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Crónicas

Como será Portugal em 2104?

O meu avô Manuel fez 92 anos ontem. Quando chegámos à festa, virei-me para o Simão e disse-lhe: quando tu chegares aos 92 anos, já estaremos no século XXII!

O que muda em 92 anos?

O meu filho não ligou muito, mas eu fiquei espantado com essa conclusão. Sim, é verdade: o Simão, se chegar à idade do bisavô, viverá no próximo século.

Não devia ser nada de espantoso — e, no entanto, espanta-me… Como será esse país que não conhecerei, o Portugal de 2104, o país dos bisnetos do meu filho?

Penso no meu avô e no país que o viu nascer, em Abril de 1927. Ainda não tinha passado um ano do golpe que haveria de dar origem ao Estado Novo — nome que ninguém conhecia ainda. A guerra que terminara na década anterior não se chamava ainda Primeira Guerra Mundial, pois só veio a ser «primeira» em contraste com a Segunda Guerra Mundial — e essa ainda vinha longe, tão improvável como todos os futuros.

Durante estes 92 anos, descobriu-se o ADN, apareceu a bomba atómica, chegou a televisão às nossas casas, o tal Estado Novo que estava a nascer deixou-se ficar por décadas até um certo dia, houve homens a caminhar na Lua, apareceram e desapareceram mais países do que me consigo lembrar, nasceram e morreram génios de todas as artes e de todas as ciências — conseguimos até fotografar um buraco negro e partilhar a fotografia instantaneamente pelo mundo inteiro…

Conduzir à inglesa em Portugal?

E daqui a 92 anos? Não sabemos, claro. No entanto, imagino o meu filho — espero que ele ainda cá esteja nesses primeiros anos do novo século, a brincar com os bisnetos — a olhar para trás, sabendo bem quais são as datas que nos marcaram, as revoluções, guerras e invenções que nos esperam. Haverá também datas que só a ele entristecem ou alegram… E estou certo que terá saudades de pessoas que hoje ainda nem nasceram.

Tal como hoje não conseguimos imaginar como era viver em 1927, também os jovens de 2104 olharão para 2019 sem perceber como era, realmente, viver nesta época — o que se compreende, pois nem nós, pobres habitantes deste tempo, percebemos muito bem o que se passa. Por outro lado, certos acontecimentos em que mal reparamos serão parte essencial da história que se há-de contar sobre o nosso tempo.

Faço uma aposta: de hoje até esse futuro longínquo — que, no entanto, será vivido por muitas das nossas crianças (a não ser que lixemos isto tudo de uma vez, o que não é de excluir) — haverá mudanças que, por esses dias, serão vistas como tradições de sempre, sem que ninguém se lembre que houve épocas em que as coisas se faziam de maneira diferente.

Explico-me olhando, de novo, para o passado. No ano em que o meu avô nasceu, os automóveis, em Portugal, ainda circulavam pela esquerda. Sim, é verdade: o trânsito, em Portugal, já se fez à inglesa! Só em 1928 mudámos para o lado em que hoje conduzimos… Hoje, ninguém se lembra disso.

Imagino que, dentro de 92 anos, coisas que consideramos naturalíssimas em 2019 já terão caído no esquecimento dos portugueses de então. Que coisas? Não faço ideia. Aposto que não iremos mudar o sentido da circulação de novo… Mas talvez o sentido da circulação já nem seja relevante dentro de 92 anos, com os carros automáticos a calcular a melhor rota para lá de qualquer convenção… Se houver carros, claro.

Os tachos e as panelas do futuro

Muito irá mudar. E, no entanto, há muitas coisas que ficarão iguais. Aliás, aquilo que dura há muito tempo tem mais probabilidades de continuar do que qualquer novidade. Não, não estou a dizer que as novidades nunca pegam. Tudo o que existe já foi outrora novidade. Estou a falar de probabilidades…

Por exemplo, os utensílios da cozinha: daqui a 92 anos, há uma elevadíssima probabilidade de encontrarmos tachos e panelas numa cozinha — o mesmo não direi daqueles robôs armados em cozinheiros muito em voga desde há uns anos (ou já passou a moda?). As novidades serão outras, mas os tachos e as panelas lá estarão (digo eu).

E numa dessas cozinhas do futuro, gosto de imaginar o meu filho, a caminho dos 100 anos, sentado à mesa com a família, a sorrir, enquanto os bisnetos, entre risos, contam histórias dos amigos e dos primeiros amores lá da escola, onde andam a aprender as guerras e revoluções desse imenso século XXI. E um dos netos do meu filho há-de dizer a um dos seus próprios filhos: quando tiveres 92 anos, ali como o avô Simão, estaremos quase a chegar ao século XXIII!

(Crónica publicada originalmente no Sapo 24.)

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Marco Neves

4 comentários

Belíssima crónica. Autenticamente de sonho. Eu próprio penso por vezes nesses termos: de o meu neto, de 10, ainda poder ‘ir ver’ o século XXII. Seria muito bom que o Marco tivesse maneira de fazer chegar esta aqui ao ‘destino’…

Dois minúsculos apontamentos.

Até à Segunda Guerra Mundial, a Primeira foi designada (pelo menos entre nós) como a Grande Guerra.

E recordo-me de, na Holanda, nos anos 70, a Segunda Guerra Mundial ser chamada simplesmente “A Guerra” (diziam, por exemplo, “Durante a Guerra…”). É que a Holanda não tinha entrado na Primeira, e a Segunda ainda estava bem viva na memória.

Interessante. Circular pela esquerda ainda se mantém nos comboios e nos eléctricos. Vem-me à memória os cavaleiros, segurando as rédeas com a esquerda e brandindo as armas com a direita. (Hi-yo, Silver! )
A vantagem seria deixar a mão direita livre – para o que desse e viesse (Do mesmo modo, o aperto de mão com a direita, para ninguém poder segurar uma arma).
Napoleão, ou por ser canhoto (dizem) ou para mudar tudo, “virou à direita”.
Lembro-me de ter visto um filme antigo de Ingmar Bergman, com os carros circulando pela esquerda.

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