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O que se esconde no nome do mês de Outubro?

O nome do décimo mês parece começar por sons parecidos com «oito». Porquê?

Os meses de Janeiro a Agosto têm nomes de deuses, imperadores e outras palavras romanas. Nada a dizer. Já os últimos quatro meses do ano têm nomes baseados em números: Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro. Sete, oito, nove, dez… Mas não devia ser nove, dez, onze, doze? O nono mês começa por sete? Os romanos não sabiam contar?

Sabiam, claro. Mas, durante muito tempo, o ano começava em Março, ali no início da Primavera, o que faz sentido. Só por volta do século V a. C., com a criação dos meses de Janeiro e Fevereiro, o ano passou a começar no dia 1 de Janeiro. Os nomes dos meses, no entanto, mantiveram-se iguais, no latim que depois deu na nossa língua (e numas quantas outras). Assim, Outubro passou a ser o décimo mês, mas manteve um orgulhoso oito no nome — oito que tratámos de torturar até ficar feito num outo.

Já que estamos a falar do oito (apesar de a propósito do décimo mês), podemos dar um salto a um passado ainda mais distante. O nome do número veio do proto-indo-europeu «*oḱtṓw», que deu origem ao nome do mesmo número em línguas tão distantes como o português, o inglês, o grego, o russo, o persa — e muitas mais. Essa palavra antiga significava «duas vezes quatro dedos» (era o dual de «quatro dedos»). Conta certa, portanto.

Muitos notam que há alguma semelhança (por vezes um pouco forçada) entre a palavra para «oito» e «noite» em muitas línguas: «oito»/«noite», «ocho»/«noche», «nuit»/«huit», «eight»/«night», etc. Haverá aqui uma ligação oculta? A ligação é mesmo uma coincidência no proto-indo-europeu, língua em que as duas palavras eram, fortuitamente, muito semelhantes. Quando se foram dividindo noutras palavras nos vários rios e riachos que são as línguas que dali nasceram, este par de palavras acabou por manter a semelhança, apesar de os vários pares se terem afastado muito uns dos outros.

A história das línguas e de tudo o que é humano é uma mistura entre a ordem e a desordem. Encontramos lampejos de lógica num ponto, para ver como tudo está desarrumado mesmo ao lado. Isto acontece nas línguas e em muitos outros sistemas humanos. Por exemplo, o primeiro dia do ano: sim, os Romanos, ainda antes do primeiro século da nossa era, já tinham decidido que seria a 1 de Janeiro. Mas, durante a Idade Média, em muitos pontos da Europa, foram usadas outras datas. Uma das preferidas era o dia 25 de Março. O Calendário Gregoriano, que hoje usamos, garantiu que o início do ano se colou ao dia 1 de Janeiro, sem grandes probabilidades que dali venha a sair.

Ainda encontramos, no entanto, alguns resquícios do ano a começar a 25 de Março. O dia em que George Washington nasceu era, para os contemporâneos, o dia 11 de Fevereiro de 1731 — e Fevereiro era o penúltimo mês do ano. O novo ano era celebrado, em Inglaterra e colónias, no dia 25 de Março (por cá, o dia 1 de Janeiro já era o primeiro dia do ano há muito tempo). Anos depois, a Inglaterra aceitou o Calendário Gregoriano, retirando 11 dias ao calendário e alterando o início do ano para 1 de Janeiro. Resultado? Hoje em dia, o aniversário de George Washington está nos livros como tendo ocorrido no dia 22 de Fevereiro de 1732 — mas nas obras mais antigas, ainda encontramos a data antiga. Outro resquício do antigo Novo Ano à inglesa? Os ingleses mudaram o ano civil, mas esqueceram-se do ano fiscal, que ainda hoje começa no dia 6 de Abril (o dia 25 de Março no calendário antigo).

O calendário é uma mistura de matemática exacta e destroços de palavras antigas, de números e nomes que, ao mesmo tempo, tentam descrever a aparente ordem com que os astros percorrem o nosso céu, marcando o ritmo das horas, dos dias, dos anos. Não há calendários perfeitos — tal como não há gramáticas perfeitas ou maneiras perfeitas de descrever o mundo. A tensão entre as nossas tentativas de ordenar os sistemas que usamos (o calendário, a língua…) e a nossa simultânea propensão para escapar a essa ordem, em desarrumações que nos põem o coração a bater mais depressa — é essa tensão que torna a linguagem e tudo o que é humano tão, mas tão interessante e é por isso que fico com um sorriso nos lábios quando me lembro que o nosso décimo mês tem um oito no nome.

(Crónica no Sapo 24. Corrigi a referência ao momento em que Março deixou de ser o mês inicial durante o Império Romano.)

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Marco Neves

5 comentários

a analogia das línguas com os vetores hidrográficos até seria feliz não fosse o contrário na medida em que do proto-indo-europeu surgiram vários idiomas na inversa proporção e dimensão em que levadas, riachos, ribeiros e rios vão confluindo – por essa ordem – até desaugarem num tronco comum – o proto-indo – que por sua vez iria ter ao mar – num pré-proto-indo-europeu

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