Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O que vai acontecer ao inglês na União Europeia depois do Brexit?

O Reino Unido vai, por fim, sair da União Europeia. O que acontecerá à sua língua nas instituições da União?

A União Europeia orgulha-se de não ter escolhido uma só língua como língua oficial. Não escolheu uma, nem duas, nem três: escolheu 24! Quais são? O Tratado da União Europeia diz, no seu artigo 55.º:

O presente Tratado, redigido num único exemplar, nas línguas alemã, búlgara, checa, dinamarquesa, eslovaca, eslovena, espanhola, estónia, finlandesa, francesa, grega, húngara, inglesa, irlandesa, italiana, letã, lituana, maltesa, neerlandesa, polaca, portuguesa, romena e sueca, fazendo fé qualquer dos textos, será depositado nos arquivos do Governo da República Italiana, o qual remeterá uma cópia autenticada a cada um dos Governos dos outros Estados signatários.

Se teve paciência para contar, terá concluído que são 23 as línguas do tratado. A estas línguas há que acrescentar o croata, que se tornou língua oficial em 2013, por força da adesão da Croácia. Já o irlandês só começou a ser considerado língua oficial em 2007 — e ainda hoje está numa espécie de limbo, oficial na teoria, mas não na prática.

Portanto, as línguas oficiais da União são 24. A legislação europeia é publicada, habitualmente, nestas línguas todas (com a excepção habitual do irlandês) e todas as versões são igualmente válidas: uma directiva em alemão vale tanto como a mesma directiva em português.

Pois bem: o Reino Unido vai sair da União e os outros dois estados que usam o inglês com carácter oficial (Irlanda e Malta) têm outras línguas a que dão primazia constitucional: o irlandês e o maltês. A partir de sexta-feira não haverá nenhum membro da União em que a língua mais importante do Estado seja o inglês. Será que o inglês deixará de ser uma das línguas oficiais da União?

Não me parece que tal vá acontecer. Em primeiro lugar, o inglês continua inscrito nos tratados. O acordo de saída do Reino Unido nada diz em contrário e, assim, as versões inglesas dos tratados e da legislação continuam a ser válidas. Depois, a Irlanda tem, de facto, o irlandês como língua nacional e prioritária, mas esta, na prática, é falada por uma minoria da população. O inglês é não só uma das línguas oficiais, como é também a língua materna da grande maioria dos irlandeses e a língua usada no dia-a-dia em quase toda a Irlanda — os irlandeses, que já ficaram com tantas dores de cabeça por causa do Brexit, não gostariam de ver a sua língua eliminada das instituições da União.

Mas há outras razões: nos corredores das instituições, as línguas mais usadas nas discussões informais são o francês e o inglês. Dificilmente essas conversas informais passarão para outra língua de um dia para o outro. O inglês é também muito importante na tradução e interpretação. Só como exemplo, serve, em muitos casos, de língua intermediária — um deputado europeu que fale em estónio será interpretado para inglês e daí para muitas das outras línguas. Seria possível mudar este estado de coisas? Claro! Mas seria necessário bastante tempo — e também muita força de vontade. Não parece estar em curso nenhuma Grande Substituição da Língua Inglesa…

Por fim, a língua inglesa, mal ou bem, é a mais aprendida, por essa Europa fora, como língua estrangeira e é muito usada como língua auxiliar. Estou, aliás, convencido de que a situação seria ainda mais desequilibrada a favor do inglês não fosse a antiga e feliz insistência da União Europeia na promoção das várias línguas. O certo é que é muito comum ver conversas entre alemães e portugueses em inglês, por exemplo. O inglês que usamos é uma versão simplificada (alguns diriam trucidada) da língua, mas é isso que acontece sempre que uma língua serve de língua auxiliar. É também uma língua importante no comércio e na ciência. Esta importância desmesurada do inglês pouco terá que ver com a presença do Reino Unido da União Europeia.

O Brexit significará, provavelmente, que o inglês britânico será cada vez menos ouvido nos corredores de Bruxelas. Mas o inglês pouco britânico que cada vez mais europeus usam para falar com outros europeus? Esse está aí para as curvas.

(Se quiser ficar a conhecer a legislação europeia nas várias línguas, pode consultar o EUR-Lex, a base de dados de legislação da UE. A base de dados terminológica da União é também muito interessante e útil. Chama-se IATE.)

(Crónica no Sapo 24.)

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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