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Português Tradução

O Eça traduzido para «brasileiro»?

Hoje, abrimos um livro de Eça numa livraria do Rio de Janeiro e vamos por aí, a viajar pelo que fazemos aos textos da nossa língua. A viagem termina na Galiza, onde abrimos outros dois livros…

Há uns tempos, ouvi sem querer uma portuguesa a reclamar porque tinha ido ao Brasil, tivera a sorte de entrar numa livraria e encontrara por lá uma edição d’Os Maias — traduzida para «brasileiro»!

Fiquei intrigado. Sei que há livros brasileiros editados por cá com tantas mudanças e adaptações ao português deste lado do oceano que a palavra «tradução» talvez não seja um absurdo, embora as aspas devam continuar ali… Serão livros cujos leitores — digamos assim — não se preocupam muito com a genuinidade do texto que têm à frente. Imagino que o mesmo aconteça do lado de lá, embora não saiba muito bem que autores são sujeitos a esse tipo de «tradução».

Agora o Eça? Terá havido quem tenha julgado necessário adaptar o texto ao português do Brasil dos dias de hoje? Por momentos, imaginei o Ega a virar-se para Carlos com um sonoro: «Oi, cara!» Tremi um pouco. Por uma unha negra, não me atirei também para o poço de indignação onde estava a senhora que me calhou ouvir sem querer.

Mas tive sorte: ouvi um pouco mais da conversa e percebi o que se passava. A editora brasileira tinha usado, naquela edição, a ortografia brasileira de agora. Assim, apareciam coisas como «alusão irônica» e mais uns acentos fora do sítio. A leitora portuguesa estava com as mãos na cabeça! O que fizeram ao nosso Eça?

Para ela, isto era uma tradução — aquilo já não era português! Mas, reparemos: a sintaxe e o vocabulário estavam lá sem alterações. Só a ortografia tinha sido adaptada à ortografia da língua portuguesa em vigor no país de edição.

Mais calmo, comecei por sorrir. Depois, deixei de sorrir: se as pessoas andam por aí a pensar que a tradução é mudar a ortografia dum texto, ninguém entende o que nós, tradutores desta vida, andamos aqui a fazer!

Uma edição brasileira d’Os Maias.

Bem, dramatismo à parte — e dramatismo é coisa que não falta quando se fala da língua — vou tentar explicar por que razão a editora brasileira usou a ortografia brasileira de agora num romance português de antanho.

Peço ao leitor que abra uma edição qualquer d’Os Maias — falo duma edição portuguesa actual. Estará na ortografia portuguesa — algumas edições usam o novo acordo ortográfico, outras aplicam a ortografia de 1945 com as alterações introduzidas nos Anos 70. O que nenhuma editora faz é apresentar-nos o texto tal e qual o próprio autor o escreveu.

Eça usava a ortografia da época, uma ortografia muito pouco estável, diga-se — é a ortografia que encontramos no texto transcrito nesta página, por exemplo. O início mostra-nos logo algumas das diferenças:

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar d’este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do reinado da sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas.

Perante isto, as editoras têm de decidir o que fazer com o texto ou arriscam-se a pôr nas mãos dos leitores textos com «á», com «visinhança», com «assimilhar-se-hia» e por aí fora. Por mim, acho curioso encontrar os textos assim. Mas imagino as cartas furiosas que as editoras iriam receber se se atrevessem a tanto.

Tem de haver alguém que faça aquilo a que se chama «fixação do texto». Há uma edição famosa das obras do Eça da Livros do Brasil em que o nome de Helena Cidade Moura aparece com muito destaque como responsável por essa fixação. É a pessoa que decide o que fazer com as diferenças ortográficas, com a pontuação, com os itálicos, entre outras decisões nem sempre óbvias e muito menos fáceis.

Que tipo de alterações são estas? Dou um exemplo. Procuro ao calhar do dedo um extracto d’Os Maias:

D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:
—Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de inglez, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!
—Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.
—É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d’ella, quieto como se fosse de gesso:
—Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Euzebio, filho, sê bonito…

Procuremos agora este texto numa edição actual d’Os Maias. Encontraremos algo parecido com isto:

D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:
— Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada… Nem tem prenda nenhuma!
— Mas é muito esperto, minha rica senhora! — acudiu Vilaça.
— É possível — respondeu secamente a inteligente Silveira.
E, voltando-se para Eusebiosinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:
— Ó filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Eusébio, filho, sê bonito…

Passámos de «idéa» para «ideia», arrancámos algumas belas letras, mudámos o nome ao Eusébio — até corrigimos o verbo «dizer», na última frase! E os travessões também se multiplicaram…

Enfim, remexemos no texto muito para lá do que pensa quem lê o Eça e julga estar perante o texto original — e isto é assim com tantos e tantos autores. Aliás, por vezes, a complicação é outra: qual será o texto original? Entre manuscritos, edições, correcções, nem sempre é fácil responder à pergunta.

Da minha parte, acho curioso ver a ortografia original — mas é muito mais confortável ler o Eça na ortografia que aprendi, não é verdade?

Portanto: as editoras portuguesas actualizam a ortografia. E as brasileiras? Por que razão não poderá a editora brasileira adaptar o texto à ortografia habitual dos seus leitores? Alguns dirão: «Não! Devia usar a ortografia que existe agora em Portugal!» Mas porquê, se não é a ortografia nem do autor nem dos leitores a quem se destina a edição?

Talvez nos faça confusão ler o Eça com ortografia brasileira — mas as adaptações são do mesmo tipo que os portugueses fazem à mesma obra…

Reparemos nesta palavra:

—Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d’ir á Russia. Ha assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas… E se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem a ironia…

(Pelos vistos o problema que temos em perceber a ironia não é de agora…)

Tanto a editora portuguesa como a editora brasileira têm de pôr ali um acento. Por que razão deveriam os leitores brasileiros encontrar ali um «irónica» que o Eça não usou e não um «irônica», a forma correcta no Brasil?

Agora, claro, se a editora se puser a mexer nos pronomes e a alterar o vocabulário, aí já me irrita um poucochinho, tal como me irritaria ler autores brasileiros «traduzidos» para o português de Portugal…

Os factos de Machado de Assis

Ora, se me parece não fazer sentido adaptar um autor oitocentista ao português de Portugal de agora quando a edição é para ser vendida no Brasil, o contrário também será verdade: para quê adaptar um autor brasileiro do século XIX à ortografia brasileira mais recente quando a edição é para vender em Portugal?

Ora, foi o que aconteceu a Machado de Assis numa edição das Memórias Póstumas de Brás Cubas que tenho aqui ao lado. A versão original, que pode ser consultada aqui, reza assim, logo na segunda frase:

O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.

Ora, a edição portuguesa que tenho aqui (Edições Cotovia, 2007) muda isto para:

O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.

Atente-se no «cinqüenta». O trema usado no Brasil até há bem pouco tempo  aparece ali, numa edição portuguesa, quando no original não existia.

Depois, temos esta frase na edição original, já quase no fim da obra:

De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto nós falavamos no jardim, ao lado.

Na edição portuguesa aqui na minha mão? Aqui está a mesma frase:

De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto nós falávamos no jardim, ao lado.

Ou seja, a edição brasileira tem «facto». A edição portuguesa tem «fato». Faz sentido? Nem por isso: o autor escreveu «facto». Os leitores a quem se destina a edição escrevem «facto» e nem o malfadado acordo mudou isso (embora muitos julguem que sim). Porque está ali um «fato»? (A razão, digo eu, é que a editora terá usado a fixação moderna do texto feita por uma editora brasileira.)

Como escrevia Camões?

Pois é: a ortografia dos nossos clássicos não é a ortografia que os autores viram impressa nas primeiras edições. Se fizemos uma viagem no Atlântico, façamos agora uma viagem até ao século XVI. Olhemos para Os Lusíadas.

Será que o leitor já olhou com olhos de ver para a ortografia usada nas primeiras por Camões, por exemplo, n’Os Lusíadas?

Aqui fica uma transcrição o mais fiel possível, que encontrei nesta edição em linha d’Os Lvsiadas (sic):

As armas, & os barões aßinalados,
Que da Occidental praya Luſitana,
Por mares nunca de antes nauegados,
Paſſaram, ainda alem da Taprobana,
Em perigos, & guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana.
E entre gente remota edificarão
Nouo Reino, que tanto ſublimarão.

Aquele «ſ» e aquele «ß» assustam, não é? Curiosamente, quem souber alemão ficará um pouco mais à vontade para perceber que «ß» é um símbolo tipográfico que representa «ss». Já o «ſ» é o «s» simples em certas posições. Fica aqui a imagem retirada da edição disponível na página da Biblioteca Nacional:

Mesmo sem alterar uma única palavra, é preciso mexer muito no texto para que este não assuste logo o leitor moderno. Depois, claro, temos as notas que enfeitam as edições actuais: as palavras estão lá, mas já é preciso explicá-las em muitos casos…

Nesta nossa viagem ao passado dos textos em português, haveremos de chegar ao ponto em que mudar a ortografia e pôr umas notas já não chega, não é?

Traduzir Fernão Lopes?

A ortografia é uma convenção — a língua já é outra coisa, um sistema complexo que vai mudando sem plano ao longo dos séculos (as razões biológicas e culturais dessa mudança ficam para outro dia). Ora, se muda, mais tarde ou mais cedo as obras mais antigas começam a precisar de mudanças tão profundas que podemos, então, falar de tradução.

Quando tinha os meus 14 anos, decidi pôr-me a ler a Crónica de D. João I numa daquelas edições da Europa-América que tinham a interessante particularidade de largar páginas por tudo e por nada.

Ora, li com alguma dificuldade, mas também algum prazer. Aquilo que passou pelos meus olhos já não foi uma mera actualização ortográfica. Não consigo encontrar a edição que li, mas consigo encontrar a versão original, cujo início está transcrito aqui (e mesmo assim já tem algumas adaptações):

Grande lyçença deu aafeyção amuytos que teueeram carguo dordenar eſtorias moormente dos señores em cuja merçe & teerr a viuyam ehomde forã o naados seus antigos avoos semdolhe muyto fauorauees no recontamento de seus feytos.

A Crónica está disponível em linha, na página da Torre do Tombo. Reparem no original digitalizado do extracto em itálico acima:

A versão que li não se limitava a adaptar a ortografia. Também alterava o vocabulário, alguma sintaxe… Enfim, aproximava-se já duma tradução — o sabor ainda era de um texto muito antigo, mas esse tipo de decisões são decisões próprias de quem traduz: quanta estranheza manter no texto traduzido? (Quem se interessar por este assunto fará bem em ler um pouco mais sobre os Estudos de Tradução…)

Mais tarde ou mais cedo, os autores do passado têm de ser adaptados e, com os séculos a passar, a adaptação aproxima-se dos processos usados pelos tradutores.

Ou seja, a tradução não nos aproxima apenas dos autores de outras línguas: aproxima-nos também dos textos escritos em fases anteriores da nossa própria língua.

E, sim: disse mesmo «aproxima-nos». Ao contrário do que se diz por aí, a tradução aproxima-nos do original, não nos afasta. Sim, se eu falar russo perfeitamente, consigo ler Tolstói no original. Mas se não for o caso, a tradução aproxima-me do texto (o texto russo é um muro intransponível). Outro caso: se eu falar inglês quinhentista na perfeição, uma tradução de Shakespeare para português afasta-me do original. Mas se não for o caso, a tradução aproxima-me do texto original.

No caso de Eça, não preciso de tradução. Uma arrumação ortográfica ajuda-me a ler o texto com menos ruído, mas é só. No caso d’Os Lusíadas, também não preciso de tradução — mas já tem de haver algum treino e muitos de nós não passamos sem as notas de rodapé das várias edições. No caso de Fernão Lopes, já não há volta, a não ser que passemos algum tempo a estudar o português da época. No caso dos textos latinos, já precisamos de aprender a língua para lê-los no original. Aquilo que nós podemos ler sem tradução ocupa um espaço limitado no presente, mas também no passado.

Felizmente, há quem escave mais fundo e estude textos longínquos no espaço e no tempo. Alguns até fazem o favor de os trazer para o nosso português de agora. São os tradutores, claro está, que merecem — sei que não sou muito imparcial nisto, mas pronto — algum reconhecimento pelo seu labor.

Agora, claro, podemos ser atrevidos. Podemos usar traduções, mas também podemos, um ou outro dia, sair do conforto da língua exacta que falamos hoje em dia, aqui e agora.

Atrevimentos galegos

Já anteriormente falei neste blogue sobre o horror que alguns portugueses têm a ler em português do Brasil. Essa recusa faz-me alguma impressão. É um pouco como ouvir um espanhol a recusar-se a ler Jorge Luis Borges ou Gabriel García Márquez porque não escrevem em castelhano de Burgos ou um inglês a recusar, com uma careta, Mark Twain por escrever em impuro americano. Esta é uma limitação absurda.

Ora, em sua justiça, devo dizer que a senhora de que falei no início desta viagem não tinha horror a ler em português do Brasil, tanto quanto percebi. Achava apenas que os autores portugueses devem apresentar-se com a sua ortografia por lá. Nada contra o critério — só não concordo que seja aplicado anacronicamente a autores, como Eça, que usaram outra ortografia.

Agora, não mexam é na sintaxe e no vocabulário dos autores — isso mostra muito pouca confiança na capacidade de os leitores entenderem as outras maneiras de escrever a língua. Sei que há casos onde a distância dificulta a leitura (falo de autores que usem vocabulário e sintaxe mais popular, onde as diferenças são muito mais marcadas do que nos registos formais) — mas lidar com essas dificuldades faz parte da nossa formação de leitores…

Sim: acho que devemos ser mais atrevidos. Devemos aventurar-nos, por vezes, para lá das fronteiras exactas do português tal como é falado em Portugal e no nosso século.

Nessas aventuras linguísticas, já aqui tenho proposto muitas vezes aos leitores portugueses que se atrevam a olhar para o galego. A proximidade é mais que muita e há por lá muito que ler. É difícil? O leitor tem medo? Vamos molhar um pouco os pés nas águas galegas através de dois exemplos, em duas ortografias (já sabemos como são várias as maneiras de escrever o galego).

O primeiro texto é de um galego que conheço pessoalmente e que muito estimo: Joám Lopes Facal. O nome «Joám», escrito assim, lembra-me Fernão Lopes (o que querem?). Afinal, a tal crónica era a Cronica del Rei Dom Joham I… 

Recebi há dias um livro seu chamado Percursos sem roteiro, onde leio este excerto:

Aproveitando o passado dia das letras figéramos ideia de dedicar esse fim de semana a cansar um pouco o corpo polos trilhos da Serra do Gerês. A companhia era óptima embora o propósito inicial da viagem parecesse cada vez mais improvável visto a totalidade dos prognósticos anunciarem chuva para esses dias. Mas bom, sempre ficava o bacalhau com broa, o cabrito assado a regar com Alentejo e as sobremesas de abade de Priscos, essa requintada larpeirada bracarense que nunca decepciona. Enfim, o norte, quero dizer, o sul, essa Galiza que fala galego em plena confiança sem necessidade de licença.

Alguém acha que o «figéramos» e o «polos» atrapalham assim tanto o leitor português? E quanto à «larpeirada»… Não podemos tirar umas pelas outras? Ou usar um dicionário, que os há em linha e fáceis de encontrar? Mesmo sem dicionário, sentimos o doce na boca, ou não?

O galego reintegracionista de Joám Lopes Facal está conscientemente próximo da nossa língua. Mas podemos até atrever-nos a ler um texto galego que siga a norma oficial. Um dos grandes romances galegos das últimas décadas é O lapis do carpinteiro, de Manuel Rivas (já não é a primeira vez que falo dele). Aqui fica um excerto do primeiro capítulo:

O doutor Da Barca sorriu pensativo. Logo dixo: O único bo que teñen as fronteiras son os pasos clandestinos. É tremendo o que pode facer unha liña imaxinaria trazada un día no leito por un rei chocho ou debuxada na mesa por poderosos como quen xoga un póker. Recordo unha cousa terrible que me dixo un home. O meu avó foi o peor que se pode ser na vida. ¿E logo que fixo, matou?, pregunteille. Non, non. O meu avó por parte de pai foi criado de portugués. Estaba bébedo de bile histórica. Pois eu, díxenlle para amolalo, de escoller pasaporte, sería portugués. Pero, por sorte, esta fronteira irá esvaéndose no seu proprio absurdo. As fronteiras de verdade son aquelas que manteñen aos pobres apartados do pastel.

Este livro está traduzido para mais de vinte idiomas, entre elas o português. Nada contra: afinal, trabalho em tradução, não é verdade?…

Mas atrevo-me a dizer duas coisas. Vamos à primeira. Não proponho que as editoras portuguesas desatem a publicar livros no galego oficial: as diferenças ortográficas são suficientes para aborrecer uma grande parte dos leitores. No entanto, se virmos bem, uma mera adaptação ortográfica do texto de Manuel Rivas, deixando as palavras galegas intactas, não seria muito diferente do que fazemos com os autores portugueses antigos ou com os brasileiros. As editoras adaptam textos em ortografias antigas ou na ortografia brasileira porque consideram que são textos na mesma língua — já no caso do galego, o nome da língua é outro, logo, há que haver tradução. E se ignorássemos o nome da língua? Teríamos algumas dificuldades, é certo (o que fazer com o «dixo», por exemplo?), mas há casos que parecem difíceis, mas não o são. Mudarmos «pregunteille» para «perguntei-lhe» não será assim tão diferente do caso em que mudámos «assimilhar-se-hia» para «assemelhar-se-ia» n’Os Maias

Dir-me-ão alguns: isso é muito engraçado, mas os leitores não estão para aí virados — e as editoras não gostam muito de irritar quem compra os livros. É verdade: os leitores portugueses não estão habituados ao galego. Ao lerem «amolalo», por mais adaptações ortográficas que se façam, não ficarão a coçar a cabeça? Afinal, se há tanta gente horrorizada com o português do Brasil, o que dizer do galego? Aceito essa crítica ao meu primeiro atrevimento. A verdade dos factos é que uma grande maioria dos portugueses não conhece o galego. Assim, não me parece razoável esperar que as editoras portuguesas comecem a adaptar os livros galegos sem os traduzir — e, para dizer a verdade, não me quero queixar muito: bom era que, em qualquer versão, trouxessem mais autores galegos até aos leitores portugueses.

É por isso que o meu segundo atrevimento é mais pessoal, mais directo: proponho a quem me lê que seja corajoso nas leituras. Leia muito em português de Portugal, mas leia também alguma coisa em português de outros países — e até em galego. Afinal, se nos atrevemos a ler noutras línguas, porque não explorar os terrenos literários onde podemos entrar usando a nossa própria língua? Lá iremos aprendendo palavras novas, navegando pela estranheza do que é próximo, enquanto alargamos o nosso território de boas leituras. Às vezes, uma aventura destas sabe mesmo bem.

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Marco Neves

14 comentários

Há não poucos autores portugueses de hoje que exigem às editoras brasileiras que mantenham, nas edições brasileiras das suas obras, a ortografia original portuguesa, inclusive com os cês e pês mudos mantidos por quem se recusa a escrever conforme o AO 90. Não tenho notícia de autores brasileiros de hoje que façam semelhante exigência a editoras portuguesas que lhes publicam as obras em Portugal. E, diferentemente do que talvez se depreenda do meu comentário, nunca me ocorreria escrever uma carta de protesto às editoras portuguesas ou propôr aos meus compatriotas que, em contra-ataque, boicotem as obras de autores portugueses publicadas por editoras brasileiras segundo a ortografia portuguesa. Eu sinto até certa condescendência para com autores portugueses que fazem semelhante exigência, reveladora ou de uma visão metafísica da ortografia ou de algum ranço metropolitano extemporâneo.
A propósito, uma vez lhe perguntei por que alguém, com uma visão tão arejada quanto à sua sobre a ortografia, optou por não seguir o AO vigente, pergunta a que me prometeu responder algum dia. Chegará este dia? Perdoe-me a pergunta impertinente, que faço, todavia, de modo muito bem-humorado.

Em resumo não é uma tradução que eu ingenuamente também diria, mas uma fixação do texto. Um detalhe mas que faz sentido. Li os Lusíadas, no meu tempo de leitura obrigatória, dou por bem emprego esse desafio, mas também não o li tal como no original.
Obrigado pela explicação e pelos exemplos.
Aprender, sempre!

Grazas, Marco, polo teu artigo. Interesantísimo e moi acertada a visión e as perspectivas tan abertas para o portugués.

José Escudero
(Tradutor de galego, músico, escritos de libros didácticos). Vivo en Segovia -Castela-, onde morou e escribiu obras tan maravilhosas, no século XIII, em galego-portugués, Alfonso X. Todo é continuar uma tradicióm: eu estou a facer aquí versions das cantigas de Martin Codax cum músico brasileiro e sentimos que seguimos um fío, e todo resulta natural, e á xente encántalhe.

Mistura coisas diferentes, para não variar. Uma coisa são as mudanças ortográficas dentro do mesmo território. Nesse caso, salvo indicação expressa do autor, é lícito alterar a ortografia de determinada obra para os leitores do presente. Outra coisa é mudar a ortografia de uma obra noutro país, ainda para mais quando todo o resto, pelo que diz nessa obra de Eça, está em português de Portugal. Se eu fosse brasileiro, iria querer ler uma obra com ortografia brasileira, mas todo o resto (sintaxe, léxico, semântica) na norma portuguesa? Obviamente que não, seria uma mixórdia e um absurdo. Tal como iria querer ler Machado de Assis de acordo com a ortografia brasileira (até mesmo a do acordo ortográfico). Se me aparecesse “António” numa obra de Assis, iria achar bizarro. Consegue perceber a diferença? Espero que sim.

Mas leu o texto? Parece que não. Faço uma distinção fundamentada: não concordo com actualizações ortográficas de autores brasileiros contemporâneos em Portugal e vice-versa (uma actualização que, na verdade, ocorre em muitos casos). Agora, outra coisa é actualizar a ortografia de autores oitocentistas de um e de outro lado do Atlântico. Machado de Assis não usou a ortografia brasileira de agora. Porque teremos nós, portugueses, de ler um texto uma ortografia que o autor não usou e não é a nossa? O mesmo para Eça…(Quanto a actualizar a sintaxe, é uma coisa muito, mas muito diferente. Não está em causa nem no caso de Eça nem do de Assis.)

Boa noite caro Marcos parabéns e obrigado por ter um site tão bom quanto este . Aprendemos muito é aliás há uma cumplicidade para com os galegos muito fixe. Ora eu quero é falar do texto do lápis do carpinteiro infelizmente esse galego está cheio de interferência do castelhano por isso nom pode ser um bom exemplo para leitores lusos do que o galego é acho eu

Logo aí quer significar depois e não imediatamente
Paso é passagem
Chocho é caduco
Debuxada desenhada
Apartado mais comum afastado
Peor é pior
Pero é mas
Pastel é bolo (trozo del pastel fatia do bolo)

Só esse pequeno excerto acusa graves lacunas /eivas da linguagem e alem disso é barulho produzido polo castelhano.
O português é quem ajuda
Obrigado

Eu prefiro ler no original quando posso. Às vezes as traduções mudam o sentido do texto. Estou a lembrar-me da poesia inglesa de Fernando Pessoa. Li uma tradução que era um autèntico sacrilégio. A frase “I am what I am” foi traduzida por uma frase muito extensa. Esta frase é de tradução simples. Já tentei traduzir para mim, alguns poemas ingleses de Fernando Pessoa. Desisti. Ainda bem que sei inglês. As traduções que existem são horríveis, a minha também ficou horrível. Ao ler um autor antigo no original, saio da minha época mais facilmente. Ler brasileiro em brasileiro, galego em galego, etc.
Gosto muito deste seu sítio (site é em inglês). Vale a pena.

Obrigada pelo artigo. Gostei e concordo com a sua proposta. Sejamos atrevidos porque descobrir textos diferentes é um desafio enriquecedor.
Se somos capazes de ler em castelhano porque não em galego?
O que a princípio parece estranho depressa se torna familiar se nos dermos ao trabalho de desbravar o caminho. Avante contra a preguiça intelectyal!

Uma reflexão muito interessante sobre o(s) caminho(s) da(s) Língua(s). Fixações, traduções, para mim vale tudo. Tudo mesmo? Não. Uma coisa é uma acção séria e competente de fixação de um texto, ou uma actualização de outro, para os aproximar das pessoas. Outra coisa bem diferente é uma acção deliberada de mascarar uma diferença progressivamente mais notória entre como se escreve e fala em Portugal e como se escreve e fala no Brasil, cozinhada em mesas de negociações com objectivos políticos, e assumindo como dogma que se eliminam consoantes supostamente mudas porque “não se pronunciam”. Pronto, carimbe-se a publique-se a lei e daqui vai uma mixórdia em que nem os seus autores e apoiantes conseguem vislumbrar ordem ou nexo. Tudo num acto de replicação da rã da fábula que queria (a rã) ser grande como um boi.
Acho que mencionei que não tenho problemas com actualizações, traduções, fixações, seja lá o que fôr; mas no que respeita a maravilhas acordizantes como “adoção” (acto de adoptar ou de adoçar?), “coação” (acto de coagir ou de coar?), “ação” (um aço muito grande ou forte, supostamente) entre centenas ou milhares de outros exemplos arrepiantes que incluiem ainda hifenizações que parecem saídas de um jogo de Loto, tudo num fio condutor que parece ser unicamente a leviandade ao serviço de objectivos políticos tolos sobrepondo-se ao respeito pela Língua. Isto é uma crítica feroz? É. Como se diz por cá, “gosto pouco de ser comido por parvo”, é o que é, por quem foi produzindo postulados linguísticos como matéria de promoção de um linguajar trapalhão a Português padrão.
Acabei de me lembrar que há pouco mais de um ano estava em Estocolmo com um grupo de pessoas de diversas nacionalidades, das quais conhecia apenas uma, quando um senhor neozelandês (mesmo, mesmo, mesmo, lá do outro lado do mundo) me perguntou: “Então agora existe um acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil? Mas isso significa então que a Língua afinal não é a mesma não é?”. Não tive maneira (nem vontade, diga-se) de não lhe reconhecer a razão, abstendo-me de dizer que não sabia ele da missa a metade.
Peço desculpa se me desviei muito do tema.

Muitos amigos portugueses e brasileiros leram livros meus em galego de norma “demótica” e -além de alguns termos “raros”- não acharam difícil perceber as histórias. Solução: acostumar-se ao galego tendo em conta como o Prof. Ernesto Guerra da Cal insistia em que “todo o galego está contido no português”.
Os portugueses adoram ler o castelhano, mesmo sem perceberem completamente o que estão a ler (ou imaginando significados erradamente)… Mas o galego! Que é isso?
O velho problema (que eu conheço em pessoa, de estar com eles) que discutiam Da Cal, Lapa e Carvalho está em se o próprio é os escritores galegos escrevermos em português ou em galego com grafia “universal”.
No ponto final desta nota deixem-me contar como o texto do meu romance “Fábula”, que acabava de receber o Prémio da Crítica Espanhola não foi publicado pela DIFEL, mesmo reconhecendo que era uma bela -e terrível- história pois só fora publicado em galego. Devia esperar -disseram-me- a “estar publicado em Madrid”.
Quanto há nisso de espírito de colonizados? Triste Portugal que nega a nossa existência (enquanto admite o espanholês de dom José de Lanzarote, o marido da Andaluza Tradutora)

Vou a feiras de livros para comprar obras de autores,antigos e modernos,editadas sen a aplicação do AO90.Gostos não se discutem.

É um assunto instigante. O português europeu é mais correto no emprego de pronomes oblíquos, quase em extinção no Brasil. Li um ou dois livros de Saramago e não tive dificuldade, exceto uma ou outra palavra que desconheço. Outro dia comprei uma biografia do nosso D.João VI (vejam o uso do “nosso”) e não consegui lê-la. Era um texto muito acadêmico com construções e vocabulário bem estranhos. E o livro parecia ser bom. Era edição brasileira de uma autor português. Eça li sem problemas. Outro dia, em uma revista de história, li, chocado, que usavam o verbo “parir” em português arcaico para se referir ao nascimento de Jesus. Isto só é palatável, a partir da compreensão da evolução da língua, embora parecesse-me um sacrilégio. Finalizando, a nossa certidão de nascimento, a carta de Pêro Vaz, foi publicada em 2000. O texto original e uma espécie de tradução. O original era-me ininteligível.

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