Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Qual é a origem da língua portuguesa?

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O leitor Paulo Vieira enviou-me esta mensagem:

Ouvi-o na Prova Oral afirmar que a nossa língua vem do galego e estava agora a ler uma notícia do Público sobre os Lusíadas, a que fez referência no artigo da língua bastarda, e nessa notícia é dito que a obra tem uma forte influência do castelhano, língua que aparentemente era muito usada na corte.

Fiquei interessado e gostava de esclarecer quais as origens da nossa língua. Recomenda algum livro sobre o tema?

No final deste artigo, deixo algumas sugestões de leitura.

Mas antes, porque esta compulsão para escrever parece não ter cura, vou tentar explicar aquilo que sei (ou penso saber). Mas tenho de avisar: não sou linguista histórico. Sou um tradutor e professor que estuda linguística por motivos práticos e junta a isso uma paixão pela disciplina.

Pois bem: a verdade é que gosto muito da história da língua — e julgo ser este um tema que nos interessa a todos. Com base no que fui aprendendo ao longo dos anos, mas também com base na leitura dos livros e artigos que refiro no final, aqui fica o meu resumo (os erros, claro, serão meus e não dos livros e artigos — ressalve-se!).

O português vem do galego?

Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

Gallaecia
A Galécia romana. A nossa língua terá nascido no triângulo que corresponde, de forma muito pouco rigorosa, à metade noroeste do território a verde.

O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhe linguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.

Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara.

O país expandiu-se para sul e, com ele, veio a língua, claro. O português nasceu nesse canto noroeste e expandiu-se até ao Algarve (e, mais tarde, até além-mar). Por alturas de D. Dinis era já a língua oficial.

Depois, no final do século XIV, temos revoluções, a batalha de Aljubarrota… — a nobreza nortenha perde influência, a burguesia lisboeta alça-se à posição de classe dominante (e tudo o mais que faz parte da História). Lisboa é agora a capital e a nação esquece-se que a língua veio do norte, não foi criada em todo o território nacional. O que se falava em Lisboa seria esse galego-português que viera para sul com a Reconquista. Houve, claro, algumas intrusões do moçárabe, a linguagem latina do sul (com muitos arabismos). Mas, nas suas estruturas e características principais, a língua que Portugal assumiu como sua é a língua criada na Galécia: não houve um ponto em que o galego e o português se tivessem separado claramente.

Influências castelhanas no português literário

Não houve um ponto em que o galego e o português se separassem claramente. Mas há, isso sim, algum afastamento da língua padrão em relação ao que se fala mais a norte. Muito desse afastamento fez-se também por causa das influências externas. Com a corte em Lisboa, e durante muitos séculos (na época de Camões, por exemplo), o castelhano teve uma influência que hoje poucos imaginam. Os escritores portugueses também escreviam, muitos deles, em castelhano. Liam em castelhano. A igreja usava muito o castelhano. A corte também usava o castelhano. Era a língua de prestígio. As misturas eram inevitáveis…

Ora, o português popular de todo o país não sofreu estas influências de forma tão marcada. Assim, arrisco-me a dizer que o português popular manteve durante mais tempo uma maior grau de semelhança com o galego do que o português-padrão — talvez por não ter tanta influência castelhana. Principalmente no Norte, o português e o galego mantiveram-se tão próximos que a fronteira era difícil de traçar. Mais a sul, na Corte, na capital, a língua “desgaleguizava-se” (ver artigos de Fernando Venâncio citados abaixo). Para as elites lisboetas, o galego e o português do Norte começaram a soar a português da província. E, no entanto, era de lá que tinha vindo a língua…

Depois, o castelhano deixou de ser uma influência forte no português (aí por volta do século XVIII); vieram então as influências francesas e, já bem entrado o século XX, começamos a olhar para o inglês.

Sim, sempre fomos uma língua que sofreu influências fortes de outras culturas. Podemos não gostar do facto, mas é isso mesmo: um facto. Não fiquem horrorizados: o castelhano também teve vagas dessas, o francês idem — então o inglês nem se fala. Não percam muitas horas de sono com isso — e, depois, a língua vai atrás da cultura, neste ponto: se quisermos uma língua pura, temos de fechar a cultura a influências exteriores. As línguas mais puras são as mais isoladas, as menos importantes.

Para terminar este resumo muito resumido, diga-se que o português-padrão se expandiu de forma fenomenal durante o século XX, com a escola, a televisão, a rádio, a imprensa. Aí, as formas do sul começaram a suplantar as outras formas, que subsistem, mas com menos força. O português começou a tornar-se mais homogéneo (e menos nortenho/galego) — mas tudo isto já é história das últimas décadas…

E o galego?

Bem, quanto ao galego, lá em cima, num país sem corte, uma sociedade rural, não sofreu tanta influência castelhana até muito tarde, embora essa aparente pureza seja apenas reflexo do isolamento da sociedade. Grande parte da população galega, aliás, só terá começado a sentir a invasão da sua língua pelo castelhano quando a escolaridade obrigatória apareceu no horizonte — e a televisão, jornais, etc. Ou seja, para muitos galegos, o castelhano tornou-se influência no século XX (nas elites terá sido antes, claro). Apesar de tardia, a influência do espanhol é avassaladora, claro está. Aliás, chamar-lhe influência será um eufemismo cruel. O espanhol não influenciou o galego: o espanhol começou a substituir o galego. Afinal, o Estado é o espanhol e a escolaridade da população foi em castelhano até muito tarde. Ou seja, nos séculos XIX e XX, o galego levou uma coça de que ainda não se levantou, apesar de, desde os anos 70, o governo autónomo ter, oficialmente, uma política de defesa da língua.

Alguns galegos tentam aproximar a sua língua do português para assim melhor se defenderem do peso do castelhano; outros apostam num galego autónomo tanto do castelhano como do português. Mas que o galego e o português ainda estão mais próximos do que imaginamos, isso é indesmentível: então quando começamos a olhar para o vocabulário popular, aquele que muitos desprezam injustamente, começamos a ver como falamos uma língua que não deixa de ser muito galega.

Em resumo…

… o português tem origem no latim popular falado no noroeste da Península, na Galécia Magna, língua essa a que podemos chamar galego por ser uma língua da zona do Reino da Galiza, uma língua já com características muito próprias séculos antes da existência de Portugal. Ao tornar-se a língua dum estado independente a sul, chamado Portugal, a língua passou a chamar-se português — e com esse nome foi transplantada para os outros países que a falam. Apesar das mudanças a sul, a língua mantém uma forte proximidade com o que se fala a norte da fronteira. Essa língua portuguesa, como é típico duma língua dum país de cultura aberta a outros povos, sofreu grandes influências exteriores: do castelhano, do francês, do inglês… Até hoje. Também nos dias de hoje as formas mais padronizadas do português começam a suplantar as formas mais populares entre a população em geral — enquanto na Galiza, o castelhano avança.

Isto é uma explicação simplificada, claro está. É ainda a minha forma de o explicar: outros dariam ênfases a outras partes ou acrescentariam pontos talvez importantes… Se alguém quiser corrigir, matizar, completar, os comentários estão abertos!

(Proponho ainda que dê uma vista de olhos pelas histórias romanceadas que escrevi e que tentam dar uma ideia do que foi o percurso do idioma nesses primeiros séculos: «História Secreta da Língua Portuguesa».)

Bem, mas a pergunta era outra: que livros de especialistas podemos ler sobre o assunto?

Proponho dois livros breves, recentes, sobre a História da língua:

  • Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
  • História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).

Proponho também três artigos de Fernando Venâncio sobre o assunto (convém dizer que as aulas que o autor deu na FCSH, este ano, permitiram-me aprender muito sobre as origens da língua):

Adenda em Outubro de 2019: os artigos de Fernando Venâncio que referi acima foram uma amostra das investigações do linguista no que toca à origem da língua. Em 2019, publicou o livro Assim Nasceu Uma Língua, um percurso interessantíssimo pelas origens do português. Fica como sugestão para quem quiser saber mais sobre a pergunta do título.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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50 comentários
  • Caro Marco,

    A última ligação não está a funcionar. Ao tentar visitá-la da um erro 404. Sabe se podo encontrar esse artigo em um outro sítio?

    Muito obrigado,

  • Uma explicação magnifica e para além de tudo,cheia de uma lógica que a própria História não pode contestar.Apreciei muito.
    A propósito devo dizer-lhe que adquiri o seu livro e já o li com muito interesse,Um livro notável, que recomendo vivamente.
    Cumprimentos
    José Júlio da Costa-Pereira

  • Sempre a dar no alvo. Claro e conciso, o amigo Marco Neves é capaz, de maneira quase cirúrgica, de extrair os elementos (vocábulos, construções, etc.), já forem espúrios, já mal acomodados, para assim deitar luz sobre o que é bom e menos bom, sobre o que convém ou não convém à língua. Além do mais, essas boas explicações a respeito do galego, que tanto bem nos faz aquém e além Minho. Seja como for, uma delícia poder lê-lo e aprender com ele. Se puderem, não percam.

  • Olá!
    Pergunta: Onde é que fica o mirandês no meio disto tudo?
    Só pergunto isto por ser a segunda língua oficial.
    Obrigado!

    • Segunda língua oficial? Se de verdade fosse a segunda língua oficial, porque apenas se leciona em Miranda do Douro; em vez d´ensinar-se em toda Portugal.
      Apenas á vantagens: Os portugueses seriam todos bilingues (cos benefícios que isso tem prá saúde e o cérebro umão), aprenderiam ũa língua próxima do galego (ou português, que cada ũu lhe chame como quiger) e assim respeitariam tôdalas línguas faladas no seu território.

      Por que inda nom se fez?

    • A única língua oficial de Portugal é o “português” (parágrafo 3 do artigo 11.° da Constituição da República Portuguesa). O “mirandês” e a “língua gestual” são, sim, línguas reconhecidas e protegidas: o mirandês, no concelho de Miranda do Douro (Lei n.º 7/99, de 29 de janeiro de 1999), e a língua gestual portuguesa (Artigo 74.º, parágrafo 2, alínea h), da Constituição da República Portuguesa — revisão de 1997).

  • Fiquei abraiada coa súa explicación tan erudita. Descoñecía que o Portugués descendía do Galego, eu pensaba que era o contrario. Disfruteí coa resumida historia do idioma galego-portugués. Noraboa moitas gracias.

  • Tomei conhecimento pela primeira vez acerca da origem da nossa língua, há uns 28 ou 29 anos atrás através de uma professora de língua portuguesa no ensino secundário. Desde aí, essa paixão pelo decorrer da história que é impossível de desligar da evolução do nosso idioma, nunca mais me largou, e, pese embora o facto de não ter seguido letras, o gosto pelas letras sempre esteve aqui num cantinho muito especial.
    Não é a primeira vez que leio aqui neste blogue acerca da história e evolução da língua portuguesa e da sua inseparável ligação ao galego, mas digo que é sempre um prazer ler “de novo” e alargar ainda mais os horizontes neste ‘pequeno ‘ detalhe da nossa língua.
    Fantástico.
    Obrigado.

  • Não posso deixar de discordar. O português é uma língua viva com vocábulos deixados pelos Celtas ou mais tarde pelos Árabes isto para não ser exaustivo.
    A linguística só através da História da Língua é que nos dá conta dos fenómenos que ocorreram para falarmos e escrevermos como é usual e corriqueiro.
    O riquíssimo vocabulário português vem na sua esmagadora maioria do latim vulgar e do latim erudito, transportar isto para o galego como origem da língua portuguesa é um erro crasso.
    Mas e a poesia galaico-portuguesa, aqui nulha res, não significa que não seja uma língua novi-latina também.
    É indefensável o contrário, é como afirmar a Noam Chomsky que a linguagem é nata, ou seja, fruto de aprendizagem.
    Sejamos sérios e que não se brinque com coisas a sério.

    • Obrigado pelo comentário! Não percebi com o que não concorda. Afinal, digo no texto que o português é uma língua neolatina que surgiu do latim popular falado no noroeste da Península. Isto é o que se sabe hoje e ninguém tem dúvidas sobre isso. O português e o galego actuais surgiram dessa língua falada nas ruas da Galécia. Chamar-lhe “galego” ou não é uma preferência actual, já que a população da altura (antes da independência portuguesa) chamava ao que falava “linguagem”, tanto a norte como a sul do Minho. O que os primeiros reis fizeram foi pegar nessa língua da rua e torná-la oficial com o nome de português. Não vejo nada que vá contra aquilo que me diz: claro que esta língua de origem latina tem vocábulos celtas, e árabes, e godos, e castelhanos, e franceses e por aí fora. Já agora, proponho que leia: https://certaspalavrasnet.wpcomstaging.com/historia-secreta-da-lingua-portuguesa-1/.

  • Para expresarme con más propiedad, permítanme escribir en castellano porque fue la lengua que, aunque “galego”, tuve que mamar, obligatoriamente, desde que nací.
    Galego y Portugués, fueron durante siglos una lengua sustrato y soporte de una cultura común y, por tanto, única y la misma.
    Ni siquiera eran hermanas o derivadas la una de la otra pues así eran denominadas como Galaico-Portugués, inmortalizado en los Cancioneros Medievales: “Cancionero de Amor”, “Cancionero de Amigo”, y Cancionero de Escarnio y Maldecir”.
    Fueron una sola y la misma.
    A discutir y/o teorizar es: sobre el perímetro, los límites, así como, posteriormente, cronologías y causas de su separación y persistencia como lenguas diversas y separadas

  • Excelente exposição.
    Sou testemunha das flagrantes semelhanças entre o Português e o Galego, ao qual também costumo chamar “Português da Galiza”.

  • Adorei o artigo. Porém, em que sentido o português sofreu influências do castelhano ou espanhol? Por exemplo, gramaticalmente, o espanhol decreta que se use o trema na letra “u” (ü, Ü), diante do grupo “gue” e “gui”: “GÜE”, “GÜI”; para diferenciar-se do mesmo digrama no qual a letra “U” é muda. Por que o português Europeu não adopta/adoptou a mesma regra diacrítica em ambos os digramas precedidos das letras G (GÜE, GÜI) e Q (QUE, QUI; QÜE, QÜI)? Alguns portugueses chegam ao ponto de discriminar o Português Americano, dizendo que este é emparentado com o Castelhano, por esta regra que antes do maldito AO90 possuía. Por qual razão a diérese foi abandonada por Portugal em 1945, e muitos portugueses tomam este ano como referência para citar a ortografia desta data como normal?

  • Tudo perfeito na explicaçao da origem da lingua portuguesa,mas faltou tambem falar sobre o asturo-leones,lingua que teve muita influencia no nordeste portugues,tendo sobrevivido o que restou dela no planalto de miranda do douro e planalto entre quintanillha,viomiso e mogadouro e a regiao fronteiriça de zamora,havendo desaparecido no resto de tras os montes ficando algumas manifestaçoes culturais e linguisticas que enriqueceram a nossa lingua,para alem do castelhano e do arabe,tendo perdido a identidade da lingua original que era o Galaico-Português.Nao so as linguas faladas na galaecia famosa tinha origem latina,na peninsula tinham e tem todas excepto o Vasco e na europa o frances

    • LINGUAS LATINAS NA EUROPA: catalán, italiano, rumano, galego-portugués, asturiano-leonés, castellano ou español, aragonés, catalán, francés, franco-provenzal, romanche, friulano, ladino, occitano-gascón-aranés, ligur, piamontés, lombardo, emiliano-romañolo, véneto, italiano estándar, romanesco, napolitano, siciliano, corso-gallurés, rumano estándar, meglenorrumano, istrorrumano, sardo, antiguo corso, dálmata, mozárabe.

  • Ficou moi pequeninha a Galaecia nese mapa. Apontar que esta foi ocupada pelos Suevos, que fundaron o primeiro reino xermánico europeu no territorio, ainda existindo o Imperio Romano. Trala invasión musulmana da lugar ao Reino de Galicia, que perdurará ata Alfonso VI de León, avó do primeiro rei de Portugal, quen tras conquistar Toledo se intitula; “Rex Galaecia et tuta Hispania”
    Vese que o primeiro titulo era moi importante no século XI. Ata esa data, e perante os mil anos anteriores funmos, os que hoxe somos galegos e os portugueses do Norte, unha entidade común xeográfica, social, politica e linguistica. Bo artigo. Patabéns

  • Parabéns, mais uma vez, pela explicação sucinta, mas honesta, do prezado professor Marco Neves. É assim mesmo que ocorreu a passagem do romance para o galego-português, no noroeste da Península Itálica. A aplicação do termo “linguagem” está perfeita, pois acrescentaria: a linguagem seria o romance ou romanço já bem localizado naquelas regiões, aqui referidas, da Galécia. Se o senhor professor Marcos Neves permitir, gostaria de recomendar a obra HISTÓRIA DO GALEGO-PORTUGUÊS: Estudo linguístico da Galiza e do Noroeste de Portugal desde o século XIII ao século XVI (Com referência à situação do galego moderno), de CLARINDA DE AZEVEDO MAIA. INSTITUTO NACIONAL DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA, Coimbra, 1986.
    Integra a Coleção LINGUÍSTICA – 9.

  • Formidable escrito. Noraboa, Marco Neves! Leo con atención os teus artigos, e sempre encontro cousas interesantídismas, e recoméndoas a amigos galegos, portugueses…, a tantos amigos amantes da cultura portuguesa
    José Escudero (tradutor de galego, afincado en Segovia)

  • Portanto, os galegos acordaram num belo dia de sol e inventaram uma língua? Assim do nada? As línguas não são compartimentos estanques nem se formam como o chocapic. Puff, fez-se a língua! Que falta de noção. De facto, não há limites para o disparate. Quem é que falou em galego ou escreveu numa pretensa língua galega antes de existir a língua portuguesa? A poesia trovadoresca era basicamente latim, já diferente do latim de outras partes da península mas não era uma língua. Esse português medieval ou galego-português é uma proto-língua ou etapa de formação da língua portuguesa, que vem a evoluir desde as falas pré-romanas. O português resulta do cruzamento entre o latim vulgar (mais tarde Romance) com o lusitano falados pelos povos lusitanos, entre os quais se incluem os galaicos, da faixa atlântica da Península Ibérica. Esse linguajar lusitano mesclado com o latim dos romanos foi de uma forma geral respeitado por todos os povos que ocuparam a faixa atlântica da Península (suevos, visigodos, mouros). Dizer que o português vem do galego é de bradar aos céus . É tipo agora dizer que o holandês vem do francês porque a língua surge na zona habitada pelos francos a oeste do rio Reno. Então na Galiza e no Condado Portucalense não se falava o latim que vinha a evoluir desde séculos e séculos antes? O que é que faz com que o latim vulgar seja diferente do de outras partes da Península? É o LUSITANO que altera esse latim logo na fase inicial de desenvolvimento do latim do noroeste peninsular! No século X havia vestígios claros da língua lusitana onde estava o (se, o Condado de Coimbra e a norte do Minho. O português vem do LATIM VULGAR misturado com o lusitano. Os calaicos eram mercenários de guerra do herói lusitano Viriato e falavam lusitano, depois passaram a falar lusitano misturado com latim até surgir a língua portuguesa no Reino de Portugal. Se a Galiza tivesse (como devia) continuado dentro da civilização atlântica da Península Ibérica, hoje seria parte de Portugal, que é a força que emerge desse extremo ocidental lusitano. Os galegos são lusófonos e hoje em dia só existe língua galega porque os castelhanos pegaram no Português e corromperam-no, castelhanizando-o, o que fez do galego uma língua espúria.

    • O que me está a dizer não é assim tão diferente do que está no texto, se fizesse o favor de o ler com atenção (o que chama lusitano terá de ser considerado de forma mais abrangente como língua pré-românicas, que não se conhecem com precisão suficiente para lhes darmos um nome). É claro que os galegos não criaram nenhuma língua a partir do nada — alguém afirmou isso? Já a língua dos trovadores não é uma proto-língua — era o estado da língua à época, já a caminhar para outra coisa, tal como hoje também caminhamos para aquilo que há-de ser a língua falada daqui a uns séculos. Nunca houve um momento em que se dissesse: pronto, o português está feito. Como disse — e bem — as línguas não surgem do nada. Estão sempre a mudar…

    • Mais ainda non existia Portugal e xa existia o reino da Galiza, dende o seculo V ate o ano 1833,o primeiro reino europeo conocido polos cronistas arabes, francos, normandos, saxons, navarros, peninsulares e vaticanos era o reino da Galiza e a lingua que se falaba no reino era o galego, porque os seus reises o falaban. Afonso Enriques o primeiro rei portugues naceu galego e morreu portugues.
      Xa o papa nº 45 da igrexa catolica Leao I (ese que se xuntou con Atila no ano 450) nunha epistola dirixida ao bispo de Asturica Augusta, nomea ao “Regno Gallaeciae “.
      esa e unha das multiples referencias ao reino da Galiza.
      Saude.

  • Unha cantiga do seculo XIII de Bernal de Bonaval:
    https://www.youtube.com/watch?v=W_EbtGyylHg

    A dona que eu am’ e tenho por senhor
    amostrade-mh-a, Deus, se vos em prazer for,
    se non dade-mh-a morte.
    A que tenh’eu por lume d’estes olhos meus
    e por que choran sempr’ , amostrade-mh-a Deus,
    se non dade-mh-a morte.
    Essa que vós fezestes melhor parecer
    de quantas sey, ay Deus!,
    fazede-mh-a veer, se non dade-mh-a morte.
    Ai, Deus! qui mh-a fezestes mays ca mim amar,
    mostrade-mh-a u possa com ela falar,
    se nom dade-mi-a morte.

    Saude.

  • Outra cantiga do troveiro galego Pero Meogo do seculo XIII:
    Vai lavar cabelos, na fontana fría,
    passou seu amigo, que lhe ben quería,
    leda dos amores, dos amores leda.
    Vai lavar cabelos, na fría fontana,
    passa seu amigo, que a muit’amava,
    leda dos amores, dos amores leda.
    Passa seu amigo, que lhi ben quería,
    o cervo do monte a augua volvía,
    leda dos amores, dos amores leda.
    Passa seu amigo, que a muit’amava,
    o cervo do monte volvía a augua,
    leda dos amores, dos amores leda.

  • Outra cantiga do seculo XIII tamen de Pero Meogo:

    Enas verdes hervas,
    vi anda-las cervas,
    meu amigo.

    Enos verdes prados,
    vi os cervos bravos,
    meu amigo.

    E con sabor delas
    lavei mias garcetas,
    meu amigo.

    E con sabor d’elos
    lavei meus cabelos,
    meu amigo.

    Des que los lavei,
    d’ouro los liei,
    meu amigo.

    Des que las lavara,
    d’ouro las liara,
    meu amigo.

    D’ouro los liei
    e vos asperei,
    meu amigo.

    D’ouro las liara
    e vos asperara,
    meu amigo.

  • Sou galego, falo castelán normalmente, desenvolvome en galego tamen sen problema, nunca aprendin portugués. pero podo leer este blog ou libros en portugués sen ningunha dificultade, case coma se fose miña lingua materna. Unha vez te fas coa grafía diferente e con algún que outro xiro lingüistico propio do portugués, e moi sinxelo. Non será a mesma lingua, pero e moi parecida. Outra cousa xa é o falalo e entendelo co seu seseo característico, eu teño que afinalo oido moito e prestar atención para non perder o fio… e canto mais cara o sur mais complicado.

  • LOOL pepe martelo e outros, para já a Galiza nunca foi uma entidade política independente em pleno. Esse Reino de que falas começou por ser o reino dos Suevos. Ora, a haver alguma língua com individualidade própria só se fosse uma língua germânica dada a origem dos colonizadores suevos e mais tarde visigodos. Sabendo nós que nem uns nem outros impuseram as suas línguas, o que se falava nesse noroeste peninsuloar era o que se falava em toda a faixa atlântica e mesmo bem mais acima e mais dentro da península (partes de Leão, Astúrias e Extremadura) – latim + lusitano (e outras línguas menores pré-Roma). Esta combinação vai evoluindo ao longo de séculos e o que aparece no noroeste peninsular é o que também existia mais a sul e em partes mais a leste – romance ibero-ocidental. Simplesmente a Galiza foi recapturada pelos cristãos mais cedo porque estava mais acima no mapa. Se os cristãos da Reconquista tivessem iniciado o seu percurso de reconquista do ocidente peninsular por outra zona, teriam encontrado o mesmíssimo linguajar. Porque a própria Galiza esteve sob domínio muçulamno e o que falava durante o período árabe era exatamente o que falava quando foi “libertada”. Por isso, o argumento de que a língua se desenvolve na Galécia e era diferente da existente mais a sul dada a fronteira para o território controlado pelos árabes é FALSO. O que se foi falando em todo o flanco ocidental peninsular foi a mesma coisa e começa muito antes quando se dá o cruzamento entre o latim e o lusitano bem como outras línguas menores faladas no período pré-Roma. Como as línguas são organismos evolutivos e não se criam de um momento para o outro, está fácil de entender que o dialeto encontrado na Galécia, Condado Portucalense e em todas as outras partes da faixa Atlântica da Península ibérica vem a evoluir desde as falas pré-romanas. Qualquer linguista sério vai reconhecer isto. algo que vem escrito em documentos sérios e credíveis sobre a origem da língua portuguesa. Aliás, isso vê-se hoje em dia na língua portuguesa: base latina mas forte substrato celto-lusitano refletido numa miríade de vocábulos – lousa, louça, menino, camisa, curro, bico, bilha, peça, entre muitos outros. Afinal, onde é que entra aqui a parte “galega”? Onde está a contribuição da Galiza e a exclusividade da “criação”? Quem sustenta isto são os apologistas da “geração espontânea”, o que obviamente não pode ser levado a sério. Ninguém acorda num belo dia de sol e, por magia, decide erguer todo um sistema linguístico. Eu fui à origem, e ficou tudo tão claro que já começa a ser irritante ouvir essa teoria defendida por uma minoria alimentada e idolatrada por galegos delirantes de que “o português vem do galego”. Como pode o português vir de algo que nunca existiu antes do século XIX?? Galego era o nome dos habitantes, não o nome do linguajar que eles tinham. Nem sequer, como vimos, esse linguajar nasceu na Galiza ou é exclusivo da Galiza. Se quisermos continuar a ir à origem, vamos ao autor de referência da Península Ibérica pré-romana (Estrabão) e constatamos que não havia os termos “calaicos” nem “Galécia” antes da conquista romana – esse povo acima do Douro, mesmo que não fosse 100% idêntico ao povo a sul do Douro, pertencia ao que muitos autores clássicos denominam como “conjunto lusitano”. A tese “As epígrafes em língua lusitana” publicada na UP deixa claro que foi detetada onomástica lusitana na Galiza. Mais evidente do que isto é impossível. O galego, se formos analisar, é uma mistura de Português arcaico (o tal romance ibero-ocidental que continuou a ser falado pelos galegos e que era essencialmente latim cruzado com línguas celto-lusitanas) e Castelhano. O chamado rexurdimento é pelos vistos o aparecimento do “galego” que os castelhanos promoveram e normatizaram para afastar a Galiza da sua origem: a portugalidade. O que havia antes, como se vê pela incurão histórica aqui traçada, era romance ibero-ocidental que se falava na Galiza MAS TAMBÉM no resto da faixa atlântica peninsular, e em partes de Leão, das Astúrias e da Extremadura. Podem até não publicar este texto mas leram-no e não têm como não concordar. Não deixaremos a mentira prosseguir.

    • Publico, sim, para mostrar a forma enviesada como a questão é vista por alguns portugueses. A confusão mental do comentário fala por si própria. Para quem quiser saber o que o conjunto da investigação linguística diz sobre o assunto pode ler — só como exemplo — a Introdução à História do Português de Ivo Castro. Aí está tudo bem explicado, com referências científicas sólidas; a obra de Ivo Castro não parte de uma ideia e tenta prová-la: parte antes dos estudos e dos factos e apresenta o que se sabe neste ponto da investigação linguística.

      Quanto ao comentário em si, poderia pegar por vários pontos, mas sublinho apenas o erro de dizer que o galego surgiu no século XIX: mostra uma confusão entre «língua» e «produção literária» e, mesmo dentro dessa confusão, ignora a literatura medieval galega. Os galegos não começaram a falar galego no século XIX. Aliás, foi do século XIX para cá que o seu uso começou a decair (decadência essa especialmente acentuada nas últimas quatro décadas).

      Note-se que a Galiza não “inventou” o nosso idioma: a nossa língua não surgiu do nada, mas antes evoluiu, a partir do latim e com influências das línguas locais anteriores, no Noroeste peninsular (o que é hoje o Norte e a Galiza), como indica a investigação linguística — e, daí, expandiu-se para sul, com a Reconquista portuguesa (quando já tinha um uso oral muito antigo e um uso literário mais recente, mas importante), sofrendo influências do romance falado a sul. O galego e o português actuais são descendentes desse romance do noroeste, que tem como substrato as línguas anteriores (das quais se sabe muito pouco).

      A tese sobre onomástica que refere será um estudo, entre muitos, e apresentá-lo como fundamento para certezas absolutas que se afastam da maioria dos estudos linguísticos sobre o mesmo tema é próprio de quem está pouco habituado a lidar com literatura científica, pelo menos nesta área (há estudos sobre onomástica basca em toda a península: quer isso dizer que o basco é a origem das línguas ibéricas?).

      Seja como for, concordamos num ponto importante: o português e o galego constituem ambos o tal romance ibero-ocidental e têm uma relação muito mais profunda do que alguns admitem.

  • Enviesado e totalmente enviesado é o seu comentário. A sua argumentação cai por terra quando não consegue provar que esse romance ibero-ocidental, dialeto latino que dá origem à língua portuguesa, é exclusivo da Galiza. Não, não é exclusivo da Galiza nem sequer é exclusivo do noroeste peninsular. O que é que se falava abaixo do Douro? Não me diga que acredita que era árabe?? O linguajar (dialeto porque não tem maturidade nem elementos de individualidade suficientes para ser língua) falado no noroeste era, pois, aquele que se falava mais abaixo e em partes de Leão, Astúria e da Extremadura. A expressão “galego-português” é portanto errada (ou quanto muito um frete aos galegos) e não é por ter sido repetida à exaustão em estudos anteriores que passa a ser lógica, consistente ou verdadeira. Só por arrogância e teimosia se pode em falar em “língua galega” antes do século XIX. O que é que os galegos falavam? Falavam justamente esse dialeto latino que vem a dar língua própria apenas cem anos depois da emergência do Reino de Portugal. Logo, esse dialeto é uma fase de evolução do Português . Chamar-lhe “galego-português” quando esse dialeto não nasceu na Galiza mas em toda a parte ocidental é um abuso, uma interpretação errada e infundada, ou o tal frete. O que é hoje a língua portuguesa veio a evoluir em toda a parte ocidental da Península Ibérica desde que o latim vulgar dos romanos se misturou com o lusitano e outras línguas menores pré-Roma. Se fosse pela (inexistente) “influência galega”, o latim do ocidente peninsular seria igual ao do centro. O elemento diferenciador é, portanto, o lusitano e as línguas pré-Roma. Pode até nem saber-se muito sobre estas línguas mas que elas existiram existiram (investigue mais se quiser) e são elas o elemento distintivo do dialeto latino que origina a língua portuguesa. Por isso, se quiser uma expressão alternativa a “português arcaico”, uma fase de evolução da língua portuguesa, faria muito mais sentido falar em “lusitano-português” do que em “galego-português” já que nenhum elemento “galego” tangível que enforme o dialeto latino que desemboca na língua portuguesa.

    Essas investigações que cita, e usando a sua lógica, mais não são do que repetições de conteúdos de alguém que tinha uma versão sobre a origem da língua e compilou umas ideias para tentar fazer valer a sua tese.

    Vamos lá ver se publica.

    • No meio desta fúria textual, fico admirado por achar que eu disse que as línguas pré-Romanas não existiram. Claro que existiram! Por outro lado, o termo “galego-português” é de facto uma invenção recente (os linguistas usam termos mais recentes para dar nome a realidades antigas). Agora dizer que o galego apareceu no século XIX não lembra a ninguém… Mas nada disso tem que ver com o que escrevi, o Luís parece estar a discutir com outra pessoa. Enfim, tenho muita pena que não se atreva a ler os bons livros de linguística que proponho.

    • (Quando digo que parece que está a discutir com outra pessoa digo-o, por exemplo, por ver nos seus argumentos a ideia de que o romance que deu origem ao português foi exclusivo da Galiza. Nunca disse tal coisa. Está mesmo a discutir contra os argumentos de outra pessoa…)

      • Boa tarde Sr. Marcos Neves.
        Antes de mais quero felicitar pela sua informação equilibrada e muito interessante da nossa língua.
        Gostaria pedir sua ajuda para algo que estou a criar para passeios turisticos. vou ter que falar da nossa lingua para alguns grupos mas com tanta informação existente e com tantas contradições de vários investigadores acabei por ter alguma dificuldade em criar um resumo de uma página para explicar a eles de forma breve, prática e compreensiva sobre a origem de nossa língua.
        Além da origem procuro palavras das antigas diferenças entre o galego o latim vulgar e o nosso português.
        outro aspecto é como poderei descobrir a evolução das palavras ao longo dos séculos como por exemplo “egitânia, Idânia e idanha.
        Agradecia imenso esse apoio. Desejo-lhe o maior sucesso

  • Marco Neves, embevecido por tamanha erudição a desfilar nas páginas do blogue. Parabéns a ti e a todos e todas que participaram com comentários deveras elevados, e ao meu ver, todos convergentes. No fim das contas confirmam o que já aprendera nos idos escolares que, resumidamente, o Português atual tem sua origem mais imediata fincada no “Galaico-Português”, tanto quanto o Galego atual, e que ambas, na altura uma só língua, originaram-se em fonte mais remota, isto é, imediatamente antes do Galaico-Português, o Latim. É como se do Latim ao Português e ao Galego tivesse havido uma fase intermediária a desembocar no Galaico-Português e este a seguir bifurcar-se em dois ramos distintos o Galego e o Português.

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