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«Os dois pais» é erro de português?

Os erros falsos já foram o tema principal desta página. Entretanto, comecei a virar-me para as viagens a bordo das palavras — uma pessoa não tem de estar sempre a escrever sobre o mesmo assunto, não é? No entanto, continuo a dar muita atenção às regras inventadas — até porque, muitas vezes,  nos mostram recantos curiosos da gramática…

Um amigo alertou-me ontem para um curioso erro inventado: alguém se pôs a reclamar numa rede social ao pé de si porque ouviu um jornalista a dizer na televisão «com os dois pais deste jovem». O espectador estava tão indignado com a expressão que até pedia para que lhe dissessem se teria ouvido bem. Inacreditável! Alguém se atreveu a dizer em directo «os dois pais»!

Já sabemos que a nossa capacidade para imaginar regras fictícias do português é infinita — mas esta espantou-me. Onde estaria o erro?

Pelos comentários, percebi: se estamos a falar dos dois pais do jovem, basta dizer «os pais do jovem». Se dissermos «os dois pais», estamos a insinuar que são dois pais do género masculino. Logo, é erro!

Ah!

Apareceram logo várias vozes a concordar. Claro que é erro! E se alguém dizia que não, atalhavam: «Foi assim que aprendi na escola!»

Tentei imaginar uma professora primária a dizer aos meninos: «Se falarem dos pais, nunca digam “os dois pais”!» — Não consegui.

Tento pôr-me nos pés de quem ouviu a frase e encontrou ali um erro… É verdade que a palavra «dois» podia ser eliminada — afinal, os pais serão só dois… Posso dizer apenas «com os pais deste jovem». Se isto fosse um texto escrito, talvez tirar a palavra ajudasse a afinar o estilo do texto.

Mas é disso que se trata: afinações estilísticas…

Agora, um erro?

Quem ali comentava parecia ter a certeza. Houve quem puxasse da frase «Agora já se pode dizer tudo!». Apetecia-me responder: não, não podemos dizer tudo — tal como não podemos inventar regras de português só porque sim…

Tento formular a suposta regra: «Apenas devemos usar um numeral nos casos em que o número de elementos referidos pelo nome não puder ser determinado de outra maneira.» Será isto? Esta regra não está em nenhuma gramática. É pura invenção. Se fosse real, teríamos de eliminar expressões como «os meus quatro avós», «os cinco dedos da mão» — entre muitas outras!

Aliás, há frases em que a indicação do número de pais parece inevitável:

  • «A Carolina só trouxe a mãe, mas o Simão veio com os dois pais!»
  • «Consegui falar com os dois pais do Martim, apesar de viverem longe um do outro.»
  • «Já só tenho um avô vivo, mas ainda tenho os dois pais.»

Se eu disser «Já só tenho um avô vivo, mas ainda tenho os pais.», o que digo é perceptível, mas ligeiramente confuso. O numeral «dois» permite-me apontar claramente para o que quero dizer.

Enfim, as regras inventadas são mais que as mães — e que os pais. Todos temos dúvidas e todos acreditamos em mitos e já sabemos como as famosas redes sociais nos expõem a todo o tipo de ideias certas e erradas. Não quero dar demasiada importância a um caso como este, embora não deixe de ficar preocupado com a facilidade com que tantas pessoas genuinamente interessadas na língua acreditam num mito destes.

Se não servir para mais nada, o mito servirá para nos fazer reparar num ponto curioso da nossa gramática. De facto, o plural de «pai» é peculiar: a palavra, no singular, refere-se quase sempre a um homem (e o «quase» está ali por precaução). No plural, pode indicar os dois pais (cá está…) de uma pessoa, um grupo de pais (duma turma, por exemplo) ou apenas os pais do sexo masculino («as mães para um lado e os pais para o outro»). Posso ainda dizer coisas como «Cada aluno só pode trazer um dos pais!» e, ainda assim, estar a referir-me a algumas mães.

Até o plural dos pais dos pais é muito curioso… Se eu disser «os meus avós» estou a referir-me aos avós de ambos os sexos. Se eu disser «os meus avôs» estou a referir-me apenas aos avós do sexo masculino. No entanto, no que toca ao género gramatical, «[os] avós» e «[os] avôs» são duas palavras do género masculino; já «[as] avós» é uma palavra do género feminino. Confuso? Talvez seja para quem está a aprender português na idade adulta. Um falante nativo raramente erra nisto…

É ou não é verdade que, para lá dos mitos, os plurais de «pai» e «avô» são um delicioso cantinho da gramática da nossa língua?

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Marco Neves

10 comentários

Bom dia, chamo-me Joana Gouveia e gostava de apresentar aqui uma redundância que vejo em todo o lado. Diz-se muito ‘ela é mãe de dois filhos’ e ‘ele é pai de um filho’. Ora, se alguém é pai ou mãe é porque tem implicitamente filhos. Bastava dizer: ‘ele/a tem x filhos’. Joana Gouveia

Obrigado pelo comentário! No entanto, não me parece que sejam expressões incorrectas. Sim, posso dizer «Tenho dois filhos!», mas também «Sou pai de dois filhos!». A língua oferece quase sempre mais de uma maneira de dizer a mesma coisa. Num certo contexto, a segunda frase pode sublinhar o orgulho da pessoa em ser pai, por exemplo. Quanto à redundância, a sua existência não implica necessariamente um erro, como já discuti em vários artigos desta página. Por exemplo, posso dizer «Tenho dois filhos!» e «Eu tenho dois filhos!». O «eu» é redundante (pois a pessoa já está indicada no verbo), mas não está incorrecto. Há até algumas redundâncias obrigatórias: as nossas conhecidas concordâncias. Note-se que todas as línguas naturais têm redundâncias, que fazem parte dos mecanismos linguísticos necessários para uma boa comunicação. Espero que volte a esta página! 🙂

Bom dia, chamo-me Joa……..e gostava de apresentar aqui uma redundância que vejo em todo o lado. Neste caso pode usar gostava?

Bom dia! Nos dias de hoje pode ser correto afirmar “os dois pais” por causa da mudança na configuração das famílias.
Tipo um casal de homens adotaram um filho.
Então certamente serão dois pais.

Eu creio que nesse caso possa ser usado esta afirmação.

Como explico no texto, a expressão «dois pais» é correcta mesmo quando se refere a um pai e a uma mãe.

Muito obrigado! Quanto à pergunta, teoricamente, seria possível, mas o mais natural seria que a pessoa dissesse «mas ainda tenha as duas mães»…

Leio as suas crónicas com muito interesse e comprei dois dos seus livros. Fui revisora durante 44 anos e não encontro na sua escrita conteúdos mal elaborados ou pouco precisos, antes pelo contrário.
Gostaria de partilhar consigo que dou aulas numa universidade sénior e socorro-me de um dos seus livros para dar um pouco de movimento e alegria a conteúdos que por vezes se tornam maçadores. A sua escrita tem essa particularidade. Muito obrigada

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