Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

«Porque» ou «por que»? Uma história com muitos «ques»

Antes de avançarmos sem medo para a Grande Questão do «Porque», deixem-me falar-vos do «de que».

Conta Fernando Venâncio que uma amiga sua achava ser um grande erro a construção «informar de que». O professor, com infinita paciência, lá explanou as razões por que a construção é correctíssima.

Atrevi-me a comentar que, talvez, o horror ao «de que» viesse do velho boneco da Contra-Informação que punha o mais famoso presidente de clube de futebol do país a repetir vezes sem conta a construção errada «penso eu de que». Inconscientemente, muitas pessoas podem ter começado a associar «de que» a um erro. Só que o «de que» (ai, tanto «que»!), se não deve ser usado depois de «pensar», não está errado em verbos como «informar» (leiam a explicação de Fernando Venâncio, que vos dá ainda uns cheirinhos de boa literatura que não são de deitar fora).

«porque»ou «por que»-Ora, mas o que nos trouxe aqui não foi o «de que», mas o «porque». Contei-vos a história acima para vos dizer isto: parece-me a mim que o velhinho e inocente «porque» sofreu um ataque impiedoso dos irritados da língua muito parecido ao ataque contra o «de que».

Não posso confirmar (não passa duma suposição), mas parece-me que a necessidade de corrigir construções como «porque razão» (que deve ser escrita «por que razão») levou muitas pessoas a achar que o «porque» deve ser escrito sempre em duas palavras: «por que». Ou seja, criou-se ali uma irritação inconsciente, qualquer coisa que parecia mal e servia perfeitamente para atacar o português dos outros, desporto em que muitos se esforçam todos os dias.

Resultado? Como sabemos, os paniqueiros da língua inventam sempre uma lógica qualquer muito limpinha (e, quase sempre, errada) para justificarem a irritação e a proibição que começam por aí a espalhar.

Assim, começou a ouvir-se que o advérbio interrogativo «porque», no fundo, tinha sempre implícita a palavra «razão» ou «motivo» e, por isso, não era um advérbio interrogativo, mas antes parte decepada duma expressão maior. Conclusão: o «porque» no início duma frase teria sempre de levar um espaço no meio.

Acabámos por ter de aturar insultos a quem escreve frases como «Porque existe a guerra?» ou «Porque fizeste isto?». E, quando digo insultos, não estou a exagerar.

Também neste blogue já tive quem me acusasse, num comentário a um artigo, desse terrível erro: o uso do «porque» sem espaço no meio das sílabas. Não chegou ao insulto, mas tive direito a três pontos de interrogação, para perceber bem quão ignorante sou.

Não é que as regras sobre esta questão não sejam complexas. O curioso é que os irritadíssimos acusadores dos «porques» alheios querem impor uma regra muito simplificada e errada, enquanto acusam os demais de escreverem mau português. Se for preciso, ainda acabam o discurso com uma crítica à «decadência do português» e ao «facilitismo do ensino». Ironias.

Se quiserem perceber um pouco melhor toda esta questão do «porque» ou «por que», aconselho-vos a começar pelo Ciberdúvidas: sempre está à distância dum clique. Mas, se não tiverem tempo, fiquem pelo menos com esta na cabeça: todos nós podemos usar «porque» no início duma pergunta. Não só não vem mal ao mundo, como está correctíssimo.

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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14 comentários
  • Houve grandes estudiosos da língua que defenderam “por que”, não necessariamente «paniqueiros da língua». Rodrigo de Sá Nogueira foi um deles e dava precisamente a justificação apresentada. De resto, no Brasil escreve-se separado, por alguma razão será… E não será “paniqueira”.

    • Certo, mas aquilo que critico é a certeza absoluta de que “porque”, no início da frase, é erro. No máximo, admite-se que se diga que as duas formas estão correctas. Por outro lado, se a frase começar com uma expressão do tipo “por que razão”, já não há grandes dúvidas: o “por que” é separado.

  • Eu vou pela regra brasileira, só por uma questão de lógica, chamemos-lhe assim. É que “porque” está associado mentalmente a uma resposta. Repare no exemplo que deu: “Porque existe guerra?” tanto pode ser uma pergunta (“qual é o motivo de existirem guerras?) como uma resposta (por exemplo a “por que/porque existe tanta fome em África?” – ou seja, uma hipotética justificação, ou uma de entre muitas). Na oralidade é um problema que não se põe, considerando a diferente entoação que daríamos à frase.
    Assim, se na escrita optarmos pela separação ou não do advérbio resulta claro se é uma verdadeira interrogação ou uma resposta em forma de interrogativa. Não sei se me faço entender. Sei que já fui acusada pelos nazis da gramática de escrever “à brasileira” (insultos incluídos). Vou só dar mais um exemplo : – Mãe, por que é que estou de castigo? (e na realidade usamos mais esta forma – porque é que /por que é que) – Ó filho… *porque te portaste mal? *… e já agora, por que te portaste mal? Já conheces as regras!

    • Cara Eunice, muito obrigado pelos comentários! 🙂 Por aceitar que é uma questão com muitos «ques», acabei por não incluir este texto no livro que saiu deste blogue. Mas, enfim, o que não me parece razoável são os fundamentalismos numa questão que é, no mínimo, delicada. Obrigado por aqui vir e espero que goste do blogue!

  • Estou plenamente de acordo com Marco Neves nesta questão dos “porques”. Uma interrogativa pode (e deve) ser iniciada com o advérbio “Porque”, excepto quando se seguir o termo “razão” ou “motivo”, caso em que se deverá usar a preposição “Por” e o pronome relativo invariável “que” (podendo substituir-se este pelo variável “qual”, referido a “razão” ou “motivo”).

  • c) Quando por é preposição e que é pronome interrogativo:«Por que esperas? (= por que coisa esperas?)». «Que coisa esperas?»
    Afinal o Ciberduvidas confirma que não está totalmente errada a defesa da causa, motivo implícitos…

    • Esse caso está correcto, mas é mais raro do que parece. Será usado nos casos em que temos várias opções e estamos a perguntar “por qual estamos à espera”. Agora, o que não está errado é usar “Porque esperas?”, ao contrário do que por vezes se diz.

  • No Compêndio de Gramática Portuguesa do 2º Ciclo do antigo Ensino Liceal o vocábulo “porque” só é considerado como conjunção, como advérbio só é apresentada a forma ” por que”;
    A Enciclopédia Estudo sob a direcção de Américo Leal, no Curso de Português, Questões de Gramática, Noções de Latim, não só apresenta “porque” como advérbio interrogativo, como também recomenda que não deve ser desdobrado nos seus elementos de formação (por que), mas manter-se como unidade mórfica , à imitação dos clássicos e como forma correspondente a advérbios interrogativos doutra línguas inclusive do latim: quare (lat. , formado de qua-re); porqué (espanhol); pourquoi (francês); perchè (italiano).
    Ciberduvidas : “porque” e “por que”.
    José Nunes de Figueiredo e António Gomes Ferreira: “por que”.
    Américo Leal: “porque”.

  • Lamento se alguma vez foi insultado apenas por divergências teóricas quanto à aplicação de regras gramaticais. Mas tal não impede, estou certo, que consinta em admitir e analisar opiniões divergentes, designadamente naquilo que à problemática do ‘por que’ interrogativo diz respeito.
    Permito-me, assim, manifestar-me em absoluto desacordo quanto à correção da forma ‘porque’ em frases interrogativas diretas ou indiretas, já que atribuo a degeneração da forma ‘por que’ ao facilitismo e à indiferença que grassam, de forma quase generalizada, na língua e na sociedade portuguesas, nomeadamente perante a dificuldade, que reconheço, em discernir a diferença de sentido, dada a homofonia do vocábulo e da locução.
    Não osbtante, se a comodidade e o ‘ficar bem’ se tornam motivação legítima para a subversão das regras – que, dessa forma, deixarão de servir para dizer como ‘deve ser’, passando a um mero repositório de ‘como é’ -, a gramática assumirá, meramente, um papel de registo histórico, passado e presente, deixando de fazer qualquer sentido o seu estudo visando a preservação do idioma e a clareza da comunicação.
    Desenvolvi, recentemente e de forma fundamentada, este tema em texto que tenho o gosto de o convidar a visitar em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/06/por-que-nao-porque-nao.html.
    Agradeço o tempo que dispensar a ler-me, e formulo os melhores votos para o seu reputado ‘blog’.

    • Boa tarde!

      Irei ler, com certeza.

      No entanto, em relação ao seu comentário, discordo que o uso do advérbio interrogativo «porque» seja sinal de facilitismo. Afinal, é a forma que está em muitas gramáticas e obras de referência e decorre de opção consciente de muitos autores, como é o meu caso.

      Não é mais fácil do que a forma «por que», se vir bem. Conseguir perceber a diferença entre «Por que vais?» (equivalente a «Por qual vais?») e «Porque vais?» (equivalente a «Por que razão vais») é, aliás, mais difícil do que usar sempre «Por que vais?», que me parece ser a sua opção. Também é mais difícil (e não mais fácil) saber que devemos usar «Por que razão disseste isso?», mas «Porque disseste isso?». Há um grau de distinção mais fino do que usar sempre «Por que» nas interrogações. Note ainda que, até ao século XX, não havia sequer uma regra sobre o tema. Se vir as primeiras edições das obras dos grandes escritores do século XIX (não as edições actualizadas que estão nas livrarias), verá que, neste ponto e em muitos outros, há uma grande incoerência no uso, típica da ortografia não padronizada que tínhamos (e que, infelizmente, o acordo ortográfico veio desestabilizar, de novo).

      Em suma, usar o advérbio interrogativa «porque» sem espaço é uma opção ortográfica legítima e não me parece demonstração de qualquer tipo de facilitismo. Desenvolvi o assunto muito depois de escrever este texto que estamos a comentar, no livro Gramática para Todos.

      Irei ler o seu texto.

      Obrigado pelo comentário e pelo interesse.

      Estou ao dispor!

      • A diferença que refere é, de facto subtil, embora perfeitamente percetível. Socorrendo-nos do inglês, por exemplo, teremos ‘by which way’ equivalendo àquilo que penso considerará um admissível ‘por que?’ – no sentido de ‘por qual’ – e ‘why?’ – no sentido de (‘por que razão?)’, que é o cerne da questão.
        Admito que as edições originais possam lançar alguma confusão, mas também não se espere que todos os escritores sejam rigorosos na aplicação das regras gramaticais – sobretudo hoje. As gramáticas antigas que encontrei e refiro no meu texto, em contrapartida, são unânimes na adoção da forma ‘por que?’, embora não na classificação como pronome ou advérbio.
        Obrigado pela resposta e pela disponibilidade.

Certas Palavras

Autor

Marco Neves

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