Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Porque ouvimos tantos sotaques no Parlamento britânico?

Ontem, deixei-me cair na tentação de assistir a um pouco do debate sobre o Brexit no Parlamento britânico. Desta vez, enquanto os deputados se entretinham a decidir não decidir nada, pus-me a reparar nos sotaques.

Desde o deputado galês que elogia Boris Johnson ao deputado escocês a afirmar, pela milésima vez, que os escoceses querem ficar na União Europeia, passando pelos norte-irlandeses e pelos deputados das várias regiões inglesas, a variedade linguística é impressionante.

Por cá, também aparece no Parlamento uma ou outra inflexão menos lisboeta, mas não é habitual ouvir um bom e sonoro sotaque alentejano, logo rebatido por uma voz transmontana, seguida por saborosas consoantes beirãs. Os deputados portugueses não fogem muito ao sotaque-padrão — há dias em que, linguisticamente, não se nota grande diferença entre o Parlamento e a Assembleia Municipal de Lisboa…

Porquê esta diferença nos hábitos linguísticos dos dois países?

Para compreender o festival sonoro no Parlamento britânico, temos de nos lembrar de três factos.

Em primeiro lugar, o sotaque britânico mais conhecido — a Received Pronunciation, o sotaque que associamos à rainha — é típico de uma franja muito limitada da população do Sul de Inglaterra. Quando saímos da Inglaterra dos palácios — ou da Inglaterra muito snob que imaginamos por cá —, encontramos uma tremenda variedade linguística, ainda maior se considerarmos as outras nações que compõem o Reino Unido.

Depois, se é verdade que esse sotaque tem um prestígio que ultrapassa as próprias fronteiras do país, esse prestígio é contrabalançado pelo prestígio dos outros sotaques nas regiões em que são falados. É aquilo a que os sociolinguistas chamam prestígio encoberto. Um trabalhador de Liverpool seria impiedosamente gozado se tentasse falar como a rainha. Um professor de Manchester não sente necessidade de imitar um londrino. Um político escocês usa sem medo e sem pedir desculpa o sotaque escocês.

Ora, este prestígio encoberto (um fenómeno de todas as línguas) alia-se, no Reino Unido, a outro facto: ao contrário do que acontece por cá, os deputados britânicos são eleitos de forma individual e representam, antes de mais, os eleitores do seu círculo — e só depois o partido. Um deputado, quando discursa, está a falar para os colegas, mas a pensar nos seus eleitores, que sabem bem quem os representa. Não há nenhum incentivo para imitar sotaques: cada um fala como costuma e os eleitores não só não se importam, como estranhariam se fosse doutra maneira.

Para lá do Parlamento, é hoje possível ouvir uma maior variedade de sotaques na própria BBC — estamos já bem longe do tempo em que BBC English era sinónimo de Queen’s English. Note-se que todos estes sotaques são apenas isso: sotaques. Em geral, os deputados e os locutores da BBC usam o inglês-padrão no que toca à gramática e ao vocabulário (já na rua, a história é ainda mais complicada e interessante).

Ouvir todos estes sotaques no palco mais importante da política britânica ajuda-nos a perceber como o prestígio não está associado a uma maior qualidade linguística. Há grandes oradores no Parlamento britânico, muitos deles com sotaques que nós, pouco habituados a ouvir outros sons do inglês, temos dificuldade em compreender. Não: falar como se fala na nossa terra não é um problema — sei que isto parece óbvio para muitos, mas ainda é comum encontrar quem ache que falar bem é falar como na capital (seja ela qual for). Em Inglaterra, aliás, falar como na capital não é garantia de nada — há londrinos com vogais bem distintas das vogais da rainha.

A existência de tanta variedade é também prova (entre tantas) que a língua é mais do que um instrumento de comunicação: é também, de forma mais ou menos consciente, a expressão sonora da identidade de cada um — e, por trás das maneiras diferentes de falar, escondem-se histórias bem mais interessantes do que pensamos. No que toca ao inglês, poucos as contam tão bem como David Crystal — recomendo, para começar, o livro The Stories of English. Ficamos a perceber como o inglês é um bicho muito atrevido — e a nossa língua, já agora, não lhe fica atrás.

(Crónica no Sapo 24.)

Quando publiquei este texto no Facebook, recebi este esclarecedor comentário de Severino Galante, que reproduzo aqui com autorização do autor. É uma oportunidade para os leitores portugueses lerem um pouco de galego.

Eu acrescentaria a importância da loita de classes no assunto. A Received Pronunciation é um sociolecto elitista, como o alcume “inglês da Rainha” testemunha. Após a uniom de parlamentos, a elite escocesa tomava aulas de pronunciaçom “correcta”, isto é “inglesa”, mas inglesa das elites, por suposto. Ainda hoje, o sotaque dum barom de Edimburgo é mais semelhante ao dum barom inglês cà o dum operário da sua mesma cidade.

A democratizaçom provocada polo liberalismo, co ascenso social de pessoas de estratos baixos, coma os Beatles, popularizou sotaques “inferiores”, coma o scouse de Liverpool. Mas é só a loita de classes que, para além da popularizaçom, reivindicou a validez e dignidade dos diferentes falares populares, mais alá de serem simples “notas de cor” e/ou objecto de escárnio pola sua “incorrecçom”. No RU, este processo foi ajudado polo carácter plurinacional do estado, no que o sentimento nacional ajudou a reivindicar os jeitos particulares de falar em Escócia e Gales e, paralelamente e por imitaçom, das regiões inglesas.

Estes 2 processos paralelos e complementares, de reivindicaçom nacional e de classe, foi a que levou a dignificar socialmente tanto o cockney londinense coma o glaswegian e permitiu a sua presença, relativamente recente ainda, nos meios e mais concretamente na BBC (lembremos que a RP também é/era conhecido como “inglês da BBC”).

Em Portugal a infraestructura estatal segue, pola contra, o modelo francês, no que nom só hai um único idioma oficial, o francês, senom mesmo uma soa forma de o falar bem, sendo todo o resto (mesmo outros dialectos d’oil) “patois”. Ao seguir este modelo francês, onde o único jeito de “falar bem” é o sociolecto (elitista) dum dialecto (lisboeta) , o português de Portugal está a decimar a sua variedade e, ao tempo, derrubando as pontes lingüísticas coa Galiza, ao aniquilar (por ridiculizaçom, principalmente) as falas populares do norte de Portugal.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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1 comentário
  • Ver também o que diz o autor do livro Bifes mal passados: passeios e outras catástrofes por terras de sua majestade
    Livro por João Magueijo no qual refere que se fores estrangeiro no UK fala inglês como um estrangeiro ou serás gozado se tentares imitar qualquer outra pronúncia de lá.

    Claro está que esta diferença de sotaques faz com que sejas logo discriminado não por seres branco, amarelo ou preto, mas lot abrires a boca para falar o quer que seja.

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