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Por que razão o galego é invisível para os portugueses?

desencontros-página001 (2)Na sexta-feira passada, estive no Centro Cultural Galego a falar sobre a a invisibilidade do galego para os portugueses. Esteve comigo o José Ramom Pichel, que falou sobre o encaixe da Galiza entre Espanha e Portugal, e ainda Isaac Lourido, professor de galego e responsável pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH/NOVA. A conversa foi animada, com boa disposição e muitas perguntas.

Quero agora deixar aqui algumas notas sobre o que disse por lá.

Parti deste estranho fenómeno: na Galiza, discute-se se o galego e o português são ou não a mesma língua. Por cá, muitas pessoas nem sequer conseguem distinguir o galego do espanhol.

Para muitos de nós, o galego é invisível.

Comecei por contar episódios a que assisti e que mostravam essa invisibilidade do galego aos olhos de alguns portugueses. Não vale a pena contá-los de novo (até porque já contei alguns deles neste blogue). Basta, agora, dizer-vos isto: no final da sessão, alguém do público perguntou em que língua José Ramom Pichel tinha falado, provando à saciedade como o galego pode ser invisível para os portugueses. Reparem: a pessoa em questão estava interessada no galego e não estava, de forma alguma, de pé atrás perante estes fenómenos. Simplesmente, tinha dificuldade em distinguir o galego do castelhano.

Mas donde vem esta dificuldade sentida por tantos portugueses?

Tenho algumas ideias, que deixo aqui como pistas (deixo de lado duas razões importantes: a distracção e o desinteresse de muitos).

O galego apresenta-nos sinais que o associam ao espanhol

Nós não andamos para aí com óculos de linguista. Assim sendo, não andamos a separar línguas e a distinguir falares com precisão. Resultado? Agarramo-nos a certos sinais, a pistas que nos indicam o que está escrito numa língua e o que está escrito noutra. Para um português, as marcas do espanhol são letras e sílabas como ñ, ll, -ción, etc.

Que os galegos tenham esses sinais todos na sua ortografia oficial pode ser azar ou outra coisa, mas é uma realidade. E, assim, perante essas pistas todas, facilmente caímos na esparrela de achar que o galego é espanhol — somos todos detectives linguísticos muito amadores.

Isto, na ortografia. No ouvido, podemos não ter sinais ortográficos, mas temos entoações e sons que associamos ao espanhol. Também aí se cria confusão. O galego tem uma relação íntima com o português, mas tem diferenças: e essas diferenças são muito visíveis, porque notamos mais facilmente o que é diferente do que aquilo que é comum quando olhamos para qualquer realidade que consideramos estrangeira. É o nosso tribalismo a funcionar…

Mas também é verdade isto: às vezes o galego aproxima-se tanto que cai para o cesto do português. Já aqui contei o caso do meu sogro, que ouve a TV Galiza e percebe que, em muitos casos, não está perante falantes de espanhol. Percebe que aquilo é mais português. É como se o galego estivesse ali na corda bamba: ou bem que cai para o lado do espanhol, ou bem que cai para o lado do português.

Vemos o mundo com óculos nacionais

Ora, se está na corda bamba, há muitas tendências nossas que nos fazem empurrá-lo para o lado do espanhol.

Uma dessas tendências é esta: a nossa forma de ver países e línguas está muito marcada pelo nacionalismo.

Muitos dirão: «Nacionalista, eu?». Ora, pois claro. Desde pequenos que somos ensinados a olhar para o território, para a História e para a língua pela lente da nossa nação — e da mesma forma olhamos para o território, para a História e para a língua das outras nações sem duvidar do que nos disseram, desde sempre e para sempre.

Num país como Portugal, onde não se escondem outros pulsares nacionalistas, esta visão não tem grande mal. Pode ser uma visão cheia de mitos, misturados com factos e muitas emoções, mas é a base da comunidade política que somos.

Entre nós, esta visão nacional está associada à língua. Ora, olhamos para Espanha e achamos que tem de ser tão simples como nós: se é um Estado, é uma Nação. Se é uma Nação, fala uma Língua (sim, as maiúsculas são de propósito).

Ora, quando falamos das outras línguas de Espanha, ficamos sem saber o que pensar. Aliás, depois de décadas em que Espanha e Portugal transmitiam uma imagem bem simplista de si próprios, temos tendência para achar que o basco, o catalão e o galego são invenções dos últimos tempos. Ainda há uns anos ouvi quem se queixasse do «novo nome» da ilha de La Toja. Agora chamam-na de A Toxa. Que desplante! Tal como é desplante dizer que a famosa La Coruña agora é A Coruña.

Mesmo que até saibamos o que se passa, não ligamos muito. Olhamos para Espanha como uma nação mais uniforme do que o é na realidade. Desvalorizamos as diferenças entre as regiões espanholas e valorizamos aquilo que distingue Espanha, no seu conjunto, de nós mesmos (ai, o peso da História). E isto também tem impacto na forma como ouvimos as várias línguas de Espanha.

Tanto é assim que o galego, que tem uma relação íntima com a nossa língua, é posto no cesto do espanhol. Não nos convém pensar em relações mais íntimas com uma região de Espanha. Porque de Espanha nem bom vento nem bom casamento (de línguas). Não é assim?

Não gostamos que nos sujem a simplicidade do mundo: em Espanha, há espanhóis. E espanhóis falam espanhol. Para quê complicar?

A situação linguística em Portugal é anormalmente pacífica

Ora, para lá do molde bipolar que temos na cabeça, a verdade é que, em geral, os portugueses não estão atentos às questões relacionadas com o uso de várias línguas no mesmo território, seja ele Espanha ou outro país qualquer.

Afinal, Portugal é dos raros estados onde ninguém questiona o lugar da língua nacional enquanto língua oficial.

Não há debates sobre que língua deve ser usada no sistema de ensino. Não há debates sobre que língua devemos usar no sistema de justiça — e por aí fora.

Assim, os portugueses têm uma especial dificuldade em analisar situações sócio-linguísticas complexas. É-nos difícil compreender que no mesmo espaço convivam várias línguas e estamos longe de nos apercebermos das estranhas dinâmicas que essa convivência implica.

Quando vamos à Galiza e temos pessoas que falam galego ao lado de quem fala espanhol, quando temos placas e publicidade nas duas línguas, claro que ficamos baralhados e tendemos a categorizar tudo da forma mais fácil: se está em Espanha, é espanhol.


De Óscar (xindilo/fotosderianxo) - originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10784361
De Óscar (xindilo/fotosderianxo – originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0.

Dividir as línguas como dividimos os países é aquilo que podemos chamar de «simplismo confortável». Ora, estes simplismos (que aparecem em muitos sítios) são muito resistentes. Afinal, são confortáveis. Depois, o nosso cérebro repara mais naquilo que confirma aquilo que julga saber do que nas pistas que contradizem as nossas ideias. Assim, é difícil partir estes moldes bipolares onde enfiamos as línguas da Península.

Para quem se interessa por línguas, é inacreditável como muitos não vêem o que é óbvio — mas todos temos ideias simplistas sobre este ou aquele assunto. Não vale a pena cair no outro simplismo confortável de achar que o mundo se divide entre nós, espertíssimos, e os outros, muito burros. Todos nós somos mais ou menos ignorantes em assuntos que para outros são essenciais. Todos nós temos um ou outro ângulo morto e não vemos fenómenos bem visíveis para as outras pessoas.

Dito isto, gostava de ajudar a curar esta cegueira linguística que aflige mesmo quem é interessado nestas questões. Gosto de mostrar as línguas escondidas que estão mesmo ao nosso lado, a começar pelo galego.

Mas porque acho importante curar esta cegueira? Afinal, que nos interessam as confusões linguísticas dos espanhóis? Para lá da curiosidade que é sempre saudável, digo-vos isto: pelo galego passa a história da nossa língua. Ignorá-lo é ignorar muito de nós próprios.

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Marco Neves

14 comentários

Olá Marco. Assisti com muito agrado à conferência a que se refere na Xuventude da Galiza. Na generalidade estou de acordo com o que diz e lá se disse mas entendo que, se bem que a língua defina um povo, esse povo está para além da única questão linguística. É por isso que o “espanhol” é uma invenção simplista que alguns, talvez muitos, utilizam quando querem falar para as “massas”. Talvez o que falte mesmo é o conhecimento da História e a coragem para, nas alturas devidas, chamarmos as coisas pelos nomes. Sinceramente fico um pouco admirada com as considerações feitas por muitos portugueses àcerca da Galiza pois desde a instrução primária se ensinava quais os reinos da Península Ibérica e, claro, quais as línguas faladas em cada um deles. A língua oficial de Espanha é o castelhano, e na Bélgica qual é? flamengo? valão? as duas? Ignoro. Mas ser galego, acho eu, é mais do que falar galego. É a forma de estar, de sentir, de degustar, é tudo o que os aproxima de nós e a nós deles. Até breve

Cara Maria de Lourdes, ainda bem que gostou da conferência. Obrigado pelo interessante comentário! Em relação à comparação com a Bélgica, existem três línguas oficiais: o francês, o neerlandês (por lá chamado de flamengo) e o alemão, numa zona pequena encostada à Alemanha. Em relação a Espanha, a grande diferença é esta: os nossos vizinhos estabelecem claramente a primazia de uma das línguas, a que chamam frequentemente espanhol. Os belgas assumem que o francês e o neerlandês têm um estatuto igual a nível federal (o alemão tem um uso mais restrito). Até breve!

Bom dia, velaí as causas:

1) porque uma grande maioria dos portugueses padecem a mesma doença que os galleguiños: qualquer cousa que ultrapasse as froteiras estatais, já deve ser “outra coisa” … 😛

2) a. porque se o galego é falado com propriedade não vão perceber nada diferente do português, tirado dalgumas palavras que acharão “regionalismos nortenhos”

– youtube.com/watch?v=3wPC8EI4cIc

2) b. porque se o pretenso galego é falado à espanhola (com sotaque e pronuncia castelhanas) vão crer estar diante dum espanhol a tentar falar português … 🙄

– youtube.com/watch?v=kWaHFWatj4Y 😛

– youtube.com/watch?v=zJHo2OklkbA1

– youtube.com/watch?v=H-gAaVdSz1k3

3) porque, digam o que disserem, o Ñ é símbolo mundialmente associado à España e ao espanhol

– todobanderas.com/es/productos-oficiales/13889-somos-la-n.html

Conclusão: quando um galego fala galego direito vai passar completamente desapercebido para os portugueses porque estão a falar a mesma língua.

– youtube.com/watch?v=8dtRULG-cB8

Saudações!

Obrigado! O que diz não é muito diferente do que digo no artigo, mas agora com apoio multimédia 🙂

Muito interessante o que comenta… fum-me apercebendo destas causas todas… é certo que nas minhas primeiras viagens a Portugal ficava contrariado com estas atitudes, despois comprovei que nom eram tam ilógicas…. e recentemente, nos últimos anos, detectei maior informaçom a respeito do meu galego…
Obrigado e cumprimentos…

Um estado, ũa naçom e ũa língua. Com efeito, isso quereriam moitos castelãos; mais a Espanha (um estado) está formado por catro nações.
A mentalidade dos portugeses sempre é assim? O Reino Unido é um estado, mais é óbvio que está formado por catro nações. Ou os portugeses tamém aplicádelo príncipio de “um estado, ũa naçom e ũa língua” co Reino Unido? E coa Suíça? Coa Bélgica?

O autor português da Cronica dos Godos, escreveu “os galegos são estrangeiros indignos” . Isto significa que para um visigodo-português, tanto faz, galego, basco, catalão, andaluz, todos são estrangeiros indignos, assim também os mouros e berberes. Em Portugal hoje todos os descendentes de espanhóis e mouros africanos devem ir embora ou serem deportados, por serem estrangeiros indignos inimigos do povo visigodo-português. assim. LSouza

Tendo em conta que todos somos descendentes de espanhóis e mouros africanos, o país iria ficar vazio.

Porque digo isto? As contas não são muito difíceis de fazer. Já falei deste fenómeno em dois artigos:
– Somos todos descendentes de Jesus (ou se calhar não é ninguém): https://certaspalavrasnet.wpcomstaging.com/somos-todos-descendentes-de-jesus-ou-se-calhar-nao-e-ninguem/
– Somos todos descendentes de Afonso Henriques: http://24.sapo.pt/opiniao/artigos/somos-todos-descendentes-de-afonso-henriques

E, sim, também somos descendentes de galegos, bascos, etc. e tal. Os visigodos, esses, também cá passaram e seremos também descendentes deles, mas muito menos do que se julga. A sua importância na criação de Espanha e Portugal é uma espécie de mitificação medieval, muito bem desmontada no livro La ilusión del pasado, de Miguel-Anxo Murado, de que já falei algumas vezes neste blogue.

eu comento porque acho que cada pais tem a sua propria realidade linguistica , isso faz parte da historia e das conquistas, mas o facto da espanha ser quem e ou ter essa realidade linguistica nao e culpa de portugal, e nao se podem atribuir culpas aos portugueses como o autor tenta fazer, portugal em termos linguisticos tem a sua lingua lutou por ela ao longo de seculos, e e com naturalidade que ha uma lingua em portugal que todos falam e gostam de falar e que unem este espaco(deve ser assim), agora a espanha e um conjunto de nacionalidades que resultou das conquistas estupidas que madrid fez na peninsula para escravizar outros povos e tentar sobreviver. isso e a realidade espanhola muitas linguas, agora os portugueses nao sao obrigados a compreeder essa realidade. olhemos para inglaterra onde onde os seus habitantes falam ingles, mas eu sei que tem outras linguas , mas sao pessoas livres e nao ha descriminacao, toda a gente fala ingles porque querem e o estado nao descrimina outras linguas como faz o estado espanhol, lancando deste modo a revolta e a desuniao, na america e o mesmo

Não atribuo culpas aos portugueses pelo que acontece em Espanha… Apenas tento explicar por que razão não conseguimos distinguir o galego (tão próximo do português…) do espanhol. Não temos obrigação de fazer essa distinção, tal como não temos obrigação de compreender seja o que for — mas quem é curioso gosta de saber sempre mais… 🙂 Neste caso, saber mais sobre o galego ajuda-nos a saber mais sobre o português e a sua origem, o que é bom. Este blogue é escrito para isso: dar a conhecer a realidade linguística nossa e de outros países, para quem gosta de saber mais sobre línguas.

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