Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

A origem extraterrestre da língua portuguesa

Todas as áreas são campo de teorias absurdas. Até a língua.

Há uns tempos, encontrei um daqueles amigos-só-do-Facebook que acreditava numa teoria linguística espectacularmente errada: segundo ele, o português vem do grego antigo e a ideia de que falamos uma língua latina nasceu com os românticos — e desde então tem enganado gerações e gerações…

Provas? Coisas como a palavra «palavra» ter origem no nome da deusa Pala (é mentira: a palavra «palavra» vem da «parabola» latina) e outras parecenças dessas, circunstanciais, aleatórias… É o tipo de pensamento nebuloso, embrulhado num discurso de aparência coerente e informada, que nos deu tantos e tantos erros e delirantes edifícios intelectuais ao longo da história.

Não são tão conhecidos como os terraplanistas ou os crentes nos rastos químicos dos aviões, mas também há teóricos da conspiração para todos os gostos no mundo da língua: o português veio do fenício, veio do árabe, veio do grego, veio disto ou daquilo… Que tantos e tantos estudiosos tenham acumulado toda uma história complexa e ainda não terminada do caminho que a nossa língua percorreu do latim popular até ao português de hoje em dia, passando pelos séculos em que o português e o galego não se distinguiam — nada disso interessa! Há umas quantas palavras de origem árabe? Falamos árabe! Há umas quantas palavras de origem grega! A nossa língua é grego puro!

E, claro, como bons teóricos da conspiração, os factos que apresentamos só reforçam as ideias delirantes dos donos das verdades alternativas. Deve ter que ver com um qualquer mecanismo cerebral, talvez a propensão humana para explicar tudo através de narrativas pessoais: gostamos mais de pensar que somos um herói intelectual num mundo de gente enganada ou enganadora do que passar pelo trabalho de aprender o que já se sabe e, talvez, com o nosso esforço, deixar mais uma pedrinha nessa construção colectiva que é o conhecimento humano.

Sim, eu sei que o progresso do conhecimento humano exige estarmos sempre a pôr em causa o que sabemos: mas pôr em causa não é inventar por inventar — pôr em causa é testar o que sabemos, ou seja, contrariar propositadamente o que pensamos, mas de forma honesta e, acima de tudo, sem ignorar os factos que estão em cima da mesa. As teorias com que explicamos o mundo testam-se e melhoram-se, não se descartam com um gesto displicente. Se alguma delas se revelar errada, não a devemos substituir por outra que explica ainda menos do que a anterior e contraria quase tudo o que sabemos.

Os cientistas sabem que, se provarem que uma teoria reinante está errada, ficarão famosos: mas essa prova não se faz mandando umas larachas nem apresentando teorias absurdas só pelo gosto de não acreditar no que todos acreditam. Faz-se com trabalho, investigação e cautela. Pouquíssimos são os que conseguem porque a verdade é que aquilo que sabemos depois de séculos de pesquisas costuma aguentar-se à bronca. A Terra pode não ser exactamente redonda, mas muito menos é plana. A nossa língua tem palavras de muitas origens, mas continua latina… E as teorias da conspiração continuarão a existir enquanto existirem seres humanos!

A história verdadeira da língua é tão interessante: não é preciso inventar um universo alternativo. Até porque, para inventar por inventar, bem podíamos dizer que falamos uma língua extraterrestre. Basta reparar que não sabemos a origem dumas quantas palavras e, a partir daí, explicar ao mundo que o português só pode ser do planeta Xénon. Bem, é melhor estar calado…

Agora pergunto: como dialogar com quem tem estas teorias estapafúrdias? Um primeiro passo será reconhecer que uma pessoa pode acreditar num disparate numa área e até ser muito razoável noutra. Se não podemos conversar sobre a língua, podemos conversar sobre outra coisa. E, depois, ganhando confiança, talvez o diálogo comece a ser produtivo mesmo em áreas onde acreditamos em teorias radicalmente diferentes. Sem esquecer que tal não significa que todos tenham razão: o português não tem origem no grego…

(Crónica no Sapo 24 com base em texto publicado nesta página em 6 de Novembro de 2016.)

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Autor
Marco Neves

Professor na NOVA FCSH, tradutor na Eurologos e autor de livros sobre línguas e tradução.

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8 comentários
  • Marco Neves, boa tarde. Estou de quarentena – a palavra deve ser latina. Aprendi hoje o que é laracha. Não a conhecia, salvou-me mais uma vez o Google. Antes de expor a minha teoria, estava a ver um vídeo antigo do Ariano Suassuna em que nos dizia que se nascesse na Alemanha seria mudo e que ele teria dito a um presidente português que jamais saíra do Brasil mas se o fizesse iria para Portugal pois é o único país europeu que teve o bom senso de falar português… Bem, minha teoria é mais razoável do que a teoria do planeta Xénon. Português era a língua de uns quantos nativos do litoral brasileiro que a ensinaram a um bando de navegantes estranhos, com hábitos e roupas igualmente estranhas. Estes caras – perdoe-me, estas pessoas – estranhas aprenderam-na e levaram-na aos quatro cantos do mundo. Inclusive pegaram um indiozinho mais esperto e pediram-lhe para escrever a história daquela epopeia louca. E o indiozinho, com sua língua afiada, começou: “As armas e os barões assinalados…”

  • Marco Neves, já tive oportunidade de falar aqui e vou repetir. O português brasileiro tem muitas nuances que são interessantes até para nós. Embora viva em São Sebastião do Rio de Janeiro – se quisessem um nome mais português não conseguiriam – sou mineiro das Minas Gerais. Há um sítio de humor – aqui se chama de stand-up, palavra vinda certamente do planeta Xénon – no youtube chamado “tumatecru” em que se discute muito o falar das Minas Gerais. Seria interessante você ver um ou outro quadro. É , sob alguns aspectos, um semi-dialeto, se é que existe esta palavra. Há pessoas de outros estados que dizem ter os filhos tido dificuldades em entender os professores, visto a forma de pronunciar as palavras e de palavras exclusivas da região. E nos locais mais remotos, usam palavras arcaicas e muitos espanholismos, além de africanismos múltiplos. Nas “roças”, monta-se e apeia-se de cavalos. Mas apeia-se de qualquer outra coisa. De um carro, de um comboio, etc. Sobe-se um morro “arriba” e corta-se de um campo a outro por meio de uma “tronqueira” nas cercas. E pode-se carregar um filho na cacunda. Acho que valeria a pena você analisar este falar e tirar as suas conclusões. Abraços,

  • Pior é que essa teoria realmente existe dentro de uma crença brasileira chamada allanism, nessa o alfabeto latino veio do espaço, e as línguas latinas começaram como variações de uma língua falada na romenia.

  • O subtítulo do livro do Fernando Almeida, “A origem da língua potuguesa” parece-me bastante razoável: “palavras portuguesas de origem fenícia”.
    A formação académica dele também me parece interessante para o tipo de indagação a que se tem dedicado. Ele é geógrafo.
    E suponho que estudou fenício. E não me lembro de alguém que tenha contestado que o tenha estudado.

    • Não percebi a ligação do comentário ao artigo. Se o livro que refere defendesse que o português tem origem no fenício, seria um exemplo do “terraplanismo linguístico” que estou a criticar, mas não me parece ser o caso.

      • Eu não sei o que é o “terraplanisno linguístico” porque começo por não saber o que é o terraplanismo. Sei o que são terraplanagens! Isto é, não sei se existe alguma teoria que dê pelo nome de “teoria da terra plana”. Para mim isto é linguagem imprópria. Linguagem de genocidas! Tanto quanto me tem sido dado a perceber, a “teoria da terra plana” é uma espécie de calhau que certas pessoas usam para atirar à cabeça de outras. Não acho bonito.

        • Sim, existe a teoria da terra plana, que podemos chamar “terraplanismo”, seguindo as regras da formação de palavras em português. Poderá encontrar facilmente várias páginas e documentários sobre o terraplanismo. Não faço ideia o que isto tem que ver com genocídio… Neste caso, está a ser usada como metonímia para “teorias que negam o conhecimento científico”. Estou ao dispor!

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