não venho contribuir para essa coisa suja e pegajosa que é a massa humana a escorrer por ruas de maus restaurantes e a concentrar-se em miradouros onde a única coisa que vemos são os rabos de outros turistas e, por vezes, esticando o pescoço, a paisagem duplicada em centenas de ecrãs de telemóveis.

Não, eu venho porque preciso. Aliás, com um pouco de esforço até posso declarar-me como viajante. Qual é a diferença? É fácil: os outros são turistas; nós somos sempre viajantes.

2. Olhar para o telemóvel

Ora, enfim, um viajante gosta de conhecer o que há de diferente nos países onde vai. E não é que as diferenças começam no nosso próprio bolso. Por aqui, a moeda (ainda?) não é o euro. Aqui, olho para as notas e vejo tantos zeros que me julgo, por momentos, milionário. Depois, lembro-me: eu cresci com uma moeda exactamente assim…

Bem, mas há outras diferenças, talvez mais subtis: pegamos no telemóvel e olhamos para o Google. Felizmente, já não é preciso pagar fortunas para ter acesso à internet em países como a Hungria. A União Europeia não serve para evitar governos a resvalar para o autoritário, mas pelo menos deixa-nos ir à internet sem pagar lingotes de ouro pelo roaming. Não se pode ter tudo.

Bem, dizia eu: o que vemos no Google é agora parte da paisagem local, do sabor do país. Os doodles, aqueles bonequinhos com que o Google pinta a página das pesquisas, também mudam de país para país. Fiquei a saber que o primeiro domingo de Junho é o Dia do Professor por estas bandas — e, pelos vistos, é suficientemente importante para aparecer na página onde todos vão para saber mais sobre o mundo e a sua vida.

Não acontece na Hungria, mas os mapas do Google também mudam de país para país. Se formos à Rússia e acedermos ao Google Maps, veremos uma Crimeia orgulhosamente russa. Já na Ucrânia, o mapa é como obriga a lei ucraniana: a Crimeia continua no país onde estava há uma década.

As diferenças são saborosas, mas também as semelhanças. Reparei, em conversa com húngaros, que os nossos países têm algumas semelhanças. O tamanho é mais ou menos o mesmo; a população também não difere muito; as línguas são igualmente incompreensíveis para um espanhol…

3. Fazer, às escondidas, o mesmo que os turistas

Peço ao leitor que não conte a ninguém. O certo é que, não sendo turista, acabei por cair nalguns dos pecados dessa gente. Nos intervalos da conferência, lá subi aos miradouros, lá andei pelas ruas da cidade, lá procurei os melhores sítios com o dedo enfiado no mapa. Até me deixei levar pelos jantares organizados pela conferência.

Eu sei, eu sei. Um viajante nunca aceita fazer o que vem nos guias. Um viajante não pode ter horas marcadas para comer ou visitar seja o que for. Mas, o que querem? Uma pessoa cansa-se e às vezes deixa a pele do nobre viajante e desliza para os pés do prosaico turista.

Confesso que até senti um certo prazer quando cheguei ao pé da Estátua da Liberdade cá do sítio e olhei para a cidade lá em baixo, em redor do Danúbio… Fiquei deslumbrado, embora saiba que um viajante a sério não se deslumbra com uma mera paisagem. Mesmo que seja uma paisagem de nos deixar assarapantados.

4. Sair dos planos e levar uma chapada

Bem, confesso agora abertamente: não deixa de ser bom ir ao sabor do que dizem os guias e ouvir quem sabe alguma coisa do assunto falar um pouco sobre a cidade. Por isso, sim, fazer o tour da cidade é banal, mas tem os seus encantos.

Mas o maior encanto de todos é o que acontece quando saímos do previsto. Ainda ontem, em vez de dar a volta planeada pela cidade, fugi com dois amigos e fomos até à Sinagoga de Budapeste. Estava fechada, o que devíamos ter previsto, já que era sábado. O certo é que ficámos embatucados perante o que vimos por lá: nas traseiras da sinagoga há uma escultura de uma árvore com os nomes das vítimas húngaras do Holocausto. Ninguém nos levou até ali — fomos porque um de nós está a trabalhar num livro que refere aquele monumento em particular e, no meio duma conversa qualquer, decidimos não sair da cidade sem visitar a sinagoga.

Olhei para aquela estátua e senti uma chapada. Já todos sabemos a história do Holocausto, tantas vezes repetida que vai perdendo a força. Pois vi ali algo tão óbvio: aqueles mortos eram famílias normalíssimas, crianças que ouviam histórias dos pais e avós que imaginam o futuro dos netos, famílias que se viram transportadas para uma morte industrial, sistemática, pensada para matar qualquer futuro daquelas crianças em particular. Já foi há muito tempo, é verdade. Quero acreditar que a Europa nunca voltará a um tempo em que se mata gente só porque são deste ou daquele povo. E, no entanto, não convém ficar distraído a olhar para a paisagem.

5. Procurar um livro e levar outra chapada

Enquanto os meus amigos ficaram sentados à sombra da sinagoga, apeteceu-me cumprir um dos rituais das minhas viagens: procurar um livro para marcar o meu território pessoal.

Usando o telemóvel (claro está), procurei a livraria mais próxima. Entretanto, ao andar, deixei o telemóvel no bolso e fui-me distraindo com tudo o que uma cidade como Budapeste nos oferece aos olhos e aos ouvidos.

O telemóvel vibrou. Estranhei. Já chegara?

Parece que sim. Lá encontrei uma porta discreta e, lá dentro, dois andares de livraria. Sorri e comecei logo a passar os livros pelas lombadas. Até os livros escritos em húngaro eram apetitosos — mas seria um desperdício levá-los para casa…

Subi ao segundo andar e procurei as estantes das línguas que consigo ler. Encontrei então um livro de Antal Szerb chamado, na tradução inglesa, Journey by Moonlight (a tradução portuguesa é Viagem à Luz da Lua). Pus-me a ler e os primeiros parágrafos deixaram-me com um sorriso na boca: o narrador descreve como Mihály ficou fascinado com Veneza por ser tão… veneziana, cheia de gôndolas e canais. Mihály está de lua de mel. O casal — descreve o narrador — esforça-se por encontrar o equilíbrio entre ser snob e ser anti-snob. Não queriam visitar todos os museus, mas também não querem ser como aqueles que não visitam nada para poder dizer, orgulhosamente, que não visitam nada que venha nos guias. Enfim, problemas de turistas armadas em viajantes — ou vice-versa, já não sei. Não consigo descrever a delícia das primeiras páginas — devorei-as antes de me pôr a escrever este texto.

Agora, a segunda chapada. O nome do autor não me era completamente estranho, mas o certo é que não conhecia a sua história. Foi só depois de me deliciar com aquela escrita bem-humorada sobre um casal indeciso entre ser ou não ser um típico turista que olhei para a biografia do autor e soube então que Antal Szerb foi assassinado à pancada num campo de concentração nazi.

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Marco Neves

7 comentários

Não posso deixar de registrar aqui, relacionado a essa história, o nome de Paulo Rónai, judeu húngaro que migrou para o Brasil fugindo da perseguição nazista. Nos deixou um grande legado intelectual na área de línguas e recomendo, para quem quiser conhecê-lo, “Como aprendi o português e outras histórias”, livrinho que um dia encontrei enquanto estava triste, vagando pela biblioteca da universidade onde estudava, e que me alegrou a alma.

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