Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O erro de Canavilhas e o cérebro humano

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É um erro muito estranho para uma ex-ministra, de facto.

canavilhas

No entanto, a forma como o Twitter caiu em cima de Gabriela Canavilhas por causa deste erro revela uma ideia errada que anda a pairar por aí sobre a língua.

Que ideia é? A ideia de que, se soubermos alguma regra, vamos usá-la sempre bem. Ou seja, se a ministra usa um «há» onde devia estar «à», é porque não sabe distinguir os dois. Tem de ter lições de português!

Ora, meus caros defensores da exigência intransigente, sejam um pouco mais exigentes convosco próprios. Aprendam mais sobre o cérebro humano. Numa situação de escrita rápida, em que tentamos reproduzir com letras a velocidade das conversas, é bem provável que todos nós deixemos passar erros que, mais tarde, detectamos sem qualquer hesitação. O cérebro não é perfeito e mesmo o mais hábil escritor se engana, por vezes (não era só o Horácio).

O que fazer? Avisem a vítima de tal erro, como aconselho neste outro artigo. No caso da ex-ministra, depois de ler o que escreve noutros locais, não me parece que tenha problemas com o português. O cérebro dela teve ali uma paragem momentânea. E o cérebro dos tuiteiros não perdeu oportunidade de gozar o pagode com uma ex-ministra (!) da Cultura (!!) que não sabe distinguir «à» de «há» (um erro de aluno da Primária, não é?).

Convençam-se: pode mesmo acontecer a todos! A mim, já me aconteceu dar erros parecidos. Se acham que é tão fácil acertar sempre, temo pelo vosso português. Porquê? Porque, de tão certos que estão de acertarem sempre, hão-de estar muito pouco atentos aos erros próprios — que são tão inevitáveis como os impostos e a morte.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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1 comentário
  • Óptimo apontamento.

    Só aponto, por minha parte, que o escritor que por vezes se enganava era, não Horácio, mas Homero.

    Também com H… Traquinices do cérebro humano.

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