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Crónicas

A ferida da lua

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Um pai é um pai e um pai (ou uma mãe, claro) fica babado com as coisas mais simples. Perdoem-me, portanto, este relato duma cena familiar.

Faço a viagem entre Peniche e Lisboa muitas vezes. A paisagem que vemos na auto-estrada é ondulante e pontuada de moinhos (e, agora, ventoinhas).

Estamos no reino do verde claro, entre colinas e terras simpáticas. Estamos a falar da antiga Estremadura, uma região serena entre o verde escuro e montanhoso do Norte e as planuras imensas do Sul — e tudo com muito mar, ao fundo.

Bem, mas este fim-de-semana a Zélia, o Simão e eu fizemos a viagem de noite, para voltar para Lisboa.

À noite, todas as paisagens são pardas e, se quisermos, assustadoras, principalmente numa auto-estrada, onde a velocidade não deixa perceber bem o que são as luzes que vemos a passar a alta velocidade. Mesmo a paisagem simpática do Oeste não é mais do que sombras e, no céu, aparecem uns estranhos pontos encarnados a piscar.

O meu filho não se importa. Já conhece. Viemos a cantar as músicas que ele nos ia pedindo (um dia conto-vos). Pois, de repente, aparece-nos a lua por trás duma montanha, enorme e laranja, para espanto imediato do Simão, que começa a apontar: «Olha a lua!»

Espanto dele e nosso, que há coisas que nunca cansam.

Passavam nuvens à frente do disco laranja da lua.

O meu filho pergunta-me: «A lua está viva?»

Digo-lhe que sim, sem saber bem porquê.

E ele faz-me esta outra pergunta, preocupado: «A lua está ferida?»

Olhei com mais atenção: havia, na lua, uma mancha negra muito definida que parecia mesmo uma ferida.

Disse-lhe que não, que a ferida era uma nuvem.

Ele ficou mais descansado, e passou os minutos seguintes a olhar para a lua, calado, lá nas suas coisas.

E nós calados, também, por causa da lua — e do Simão.


Depois de partilhar o texto acima, a minha mãe (que tinha ficado a tomar conta dele, com o meu pai, no domingo) contou no Facebook que, no dia anterior, o Simão lhe perguntara se a lua tinha morrido. Porquê? Porque não a via no céu… A minha mãe disse-lhe que não, que ainda iria aparecer. Deve ter vindo daí a pergunta que me intrigou: «A lua está viva?»


Depois de ler o artigo acima, o meu irmão contou-me que a Lilah, a minha sobrinha, quando veio cá a Portugal há dias também o surpreendeu com a lua. Estavam a andar de carro, quando ela diz: «Moon, Venus, many stars…» Depois, faz muitos gestos e ri-se: «so beautiful, pretty moon!». O que surpreendeu o meu irmão foi o simples facto de eles nunca lhe terem dito nada parecido. É um choque bom quando os nossos filhos começam a dizer coisas só deles… Disse-me ele ainda que, quando viajam, ela parece dar um salto no que diz e no que pensa. Também me parece ver isso no Simão. Nessas idades percebemos bem o valor que tem viajar: dá-nos mais ideias, dá-nos mais mundo, dá-nos mais palavras. Como os livros, aliás (e não só…).

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Marco Neves

6 comentários

É deliciosa a forma como os garotos, de repente nos fazem reapreciar o mágico malabarismo do Universo. Mesmo quando a memória é fraca, há pequenos momentos que se tornam enormes porque perduram para sempre, sobretudo quando são os nossos pequenotes que nos surpreendem.
Na mesma circunstância de irmos à noite, de carro, de repente o pequeno Miguel maravilhou-nos para sempre, balbuciando com emoção uma das suas primeiras frases: ” A Lua… a bola atira ao céu…”

O caro amigo Marco Neves, tão reflexivo sempre, agora a respeito dos seus meninos. O que me faz recordar anos atrás, aquando os meus dois filhos tinham também daquele tipo de questões e reflexões bem simpáticas e quase filosóficas que tanto nos chegavam a comover. Houve duas, muito semelhantes às que aqui se colocam, e que eu finalmente quis deixar por escrito como dedicatória num relato meu (‘Ouro maldito’) de um livro intitulado “Seis ferroláns”, que diz assim: “para o meu Alexandre que, no canto de estrelas, viu furados nunha noite de Boebre; para a miña Gala, que me pregunta quen inventou as palabras; para que a súa imaxinación e inocencia os beneficie cun mañá máis libre”

Sempre é um prazer poder ler e aprender tantas coisas curiosas e interessantes como as que nos contas (vais-me perdoar que te tuteie, mas é como se nos conhecéssemos de há muito tempo já, pois tanta é a proximidade dos comentários que referes). A ti é que sou eu obrigado.

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