Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O que faz o francês no Parlamento inglês (e o português no mapa de Espanha)?

Às vezes, encontramos línguas onde menos esperamos: o francês no Parlamento inglês, o alemão no Sul do Brasil, a nossa língua no mapa de Espanha…

A rainha quer, mas em francês…

Já sabemos que o Brexit é uma telenovela, talvez apenas um pouco menos realista do que as telenovelas habituais. Mas sempre serve para alguma coisa: descobrimos, entre outras preciosidades, a língua francesa bem no centro do teatro parlamentar inglês.

Quando o Parlamento é suspenso, os deputados e lordes seguem um ritual que envolve chapéus erguidos, vénias — e ainda a declaração formal da aprovação pela rainha das últimas leis da sessão.

A declaração faz-se através da expressão “La reine le veult!”, que podemos ouvir, por exemplo, ao minuto 6:30 deste vídeo (a suspensão, neste caso, é a de 2010 e não a deste ano):

Esta é uma expressão em francês normando. Há mais expressões francesas nos procedimentos parlamentares ingleses. E não só: o brasão da rainha Isabel II apresenta também duas expressões em francês…

Repare: cá em baixo, temos «Dieu et mon droit». Já em redor do brasão vemos o famoso «Honi soit qui mal y pense».
Porquê esta presença do francês nas tradições britânicas? A actual monarca inglesa apresenta-se como descendente de uma linhagem de reis ingleses (e depois britânicos) iniciada com a invasão normanda, em 1066.

Durante bastante tempo, o francês normando foi a língua da Corte, enquanto o inglês era a língua do povo. Quem diria, por esses tempos, a importância que a língua dos camponeses iria ter no mundo… O certo é que esses tempos deixaram vestígios em certos rituais, onde se ouvem frases na antiga língua dos reis ingleses.

Desarrumações linguísticas

Há mais surpresas destas pelo mundo fora.

Por exemplo, quem visitar a cidade a que os italianos chamam Alghero, na Sardenha, esperará encontrar placas em italiano e, compreensivelmente, em sardo (uma língua muito curiosa, com características que a separam de todas as outras línguas latinas). O que talvez seja mais surpreendente será encontrar algumas placas em catalão. A Coroa de Aragão, com os catalães à cabeça, andou pelo Mediterrâneo fora, numa história que hoje poucos conhecem. Mas ainda encontramos vestígios linguísticos dessa história no catalão que sai da boca de alguns italianos…

A Itália apresenta-nos mais surpresas: há uma região onde o francês é uma das línguas oficiais (Valle d’Aosta / Vallée d’Aoste); há outra região em que é o alemão a língua que acompanha o italiano (Trentino-Alto Adige / Südtirol) — e há mais línguas escondidas por baixo do manto do italiano oficial…

Já se viajarmos pelo Brasil, encontraremos terras onde vivem muitos falantes de alemão. Há dialectos do alemão próprios do Brasil, alguns deles com carácter co-oficial em certos municípios. Em Treze Tílias, por exemplo, uma grande parte da população fala português do Brasil — e alemão do Brasil! Se quisermos, podemos chamar à terra Dreizehnlinden.

Um mapa de Espanha à portuguesa

Estas anomalias linguísticas são, na verdade, muito pouco anómalas. O mundo está cheio destas desarrumações — que, se lhes dermos atenção, revelam sempre alguma coisa da História dos países e das línguas. Quando conhecemos essa História, consideramos a «anomalia» algo perfeitamente natural. Afinal, talvez seja uma surpresa para um norueguês chegar à China e perceber que há por lá uma cidade com as placas da rua em português — já nós nem pestanejamos quando sabemos que a nossa língua ainda se encontra nas placas das ruas de Macau (embora dificilmente encontraremos alguém a falar português). Por outro lado, ficamos muito admirados ao encontrar famílias a conversar em norueguês numa ou outra terreola enterrada no coração dos Estados Unidos…

Mais perto de casa, também teremos uma surpresa se passarmos para lá da fronteira virada a norte: começamos a encontrar terras com nomes de aspecto estranhamente português… Desde A Guarda até terras com nomes como Os Milagres do Medo ou Os Mouros, o mapa da Galiza enche-se de nomes que passariam por terras bem portuguesas. Mais uma vez, é a História a aparecer-nos nas palavras: a nossa língua já estava a desenvolver-se, antes de haver Portugal, no Minho e na Galiza. Ainda hoje, quando ouvimos galego, ouvimos tantas e tantas palavras que reconhecemos como nossas…

Enfim, se estivermos atentos, encontramos brasileiros a falar alemão no café, terras espanholas com nomes portugueses — e ingleses a discutir a saída da União Europeia enquanto gritam, de peruca na cabeça, frases em francês normando. Ninguém disse que o mundo era simples — ou aborrecido.

(Crónica no Sapo 24.)

Sobre a História do inglês e da sua relação com o francês, publiquei o artigo «História do inglês do Beowulf ao Brexit». Sobre os nomes das terras galegas, publiquei o artigo «A nossa língua no mapa de Espanha?»

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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2 comentários
  • No Trentino a língua usada é o italiano (na sua totalidade ou case), mentres que no Alto Adige (Autonome Provinz Bozen-Südtirol) maiormente é usado o alemám. De feito, há lugares nos que apenas se usa o alemám; mais a capital (Bolzano/Bozen) leva-lhe a contrária a toda a sua regiom, e a maioria dos seus habitantes falam italiano.
    E, já que se mencionou a Sardenha, é verdade que o sardo é o idioma que fonologicamente máis próximo está do latim?

  • O problema das línguas exóticas no Brasil foi resolvido, como costumávamos dizer, na “marra”. Pombal, o grande Pombal, proibiu a língua geral, acredito eu que um crioulo do português com o tupi-guarany, falado na região de São Paulo e Minas Gerais. Não fosse este ato de força (ou seja, a “marra” em “brasileiro”), talvez tivéssemos o crioulo como a língua da região mais desenvolvida do país. Ficou um vestígio no sotaque caipira da região, em que o R se mistura com o L como em “porta” que é pronunciado como poRLta, para gáudio de todos não-caipiras…
    O alemão foi diferente. Era língua do imigrante, mas era a língua do inimigo nazista na II Guerra. Getúlio Vargas, como Pombal, simplesmente proibiu jornais, rádios, etc, de usarem o alemão. O cidadão que se expressasse em alemão podia ser preso acusado de alta traição. Igual ação ocorreu sobre o italiano, mas como o italiano, a língua e o povo, era parecido com a gente, o assunto fluiu de maneira mais amigável, mas a proibição foi mantida. Com isto, estas duas línguas deixaram rastros mas estão praticamente erradicadas de nossa terra. O que existe hoje em Santa Catarina é uma atração turística de cidades bilíngues para encantar os brasileiros monoglotas e, você tem razão, é um alemão abrasileirado que, acredito eu, um alemão não entenderia. Para terminar, sou de Minas Gerais, a bandeira de meu estado tem a afirmação clara: Libertas quae sera tamen! Isto mesmo, em latim, língua usada na época pelos inconfidentes que que se revoltaram – fizeram uma inconfidência – contra o rei de Portugal. E em Minas Gerais, inconfidente é um elogio. Poucos sabem que é sinônimo de traição. Abraços, Mauricio

Certas Palavras
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