Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Como traduzir a palavra «saudade»?

Quantas vezes já ouvimos dizer que a palavra «saudade» não tem tradução? Desengane-se: essa nossa bela palavra pode ser traduzida.

Para perceber por que razão é um erro dizer que «saudade» não tem tradução, temos de nos lembrar que os tradutores não trabalham com palavras isoladas: traduzem frases, parágrafos, textos… A palavra «saudade» será traduzida de diferentes maneiras em diferentes frases. Pode até ser preciso escrever muitas palavras para traduzir aquilo que, em português, é dito apenas e só com «saudade».

Ora, esse é precisamente o trabalho dos tradutores, que são pessoas mais criativas do que se diz por aí — e muito habituadas a resolver problemas, mesmo que o problema seja a palavra que todos dizem não ter tradução. Estou certo que em nenhum livro traduzido do português apareceu um espaço em branco com a indicação «aqui estava uma palavra que é impossível traduzir».

Palavras desdobradas

Poderá alguém contrapor: «Ah, mas não há uma tradução única, pelo menos em inglês.»

É verdade que não, mas isso acontece com muitas palavras, das mais banais às mais complexas. A palavra portuguesa «café» também não tem uma tradução única em inglês. Tanto pode ser «coffee» (o produto) como «café» (o local) ou «coffeeshop» (outra forma menos afrancesada de nos referirmos ao café enquanto local)… O mesmo acontece com muitas outras palavras — e é o que acontece com «saudade», que pode ser traduzida de várias maneiras em inglês.

Também há muitas palavras inglesas que são traduzidas por diferentes palavras em português, dependendo da frase. Basta pensar no verbo «to get», por exemplo, que tem muitas traduções diferentes, de «arranjar» a «compreender», ou na palavra «key», que pode ser «tecla» ou «chave».

Saudades noutras línguas

Mesmo que queiramos encontrar uma tradução única para a palavra isolada, porquê limitarmo-nos ao inglês? Quem afirma, peremptório, que «saudade» não tem tradução conhecerá, porventura, todas as mais de 7000 línguas do mundo para afirmar que em nenhuma delas existe uma palavra equivalente?

Em romeno, por exemplo, existe a palavra «dor». Quando perguntamos a um romeno o que quer dizer esta palavra, a descrição aproxima-se das nossas descrições de «saudade». (Apenas como exemplo, encontramos o artigo «The meaning of the Romanian word “dor”», no blogue Bucharest Lounge.)

Temos ainda «hiraeth», em galês; «enyorança», no catalão — e muitas outras palavras por esse mundo fora — são tudo palavras que os falantes definem de forma muito próxima da nossa saudade. Há ainda (surpresa!) a «saudade» galega…

De forma menos exacta, a palavra «longing», do inglês, também ajuda muito a traduzir a nossa saudade — embora, no dia-a-dia, o verbo «to miss» também seja uma solução possível (entre outras).

«Mas não é a mesma coisa…»

Quem me lê poderá agora dizer: «Ah, mas essas traduções, sejam elas quais forem, nunca são exactamente a mesma coisa que a nossa, muito nossa, saudade.»

A tradução nunca é a mesma coisa! Isso aplica-se não só a «saudade», como a quase todas as palavras.

Voltemos ao café. Se eu digo «café», lembro-me imediatamente da pequena chávena de café bebido quase a ferver… Já a mesma palavra em espanhol ou em inglês irá acordar outras imagens na cabeça dos falantes. Um inglês irá pensar num copo bastante grande… Um espanhol talvez pense, em primeiro lugar, no famoso café com leite. Quer isto dizer que «café» é intraduzível?

Mesmo dentro de cada língua, cada palavra terá um sabor muito diferente na cabeça de cada falante. Se eu digo «praia», lembro-me das praias da terra da minha infância. Se alguém nascido numa terra mais para o interior disser «praia», pensará nas férias da sua infância. As palavras são traduzíveis entre línguas — mas são, por vezes, intraduzíveis entre pessoas.

O mito da intraduzibilidade

O mito da intraduzibilidade de «saudade» é apenas um exemplo dessa ideia peregrina de que há muitas palavras sem tradução só porque há palavras que não podem ser traduzidas usando uma só palavra. Cada língua tem algumas palavras que se tornam especiais, que parecem representar melhor que outras a alma nacional. A ligação de «saudade» à alma portuguesa tornou-se um tópico recorrente: somos um povo que suspira de saudade à beira-mar, com as caravelas no horizonte…

Gostamos tanto desta imagem que às vezes até dizemos que só os Portugueses sentem saudades, como se as emoções fossem exclusivas deste ou daquele povo. Ora, não só há outros povos que usam a nossa palavra (os Brasileiros, que têm o Dia da Saudade, os outros povos de língua portuguesa e ainda os Galegos, que lhe juntam a «morrinha»), como a palavra pode ser traduzida, com mais ou menos facilidade. E estou certo de que, com ou sem tradução, não há ninguém no mundo que não sinta saudade de alguma coisa.

Para lá das intermináveis discussões semânticas sobre o significado de uma palavra isolada, há o uso real e diário da palavra: aí usamos frequentemente o plural «saudades» e não conheço um tradutor que tenha dificuldade em traduzir uma frase como «Tenho saudades tuas!» ou «Tenho saudades desse tempo!» — e outras parecidas — para outra língua. São frases traduzidas todos os dias…

A saudade é uma palavra especial para os Portugueses, com um lugar particular na nossa literatura — mas não é intraduzível. 

*

O artigo acima é baseado num capítulo do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa. Foi revisto a 3 de Novembro de 2021.

Sobre o tema, dei uma conferência no TEDx Peniche, em 2019. Aqui fica:

Receba os próximos artigos


Autor
Marco Neves

Professor na NOVA FCSH, tradutor na Eurologos e autor de livros sobre línguas e tradução.

Comentar

8 comentários
  • Este “mito” sobre a intraduzibilidade da palavra saudade também, à exaustão, vigora entre nós no Brasil. É conhecida a origem desta falácia?

  • Traduzir a palavra “Saudade”? É fácil! ԿԱՐՈՏ-karot. É assim que nós, os arménios, expressamos o nosso sentimento de nostalgia, de estar longe de alguém, do país, de estar triste e de ter saudades de algo que já passou… O nosso instrumento musical mais característico, Duduk, é a encarnação deste sentimento que expressa tão bem o nosso espírito. Para quem estiver interessado e quiser ouvir o som do nosso KAROT deixo aqui um link. Obrigada, Marco, por esta referência que por mim é mais uma prova de que os nossos povos têm tanto em comum. Bem haja
    https://youtu.be/4wTzi64Y7OU

  • Mestre!
    Obrigada por partilhar teu grande conhecimento.
    A palavra saudade no Brasil é traduzível, mas o sentimento… ahh essa saudade é o que me mata!
    Grande e afetuoso abraço

  • Também eu já tive essa inefável experiência – todo convicto de que a saudade era só portuguesa, deparo-me com a “Sehnsucht” do alemão.

  • O alemão possui não só uma, mas várias palavras correspondentes e adequadas a usos específicos:
    Sehnsucht: se a desdobrarmos nos seus componentes (sehen e Sucht), significaria “a busca por (re)ver, a vontade de (re)ver ou a necessidade profunda de (re)ver (alguém, um lugar etc.)
    Heimweh: a dor (Weh) de não se encontrar no lugar de origem ou onde uma pessoa sente-se em casa (Heim). Novamente uma palavra composta (Heim e Weh), ao pé da letra: a dor de não se estar em casa, no próprio lar, no seu país de origem, etc…
    Se procurarmos, encontraremos, sem dúvida, outras correspondentes a saudade para casos específicos de uso na língua alemã, considerada uma das mais ricas do mundo ocidental.
    Nós os bilíngues (português/alemão) sabemos que é assim.

  • Em inglês, o mais comum mesmo é ‘(to) miss’… mas pode ser também ‘missing’ ou ‘I miss you’ (o que dá tudo na mesma coisa no fim das contas…).

    Já em espanhol, as duas opções mais comuns são ‘te extraño’ e ‘anhelo’ (com o H mudo no referido último caso…).

    Mas a palavra saudade não é de origem lusófona: vem do latim… acessem o Origem da Palavra (um popular site de etimologia…), que eles mesmos dão as explicações! Está bem assim na realidade?

    Ah, sim: bem em conta esse seu artigo… sem dúvida alguma! Firmeza e tranquilidade? E aquele abraço!

Certas Palavras

Autor

Marco Neves

Blogs do Ano - Nomeado Política, Educação e Economia