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Travessões e outros prazeres

Por algum motivo que me escapa, sempre gostei da pontuação — e, entre todos os sinais, havia um ou outro que me enfeitiçava particularmente. Era o ponto de interrogação a dar uma curva; era o ponto de exclamação a gritar «Perigo!» — e era o travessão! Olhava para o travessão — enorme! — e deliciava-me com o atrevimento daquele sinal, a ocupar mais espaço que algumas palavras… Fiquei tão encantado que acabei por me exceder no seu uso. Sou um travessófilo, o que já me trouxe algumas amarguras.

Enquanto me punha a ler os primeiros livros em português, também me pus a escrever os primeiros textos — as velhinhas composições da escola. Algumas eram já feitas a computador — e não percebia a razão por que as minhas vírgulas não ficavam iguais às dos livros… Era numa época em que o Word ainda não sublinhava, num vergonhoso vermelho, os erros de ortografia e pontuação.

Lá descobri o óbvio: tinha de pôr um espaço a seguir à vírgula (perdoem-me: não devia ter nem doze anos).

Quando abri o meu primeiro livro noutra língua, foi a descoberta das pequenas diferenças. Tal como tinha ficado maravilhado com as consoantes com acentos na primeira vez que atravessei a fronteira, fiquei pasmado com os costumes bárbaros dos ingleses, a usar aspas para o diálogo… Depois, lá notei que por cá também há quem faça isso mesmo. Notei ainda que os americanos usam aspas duplas (“ ”) e os ingleses aspas simples (‘ ’) para assinalar o diálogo. A pontuação é um hábito — e os hábitos podem mudar de cultura para cultura. Não me fiquei pelo inglês. Foi divertido encontrar os pontos de interrogação e de exclamação a fazer o pino no início de muitas frases castelhanas. E que dizer do gosto francês pelos espaços à volta das aspas e dos pontos de exclamação e interrogação?

Mas deixemos os pontos das outras línguas: o que nos traz a estas páginas é a pontuação em português. O objectivo deste livro é servir de referência a quem escreve — esclarecer dúvidas, mostrar como funciona a pontuação, ajudar a escrever melhor. Só quis escrever este prólogo para confessar que, não fosse esse antigo encanto por estes sinais, nunca teria escrito o livro. Sem mais demoras, comecemos.

* * *

O livro divide-se em trinta capítulos, distribuídos por cinco partes.

O texto divide-se em secções numeradas, para facilitar a navegação pelos mares revoltos da pontuação.

Os exemplos estão num tipo de letra diferente do corpo do texto. Uso um visto para os exemplos correctos e uma cruz para os exemplos incorrectos, que aparecem rasurados.

O livro pode ser encomendado nesta página.

Marco Neves

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