Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Qual é a origem de «luva»? E «máscara»?

Já que têm ocupado parte da nossa atenção por estes dias e agora não podemos viajar mesmo a sério, lembrei-me de olhar para as palavras «luva» e «máscara» e partir de viagem ao passado.

Qual é a origem de «luva»?

Comecemos pelas luvas. É uma palavra que partilhamos com os galegos e que tem uma curiosa origem pouco latina. Vem do gótico, a língua dos Visigodos. Nessa língua, «lofa» (ou «𐌻𐍉𐍆𐌰») significava «palma da mão» — daí à nossa «luva» foi um saltinho.

Das actuais línguas germânicas (inglês, alemão, sueco, etc.), nenhuma descende da antiga língua dos Visigodos. Ao contrário do latim, que não morreu, mas transformou-se, o gótico é uma língua realmente morta. Morreu como? De várias maneiras. Uma delas foi a vontade que os Visigodos revelaram de aprender o latim que veio dar origem às nossas línguas. Curiosamente, depois de desaparecer por cá, o gótico sobreviveu muitos séculos no outro lado da Europa: na Crimeia.

Enfim, o gótico morreu, mas deixou vestígios: há textos escritos, que podemos traduzir, há palavras que ficaram nas línguas ibéricas, como a nossa «luva» — e, curiosamente, há quem goste tanto desta língua que até criou uma Wikipédia em gótico! Difícil seria explicar a um visigodo o que é a Wikipédia…

Ora, quando falamos da origem das palavras, convém sempre dizer: chegamos até determinado ponto no passado, mas quase sempre a palavra não começou aí. A palavra «luva» tem uma origem ainda mais remota em «*lōfô» (o asterisco indica que é uma palavra reconstruída, neste caso do proto-germânico), que significava «palma da mão», tal como em gótico. Ainda hoje encontramos palavras que dela descendem em línguas como o islandês, onde «lófi» significa, enfim, «palma da mão» — ou o inglês, em «glove», que significa (quem diria) «luva».

O português é composto de muitos ingredientes, misturados na massa latina. Quando usamos a palavra «luva», estamos a revelar vestígios de guerras e migrações que aconteceram há mais de 1000 anos — e encontramos velhas ligações perdidas com o islandês…

Qual é a origem de «máscara»?

Ora, quanto às famosas máscaras… A palavra chegou ao português vinda de uma língua bem mais famosa que o desaparecido gótico: veio do italiano — mais concretamente, da palavra «maschera» (já agora, aquele «che» italiano lê-se como o nosso «quê»). A palavra italiana, a cavalo do francês, espalhou-se pela Europa e hoje aparece em muitas línguas, incluindo o inglês («mask»), o polaco («maska») — e muitas, muitas outras.

Poderíamos continuar a tentar escavar a origem dessa palavra, mas não há grandes certezas: terá vindo do latim medieval ou mesmo do árabe. Como a viagem parece estar a chegar a um beco sem saída, dou um salto: como se dizia «máscara» em latim?

Dizia-se «persona». Sim, a avó da nossa «pessoa» era a palavra latina que significava «máscara». As máscaras que os actores usavam no teatro davam identidade às personagens (repare bem na palavra) e daí até ao significado de «ser humano com identidade social» ou «ser com direitos e deveres» foi um saltinho. Enfim, um saltinho que ocupou filósofos e pensadores durante séculos.

Às vezes, as palavras mantêm o significado por milénios. Outras vezes, dão pequenos (ou grandes saltos) — a nossa «luva» não só passou da palma da mão para a peça de vestuário, como agora também quer dizer «suborno»; a «persona» latina saltou da máscara para a própria pessoa que a usa. Dão saltos e ainda viajam de língua em língua sem pedir autorização. E sempre nos ajudam a passear um pouco sem sair de casa.

(Crónica no Sapo 24. Obrigado a Luciano Eduardo de Oliveira pela referência à palavra inglesa «glove».)

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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7 comentários
  • Sendo que luva é comum aos galegos e portugueses. O normal é que veio do suevo e não do gótico, porque o reino suevo sim nos é comum, e no resto da Espanha “visigótica” é chamada de guante.

  • A palavra luva nom virá máis ben dos suevos ?. Tendo em conta que, como bem explicas, a palavra é partilhada por galegos e portugueses, e uns e outros partilhamos tamém o Reino Suevo. Os Visigodos asentaram-se fundamentalmente na Catalunha e em Toledo e finalmente chegaram a controlar quase toda a Península. Porqué a palavra é desconhecida do resto dela?. Semelha que suevos e visigodos falavam um germánico extremadamente próximo.

  • Ñ me choca a ideia do suevo. Mas, suevos e visigodos cruzaram-se, naturalmente….ou ñ? Fontes?

  • Eu sabia do gótico que havia preciosos livros religiosos naquela língua, ilustrados e escritos no seu próprio alfabeto. E viajavam com esses livros pola Europa toda.
    Mas quando eles chegaram e decidiram deixar o arrianismo, juntaram todos esses livros numa casa, e queimaram-na. Dessa maneira o lume consumiu os documentos mais importantes da cultura e da língua gótica, os poucos que foram salvos constituem um valioso tesouro.

    Saber que partilhamos uma palavra dessa origem maravilha-me. Obrigado, caro Marco, por regalar-nos esta descoberta.

  • Ótimo como sempre. Ao discutir religião, o mistério trinitário ficou mais claro para mim quando soube que pessoa era a máscara que interpretava um personagem. Assim as três Pessoas seriam faces de uma única divindade. Muito mais fácil do que pensar em pessoa como Fulano, Ciclano e Beltrano.
    O significado de luva como suborno não existe no Brasil, e, olha que suborno existe aqui desde sempre. Mas existe uma acepção próxima, já caindo em desuso. Quando nos anos 40/50, decidia-se alugar uma casa ou uma loja, a procura era maior que a oferta e sobre o aluguel incidia-se uma luva. É p, ou era, usada ainda na transação Entre clubes na compra e venda de jogadores. E, pode até não ser ético, mas não me parece ser ilegal.

  • “Persona” para mascara pode ter derivado do latim “per suonare” (“para se fazer ouvir”), pois que as mascaras que se usavam no palco possuiam um pequeno megafone.

  • Um artigo interessante . Agora vejo com outros olhos, os equipamentos de proteção individual que no trabalho tenho que usar. :). Sem dúvida que agora o meu sorriso está no meu olhar :).

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