Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Do mito do gene português aos genes da língua

Desde a ideia peregrina de que há um gene português até à base biológica da língua, faço uma pequena viagem pelo mundo dos genes.

A base da genética humana

Por vezes, no intrigante mundo das redes sociais, passa-me pelos olhos a afirmação de que existe um gene exclusivamente português. Já cheguei a ler que esse gene português — que alguns chamam «gene lusitano» — será mesmo responsável pela saudade (!!) e que é o mais antigo gene da Humanidade (!!!). Não sei se será do tal gene, mas quando inventamos, inventamos à grande!

Enfim, há ideias malucas para todos os gostos. Esta, em particular, não tem pés nem cabeça, mas também não é uma ideia muito espalhada. Já um pouco mais frequente será a ideia de que um português, para ser português, tem de partilhar as características genéticas típicas dos portugueses — como se a pertença a uma cultura estivesse dependente dos genes que levamos dentro. Tentarei mostrar como tal ideia está errada. 

A grande maioria dos genes que temos dentro de cada célula é comum a toda a humanidade — desde os aborígenes da Austrália aos esquimós da Gronelândia, passando pelos europeus e restantes humanos, partilhamos grande parte da carga genética. É por isso que temos duas pernas e dois braços, cabelo e orelhas, pele, o coração no sítio onde está, dois pulmões, um cérebro inteligente e por aí fora. Também partilhamos muitos genes com os outros seres vivos, mas dentro da nossa espécie a genética é especialmente uniforme e cheia de misturas. 

Dito isto, é verdade que uma parte do ADN (esta sigla representa o ácido em cujas moléculas a informação genética está codificada) varia de pessoa para pessoa. Em especial, e no caso de alguns genes, há variantes chamadas «alelos» — e são essas variantes que nos fazem ter olhos azuis, castanhos ou doutra cor qualquer, por exemplo. 

Cada variação pode ter uma maior ou menor frequência em determinado território — e estas frequências permitem-nos investigar antigas migrações e misturas; permitem-nos ainda confirmar, por exemplo, que a origem da Humanidade está mesmo em África, através do estudo da dispersão das variantes. 

Essas investigações fazem-se, em grande parte, olhando para o ADN mitocondrial, um pedaço de ADN que é transmitido apenas pelas mães; da mesma forma, o cromossoma Y, que apenas é transmitido pelos pais, também serve de marcador para essas investigações. Porquê? São pedaços especiais de ADN? Têm as suas funções próprias, mas não são mais importantes que os outros genes todos, que constituem a maioria da carga genética. No entanto, essa carga baralha-se de cada vez que um novo ser humano é concebido, pois cada um de nós leva uma metade aleatória dos genes de cada pai — e por isso é mais difícil investigar o passado com base nessas cartas baralhadas à partida. O ADN mitocondrial e o cromossoma Y são excepções, pois não se baralham: são transmitidos apenas pelo lado da mãe, no primeiro caso, e apenas do lado do pai, no segundo, sem misturas nem mudanças que não sejam as mutações aleatórias ao longo dos milénios. São, por isso, preciosos para investigar o passado.

Então e os genes portugueses?

O certo é que, a partir da maior ou menor frequência desta ou daquela variante genética em determinado território, há quem tenha criado a teoria de que cada grupo humano — incluindo os Portugueses — tem uma genética uniforme e exclusiva, que serviria de base para estabelecer os diferentes grupos. Segundo esta teoria, seria sempre possível pegar nos genes de uma pessoa e dizer se é ou não português.

Não funciona assim. Mesmo as variantes genéticas mais comuns em Portugal não estão em todos os portugueses e ninguém é menos português por deixar de ter esta ou aquela variação. Estas variantes são utilíssimas para estudar o passado — mas não significam nada em termos culturais ou identitários. 

Mas, enfim, já sabemos como é fácil pegar numa ideia vaga, com ar de ciência, e criar grandes teorias que ajudem a reciclar ideias muito antigas e, neste caso, bastante feias. Depois, a partir dessa semente de ideia, criam-se afirmações cada vez mais absurdas — como essa ideia delirante de que o (inexistente) gene português é o mais antigo da Humanidade! O que significará «o gene mais antigo da Humanidade»?

Note-se: as diferentes frequências de variantes encontram-se em qualquer divisão que façamos do território. Se eu pegar numa régua e dividir a Península Ibérica ao meio, com um risco que passa de Oeste para Leste, também o norte e o sul da península terão frequências genéticas diferentes. Da mesma forma, se olhar para o município de Paços de Ferreira e estudar os genes desse concelho e depois do resto do país, irei encontrar frequências diferentes. Quer isso dizer que os orgulhosos habitantes de Paços de Ferreira são especiais? Claro que não!

Tirando os genes comuns a toda a humanidade, não há nenhum gene que seja partilhado por todos os portugueses e que nos distinga de outros grupos. Se eu pegar no Sr. António (português) e no Sr. Pablo (espanhol), poderão ambos ser geneticamente mais próximos do que o Sr. António e o Sr. Silva, ambos portugueses. E, no entanto, o Sr. António não é menos português por isso. Fiz o exercício com um espanhol, mas podia ter feito com qualquer outro povo da Terra — as probabilidades de encontrarmos uma especial proximidade entre dois indivíduos particulares seriam menores, mas não seriam inexistentes. E, não nos esqueçamos, a grande maioria dos genes são mesmo comuns a todos os seres humanos. 

Ou seja: não, não existe um gene português. Existe, isso sim, uma determinada probabilidade de encontrar esta ou aquela variante genética em Portugal — mas falamos apenas disso: probabilidade. 

Haverá um gene da língua portuguesa?

Mesmo assim, há quem jure a pés juntos que as características culturais de cada grupo dependem das características genéticas desse grupo. 

É verdade que a biologia humana, comum a toda a espécie, condiciona a cultura. Mas daí até propor que as pequenas diferenças na frequência de variantes genéticas em diferentes territórios têm influência na maneira como a cultura se desenvolve nesses territórios vai uma grande distância. Talvez haja aspectos, muito secundários, relacionados com aspectos físicos (a altura, por exemplo, que poderá ter influência em determinadas opções arquitectónicas) ou com a propensão para determinadas doenças que possam ter um papel secundário num ou noutro aspecto cultural. Mas, mesmo aceitando essas influências mínimas de traços genéticos num ou noutro aspecto secundário de determinada sociedade, é absurdo pensar que as características genéticas de um indivíduo, por si, determinem o seu grau de integração numa determinada cultura. Esta última ideia — que está na base do racismo mais duro — parece absurda a muitos de nós, mas é defendida, com unhas e dentes, por muitos, em muitos países. Daí à defesa duma arrepiante pureza genética vai um saltinho. 

Para percebermos como é absurda a ligação causal entre os genes de cada um e a sua cultura, olhemos para a língua. A língua é um dos elementos culturais mais visíveis. Em muitos casos, nós reconhecemos como compatriotas aqueles que falam a nossa língua, pelo menos aqueles que falam a nossa língua de certa maneira. 

Pois, a língua tem base genética: a linguagem humana aproveita as características inatas dos seres humanos, desde o cérebro à garganta, surgidas durante o desenvolvimento fetal e infantil através das instruções guardadas nos genes. Da mesma forma, a maneira como cada um de nós se diferencia da pessoa do lado leva a um uso ligeiramente diferente da língua: um diferente tom de voz, uma entoação talvez diferente… Ou seja, a genética une-nos a todos e também nos separa a todos. 

Agora, quanto às características culturais do grupo, a história é muito diferente. Um português não fala português — um dos traços culturais mais importantes do seu grupo — por ter uma determinada configuração genética. 

Façamos uma experiência mental: se pegarmos num bebé de pais chineses acabadinho de nascer e pensarmos que vai crescer no seio de uma família portuguesa, será que iremos notar diferenças no uso do português? Será que a genética tipicamente chinesa tem impacto na língua?

A resposta, confirmada em tantas situações, é não. O bebé irá aprender português como qualquer bebé que cresça rodeado de familiares e amigos portugueses. 

Aliás, mesmo que cresça no seio de uma família chinesa, mas em Portugal, é bem provável que aprenda as duas línguas igualmente bem.  

O mesmo se aplica à maneira própria de falar uma língua. Se um bebé de família portuguesa crescesse em Angola ou no Brasil e numa família angolana ou brasileira, iria falar português com sotaque angolano ou brasileiro, tal como um bebé lisboeta ou portuense aprende a falar com sotaque lisboeta ou portuense.

Se a língua, transmitida culturalmente, não depende dos genes, porque haveríamos de encontrar outras dependências entre traços culturais de primeira ordem e características genéticas? 

É a genética que nos faz humanos — e a mesma genética é também parte do que nos distingue, a nível individual, uns dos outros. Está ainda na base das diferenças físicas dos seres humanos pelo mundo, sempre de forma dispersa e probabilística. Mas não é a genética que define as culturas dos grupos humanos e não é a genética que determina se pertencemos a este ou àquele grupo. 

Os Portugueses são como são por causa da História (grande e pequena) e da geografia — e não por causa dos poucos genes que variam de pessoa para pessoa e que terão uma frequência particular por estes lados. Acima de tudo, o sentimento de pertença à comunidade nacional baseia-se em muitas coisas, mas não se baseia na forma particular que tem um certo ácido escondido nas nossas células.

Referências

Este texto foi publicado, com outro título («Existe um gene português?»), como crónica semanal no Sapo 24.

No que toca à ligação entre a linguagem e a biologia, deixei algumas ideias e sugestões de leitura no artigo «Como será a língua dos Sentineleses?».

Sobre o gene lusitano, é fácil encontrar vários artigos a propagar a ideia, com base num artigo científico dos anos 90 («Relatedness among Basques, Portuguese, Spaniards, and Algerians studied by HLA allelic frequencies and haplotypes»; os autores são Arnaiz-Villena A, Martínez-Laso J, Gómez-Casado E, Díaz-Campos N, Santos P, Martinho A, Breda-Coimbra H.) em que se indicava uma frequência alta de determinado gene em Portugal. Era apenas isso: uma frequência mais alta do que o habitual de um gene que existe em muitas populações do mundo. É um bom exemplo de como resultados de artigos científicos podem ser transformados noutra coisa completamente diferente por quem os comenta sem conhecer as bases da disciplina relevante.

Deixo duas sugestões de leitura muito úteis para vermos como a genética é uma área interessantíssima, embora propensa às mais delirantes fantasmagorias. 

Assim, em inglês, temos A Brief History of Everyone Who Ever Lived — The Stories in Our Genes, de Adam Rutherford. 

Sobre o caso português, temos O Património Genético Português, de Filipa M. Ribeiro e Luísa Pereira. Este último livro dissipa as confusões habituais a respeito da genética, mostrando, por outro lado, como são interessantes as tais moléculas que levamos dentro de cada uma das nossas células.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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