Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Peniche em cinco palavras

Foi na sexta-feira que fiz a promessa, como se não fosse nada. Haveria de escolher cinco palavras e descrever Peniche em cinco pequenos textos. Para quê? Para servir de material de divulgação do livro que andamos a engendrar.

Nada mais simples: cinco palavrinhas, cinco textos pequeninos — e pronto, lá teríamos material para umas semanas. Cinco palavras não custam nada…

Cheguei a casa, sentei-me ao computador, abri a página em branco, pus as mãos em modo de ataque — e foi então que arregalei os olhos e me caiu em cima o peso da bela alhada em que me tinha metido.

Cinco palavras? Para descrever a minha terra? Onde é que eu estava com a cabeça?

Peniche não cabe em cinco palavras! Nenhuma terra cabe em cinco palavras! Quanto mais a nossa terra! Abanei a cabeça! Fiquei de tal maneira que já só conseguia acabar as frases com pontos de exclamação!

Promessas são promessas e a equipa que anda a trabalhar no livro não quer saber de bloqueios. É para escrever e depressa! Pois bem: prometi cinco palavras. Serão cinco as palavras que escolherei. Nem mais nem menos.

Ainda com a página em branco à minha frente, os dedos a magicar no ar, pus-me a recordar. Na minha cabeça apareceram imagens que me deixaram o coração acelerado — haveria ali cinco palavras que me servissem?

Lembrei-me da minha rua, que tinha a forma de um anzol (a sério) e se chamava, enfim, Rua do Anzol (estamos em Peniche!), rua onde ainda reconheço as exactas falhas das pedras do passeio por onde saltavam os pneus das bicicletas com que os meus irmãos e eu dávamos a volta ao anzol.

Lembrei-me da rampa da minha casa, que o meu cão passava a vida a subir e a descer, à espera de um carteiro para ladrar. Lembrei-me do café do Sr. David, lembrei-me da praia a poucos metros de casa, lembrei-me de tudo isto e tantas outras coisas que podia encher um dicionário com palavras que só eu conseguia ligar às exactas imagens na minha cabeça. Se escolhesse cinco palavras destas memórias tão minhas, seriam sempre palavras demasiado banais para todos os outros: «casa», «cão», «bicicleta», «rua», «família»…

Talvez possa encontrar palavras ao pensar nas escolas onde andei, a começar naquele dia de Setembro de 1986, quando subi pela mão da minha mãe a escadaria da Escola Primária n.º 1. Ficámos todos sentados em cima das mesas, os pais nas cadeiras, enquanto ouvíamos a professora Dália, que havia de nos ensinar a ler e a escrever. À minha frente, estava a Margarida, tão admirada com aquilo tudo como eu.

À frente da escola havia um largo enorme, onde começava uma avenida que me parecia enorme (naquele tempo tudo parecia enorme — ou então era eu que era muito pequenino), sempre a subir até ao largo da mercearia da minha avó Leonor e do meu avô Faustino, onde eu ficava, atrás do balcão, a ouvir as conversas da terra.

Mas isso era se eu fosse em frente. Se, ao sair da escola, virasse à direita, ia dar ao Centro Comercial Quarto Crescente, a pingar anos 80 por todos os lados, onde o meu pai tinha uma loja e onde às vezes ia para o cinema do Sr. John ver filmes, empoleirado no vidro da cabine de projecção. Quando, muitos anos depois, vi o Cinema Paradiso, percebi que as cenas da vida se repetem em décadas e países diferentes. Felizmente, em Peniche, nos anos 80, ninguém cortava os beijos dos filmes.

Se me pusesse a descrever tudo isso, encontraria muito mais do que cinco palavras. Mas será que alguém quer saber das minhas recordações? Tenho é de encontrar cinco palavras que apresentem a terra ao mundo. Será mais útil — digo eu.

Pois bem. Comecemos.

1. Sal

Podia ter escolhido «mar», «praia», «oceano», «ondas». Todas essas palavras ficariam bem, mas escolhi o sal que fica nos lábios depois dum mergulho, quando a água se evapora, o sal do bacalhau na mercearia da minha avó (as memórias de infância intrometem-se sempre), o sal que fica no vidro dos carros ao passarmos na Marginal Norte, com a espuma do mar a galgar falésias… Em Peniche, não é só o mar que tem sal. Em Peniche, até o vento é salgado.

2. Gritos

Sim, gritos! Das mães a chamar os filhos no largo da mercearia, dos pescadores nos barcos, da lota e do mercado, das conversas na rua, das brincadeiras das crianças na escola, dos naufragados pelos séculos fora, das conversas nos bares da Avenida do Mar, com os ouvidos a zumbir da música alta, ou então das conversas ao lado do motor do barco que nos leva às Berlengas. Há também o silêncio que vem logo a seguir, deitados na praia, a ouvir as ondas, em sussurros na areia. E há logo quem corra pela praia e, num grito de coragem, mergulhe no mar…

3. Nevoeiro

Lembro-me de uma grua gigantesca a passar por entre a bruma, por cima do molhe, a semear pés de galo no Atlântico. Lembro-me de um som grave e antigo, ali no Cabo Carvoeiro, a avisar os navios que passam dos perigos duma terra que aparece de repente no nevoeiro. Lembro-me de não conseguir mostrar as Berlengas aos amigos de fora, em fins-de-semana de muita nuvem encostada ao mar.

4. Sol

Gosto dos gritos das crianças e gosto do nevoeiro da minha terra — mas nesta lista que já está a chegar ao fim, é melhor que o sol apareça por entre as nuvens, não é? O sol a pino no Revelim dos Remédios; o sol das primeiras manhãs de Agosto, com os sinos da Igreja de São Pedro a tocar; o sol a partir-se no mar; o sol a entrar pelo Atlântico, entre ânforas e algas; o sol a bater nas toalhas das mesas, enquanto o ar se enche do cheiro a peixe grelhado; o sol a bronzear gente do mundo inteiro, enquanto um avião passa lá em cima; o sol a pôr-se laranja no horizonte por entre aplausos no Cabo Carvoeiro.

5. Mapa

Já só tenho mais uma palavra. Quem me mandou gastar uma delas com a improvável escolha dos gritos? Enfim, está feito. A última tem de incluir a terra toda, nem que seja à força. Fica «mapa». Um mapa desta terra atiça-nos logo a imaginação. Se for um mapa com alguns séculos, mostra-nos como Peniche já foi uma ilha (com um tesouro, pois então). Um mapa actual dá-nos o contorno de baías, não sei quantas praias, fortalezas e ruínas, falésias, grutas e ilhéus, um antigo vulcão atirado a norte, o cabo que é o verdadeiro quase cume da cabeça de Europa toda — e ainda enseadas de piratas, um arquipélago de ilhas antigas ali mesmo à mão, um túnel por onde passa o mar… Podia continuar o dia todo.

E é nesse mapa com que encerro esta lista de palavras (se fosse amanhã, seriam outras) que se desenham as aventuras do livro que andamos a criar, um livro em que Peniche é uma Ilha do Tesouro, com 1001 histórias para contar por esse mundo fora.

*

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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4 comentários
  • Ahhhh Marcos Neves, como escreves delicioso, que prosa formidável, que encanto são suas palavras, suas memórias,seu sorriso em cada letra digitada. Sou sua fã, brasileira, amante de Portugal e de sonhos concretizados, a participar dessa vida encantadora. Logo serei também uma participante do cotidiano português. Estou de mudança para a doce terrinha. Meu abraço bastante quentinho.

  • Bolas! Estou encantada! Só o descobri hoje. O tempo que perdi!
    Peniche é, para mim,terra linda, maravilhosa, emotiva. Tem um pôr de sol tão belo, como não há em qq outro sitio. Eu sou eu exagerada pelo facto de amar essa linda terra, feita de sol, mar e de mta tristeza. Um dia, explico melhor..,

  • Como sempre, gostei muito. Algumas curiosidades do falar lusitano e do brasileiro aparecem no seu texto. Você usou passeio como sinônimo de calçada, a lateral da rua para pedestres. No Rio usamos calçada, mas em Minas Gerias optamos por passeio, que pode ser também uma excursão ou viagem de lazer. Mineiros são identificados por andarem no passeio e, agora, podem ser confundidos com os lusitanos. Você usou o largo da escola, preferimos praça, exceto nas cidades muito antigas onde o colonizador se fixou por muito tempo. No Rio, sede do império portugués por doze longos e felizes anos, temos o Largo do Machado ( próximo da casa de Machado de Assis, mas sem relação com o famoso bruxo do Cosme Velho), o Largo da Carioca, Largo dos Guimarães e por aí vai. No Rio, tivemos a ousadia de chamar uma colina de outeiro, o famoso Outeiro da Glória, onde na Igreja de NS da Gloria do Outeiro, a Carioca Maria da Gloria, futura rainha, foi batizada. E você me deixou numa alhada ao usar esta expressão exótica para mim. Saí desta enrascada com auxílio de São Google. Mas aprendi que numa alhada podem cair a Trindade e o Carmo. Abraços, aqui do outro lado do Mar Português, lembrando que o sal dos ares de Peniche vem das lágrimas de Portugal…

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Marco Neves

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