Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Existe um sotaque de Lisboa?

À pergunta “Existe um sotaque de Lisboa?”, podemos responder muitas coisas, incluindo estas:

(a) Sim, uma parte dos lisboetas acha que a língua se divide entre quem fala “com pronúncia” e quem fala “sem pronúncia”. Uns quantos mais dados ao disparate dizem mesmo que os primeiros falam mal e os segundos tiveram a sorte de viver num sítio onde o ar ajuda a falar bem. Esta noção não se limita aos lisboetas: muitas pessoas de fora de Lisboa dizem também que há quem fale com pronúncia e quem fale sem pronúncia.

(b) Quem estuda as línguas de forma um pouco mais rigorosa sabe o que se aprende nas primeiras aulas de Introdução à Linguística: todos temos um sotaque. O sotaque será, numa definição apressada, a forma como se fala em determinada região/cidade/classe social, etc. Há quem tenha uma pronúncia muito individual. Há quem fale tal e qual se ouve na televisão. Mas não há rigorosamente ninguém que não tenha sotaque. Dizer que alguém não tem sotaque é o mesmo que dizer que há quem não tenha cor da pele…

Pois, claro que muitos lisboetas e arrabaldenses continuarão a dizer que isto é um disparate, que eles não têm pronúncia nenhuma! Mas, amigos, isto é como, de facto, as peles: todos diferentes, mas todos iguais. Sim, todos os vossos amigos dizem o mesmo, que não têm sotaque, que isso é das outras regiões do país. Mas não é bem assim…

Agora, não me entendam mal: claro que sei bem qual o valor do sotaque considerado padrão. As pessoas podem e às vezes devem adaptar a pronúncia ao contexto. Há quem fale duma maneira com os pais e doutra com os colegas de trabalho (sem notar…), outros “perdem sotaques” (=ganham sotaques de regiões onde o sotaque é mais parecido com a pronúncia padrão) e ainda outros “ganham sotaques” (=ganham sotaques de outras regiões). Tudo isso é verdade, complexo, e muito interessante. Mas nada disto implica que o sotaque de Lisboa não exista.

Deixem-me acabar por contar uma história sobre um amigo do meu pai que tem uma pronúncia de Peniche muito marcada. Alguns, cegos com a ideia de que o mundo se divide entre quem tem e quem não tem sotaque, acham que ele fala assim porque não sabe falar bem, coitado. Uma vez, estávamos os dois em Lisboa, quando ele se põe a imitar a pronúncia alfacinha. Digo-vos: era uma imitação perfeita! Ela sabia bem imitar o sotaque de Lesboa. Ora, como se pode imitar uma coisa que não existe?

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Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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