Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O espantoso mundo das línguas

Quem nasce em Portugal acha que o mundo das línguas é simples: cada país tem a sua e as fronteiras entre elas são claras. Mas a realidade é muito diferente.

Há milhares de línguas no mundo e apenas duas centenas de países.

Há países onde podemos andar milhares de quilómetros e ver placas da estrada numa só língua (Brasil).

Noutros países, há línguas diferentes em cada aldeia (Índia).

Nalguns sítios, as línguas vão mudando gradualmente (Itália), noutros cada aldeia tem um idioma tão distinto como o português e o árabe (Papua-Nova Guiné).

Noutras paragens, é possível perceber as tendências políticas de cada um pela forma como escreve (Noruega).

Há ainda países onde se ensina uma línguas nas escolas e nas ruas ouve-se falar outra (Suíça alemã).

Noutros encontramos línguas diferentes na fala, mas o sistema de escrita é igual (China).

Também é possível encontrar regiões onde dois povos falam a mesma língua, mas escrevem-na usando alfabetos diferentes (Croácia e Sérvia).

Há línguas africanas de origem europeia (africânder).

Há línguas europeias de origem africana (maltês).

Há línguas quase mortas, mas que conseguem ganhar Prémios Nobel (provençal).

Há países que têm como língua nacional a língua duma região doutro país (Andorra).

Há países que pegam numa língua morta e a ressuscitam (Israel).

Há países que criaram a sua língua em 1984 (Luxemburgo).

Há sítios onde se quer falar uma língua própria à força (Comunidade Valenciana).

Há penínsulas onde as línguas convidam à invasão (Crimeia).

Há regiões que falam uma língua que, no fundo, é português com outro nome (Galiza).

Tudo isto e nem começámos a discutir o que é uma língua, não começámos a falar das diferenças sociais, das diferenças regionais, das diferenças de registo ou das diferenças entre os sexos.

As línguas são um fenómeno interessantíssimo. É de tudo isso que se fala por aqui.


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Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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34 comentários
  • Concordo con todo excepto que o galego sexa o portugués con outro nome. En realidade o portugués é o galego con outro nome. que nós estabamos antes. 🙂

    • Você tem razão, português é galego com outro nome. Galego é o nome original do idioma, a Galícia já existia antes da origem de Portugal ^-^
      Por isso é mais adequado dizer que português é galego com outro nome, mas talvez o autor ou autora do texto escreveu assim pra os falantes de português entenderem melhor a frase,
      Um abraço do Brasil

      • Português é português, deriva do latim como muitas outras línguas. A sua língua mãe é o Latim. Essa sim é a origem de muitas línguas. Qual língua galega? Português em Portugal e já agora, também no Brasil, em Angola, Moçambique, entre outros países de língua oficial portuguesa. Respeito pela História, identidade e cultura.

        • Sobre a origem do Português a partir do Latim, costumo lembrar que, quando os soldados do império romano tomaram contato com os povos da península ibérica, estes já falavam as suas línguas nativas. Sobre estas foi-se impondo, paulatinamente, a língua do invasor.

      • O nome original do galaico-português é romance. Quando se deu a independência de Portugal, as pessoas não tinham consciência do nome da língua que se falava sensivelmente a norte de Coimbra, pois o sul estava dominado pelos árabes. D. Dinis oficializou o uso da língua nos documentos oficiais e chamarou-lhe português. Assim, nem o galego veio do português nem o português do galego. Com a separação, os dois lados da fronteira seguiram vias um pouco distintas. O que se pode afirmar com segurança é que tanto o português moderno como o galego modernos tiveram a sua origem no galego-português (a tal língua que se chamava romance). Isto é mais ou menos o que a História nos diz.

      • Penso que as coisas são mais complexas do que o modo como as estão a pôr. A verdade que interessa é que os galegos e os portugueses falaram a mesma língua (derivada do latim) até meados do século XIV. Depois começaram a a afastar-se, mas ainda são muito parecidos. Quando estudamos essa realidade falamos em galaico-português ou galego-português (embora não sejam sinónimos).

  • O da Comunidade Valenciana e falar a língua própria à força não se corresponde com a realidade. O governo de direita espanholista é totalmente hostil ao valenciano (variante do sistema linguístico catalão).

    • É uma questão de vocabulário: as diferenças entre alguns dos dialectos é tão grande como entre o português e o espanhol.

      • Bom, as línguas som ũa questom política. A partir de que percentual se pode dizer que duas falas som línguas distintas? Á consenso científico?
        Dessarte, temos casos coma o árabe, alemám e italião no que as suas falas som consideradas a mesma língua e logo témolo francês, castelão, galego, catalám… que som consideradas línguas distintas; mesmo avendo diferenças menores antre as falas distas “línguas” cás falas das que som consideradas a mesma “língua”! Ou porque o neerlandês é considerada ũa língua diferente do alemám, cando (polas suas diferenças, comparativamente) bem poderia ser considerada um dialeto diste? Idem pro luxemburguês ou o alemám da Suíça, Áustria, Liechtenstein e Baviera. Ou o catalám, aragonês e ocitão. Ou o checoslovaco.
        Faria falha um consenso científico verbo disto. Eu opino que nom se pode chamar língua a fala de cada pessoa, aldeia ou cidade. Nisse caso, teríamos 7000 milhões de línguas. Mais tampouco á que chegar a extremos coma do chinês. Repito a pergunta: á algum consenso verbo do percentual? Está bem claro que se é 40% som línguas distintas e se é 95% é a mesma língua. Em príncipio (á quem di que o galego é língua distinta, tendo isse 95% com certas falas do “português). Mais, onde está issa barreira? Ou onde deveria estar? 99,9%? 90%? 80%? 70%? 0,1%?

        • Não há consenso, de facto. É uma questão com aspectos linguísticos e aspectos de políticos. No caso do basco, é uma língua distinta por ser muito distante do castelhano. No caso do galego, catalão entram em jogo também aspectos políticos e de tradição, embora a distância linguística seja um factor muito importante. Já no caso da Itália, à distância permitiria considerar os dialectos como línguas, mas tal não acontece fora dos âmbitos linguísticos.

          • A Itália escolheu um estândar baseado na Divina Comédia do Dante, ao igual que o alemám atual está baseado na Bíblia do Lutero. Independentemente das diferenças existentes, o prestígio dessas obras fez que se consolidasse o uso dum estândar “neutro” pra toda a populaçom.
            Tradiçom e política. Dous aspetos tam importantes coma a linguística pura. Ou mais.

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