Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

História com um livro, uma rainha e um pouco de sangue

Às vezes, ler uma história é uma necessidade física. Conto o que aconteceu comigo — a história tem uma princesa alemã, um pouco de sangue e muitos diamantes.

Não sei se haverá por aí alguém que acredite naquela ideia triste da leitura bem-comportada, que faz seguir os livros que se lêem numa carreira lógica e planeada. Na verdade, uma pessoa até planeia, mas quando dá por si já atravancou a cabeceira de livros lidos aos solavancos.

Quem gosta de ler começa um livro, começa dois, começa três — e quando já começou cinco ou seis, lá termina um dos primeiros — ou então o último, que não conseguiu largar durante uma noite. (Ou então sou só eu. Não sei.)

Já muitos o disseram: há muito de acaso nisto. Alguma sorte, algum azar. E vontades súbitas de ler um livro em particular…

Conto o que se passou comigo ainda há poucos dias. Ou melhor, há um ano e uns quantos meses. É uma história que demora tempo. Assim, ali por alturas do Natal de 2017, andava eu à procura de prendas para oferecer a quem de direito, quando dei com um livro que tinha a cara (ou será a capa?) de uma amiga minha. O livro tem como título Lisboa Desconhecida e Insólita, foi escrito por Anísio Franco e junta umas quantas histórias de Lisboa, com fotos a condizer. Um livro apetitoso.

Pois bem, antes de embrulhar, ainda a caminhar pela livraria, fui lendo uma ou outra história, tentando não esbarrar com ninguém.

Li ao acaso do folhear uma história de uma rainha de nome bem conhecido, em que aparecia lá pelo meio uma jóia desaparecida, uma ferida na cabeça, uma morte cedo de mais… Cheguei à caixa, paguei, embrulhei, fui-me embora, ofereci a prenda à minha amiga, veio o ano novo, passaram dias, passaram meses, passou um novo ano…

Há uns dias, andava por Lisboa, quando me veio uma vontade louca de ler aquela história outra vez, agora com mais atenção. Porquê? Não faço ideia. Era um dia de Primavera, quente, com a cidade cheia de gente e a imaginação a pulsar — e passava precisamente pela Estefânia, que tem o nome da rainha da história.

Procurei uma livraria com urgência. Entrei, procurei o livro. Não encontrei. Pedi ajuda. Nada. Os livros novos não ficam assim tanto tempo nas estantes das livrarias… Só encomendando.

Assim fiz. Dias depois, já a rebentar de vontade, recebi por fim o livro. Sôfrego, procurei aquela história (havia depois de ler o resto) — e respirei fundo, aliviado. Há-de haver, numa das muitas línguas do mundo, uma palavra qualquer para esta sensação…

E qual era a história?

A nossa rainha D. Estefânia, que hoje dá o nome ao hospital e a toda aquela zona da cidade, era uma princesa alemã que, na sua terra, respondia pelo nome de Stephanie Josepha Friederike Wilhelmine Antonia von Hohenzollern-Sigmaringen (ainda bem que ninguém se lembrou de dar o nome inteiro ao hospital).

A princesa tinha apenas 20 anos quando partiu em direcção a Portugal para se casar com o nosso rei D. Pedro V.

O rei mandou criar uma jóia para a nova rainha usar na cerimónia do casamento, em Lisboa. O joalheiro real, Raimundo José Pinto, pegou em pedras preciosas que o rei herdara da sua mãe, D. Maria II, e juntou-lhes mais uns quantos diamantes parisienses. Parece ter exagerado um pouco, pois, no fim, entregou ao rei, para que este oferecesse à sua rainha, uma tiara com quatro mil pedras preciosas. Um tesouro inteiro para enterrar na cabeça duma tímida princesa vinda do centro da Europa…

Quando D. Estefânia chegou a Portugal e os lisboetas a viram, pela primeira vez, com a tiara na cabeça, tiveram de desviar o olhar, tal era a luz que irradiava daqueles diamantes ao sol brilhante de Lisboa.

A cerimónia durou muito tempo. A certa altura, uma das damas presentes reparou que a rainha empalidecera — D. Estefânia quase desmaiava ao fim de duas horas com milhares de pedras na cabeça. Pior: um dos diamantes cortara-lhe a testa e o véu estava manchado de sangue. Depressa se substituiu a jóia por uma coroa de flores — e o povo, quando viu a nova rainha de flores no cabelo, murmurou: uma coroa de flores era um presságio de morte.

Meses depois, a rainha morreu de doença. Uma das suas damas terá posto a tiara na cabeça da rainha defunta, mas um dos médicos presentes mandou retirar a jóia, pois uma virgem nunca usa diamantes — e a rainha morrera virgem.

O certo é que ninguém sabe onde pára a tiara que feriu D. Estefânia. Estará escondida num sótão de Lisboa? Ou, na verdade, ainda estará na cabeça da rainha?

Anísio Franco conta melhor do que eu a história no livro — que leva dentro muitos outros relatos de Lisboa. Vale a pena lê-lo. E, depois, vale a pena passear pela cidade, uma vez por outra, sem mais razão que não seja imaginar as histórias que se escondem na cabeça de quem passa — ou nas paredes dos prédios que estão ali, todos os dias, sem que reparemos neles.

Quem sabe se, pela zona da Estefânia (porque não?), não estará um cofre de que já ninguém sabe a combinação, escondendo a tremenda jóia que um rei ofereceu à sua rainha?

(Crónica no Sapo 24.)

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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