Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O meu filho e o lobo mau

Lobo MauTodas as noites conto uma ou duas histórias ao meu filho. Não me parece que tenha grande efeito no que toca a dormir, porque ele está tão acordado no fim da história como no início, mas tudo bem.

Tenho livros de histórias, mas acabei por me habituar a inventar à medida do dia e do que nos apetece (a mim e a ele). Às vezes, lá temos ilhas com tesouros, outras vezes barcos numa praia, histórias numa floresta e, claro, muitos animais e meninos com os nomes dele, dos primos, da prima e dos amigos.

O engraçado é que ele me obriga a enfiar certas personagens nas histórias. Ainda ontem estavam ele e os primos a chegar a uma sala onde se escondia um grande tesouro, quando ele me pergunta: «e o ‘obo mau?»

Lá tive de imaginar o lobo mau a aparecer de algum lado, para os ajudar a descobrir, afinal, onde estava o tesouro que dali tinha desaparecido.

Por algum motivo, ele gosta do lobo mau e fica muito contente quando, nalguma das histórias que vou inventado, os três porquinhos acabam o dia a conversar, animadamente, com o Sr. Lobo.

Imagino que o lobo até agradece ao meu filho, que isto de andar sempre a caçar leitões com a mania que são construtores cansa e não é pouco. Às vezes, mesmo a um lobo mau, o que apetece é conversar.

Já por estas bandas do mundo real, às vezes até apetece ficar a contar histórias, sem que nos venha o sono.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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