Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Qual foi a primeira fotografia de um ser humano?

Hoje, temos uns bons milhares de fotografias nos telemóveis. Muitas dessas fotografias retratam seres humanos. Quem terá sido a primeira pessoa apanhada por esta nova tecnologia?

A primeira fotografia da história foi tirada entre 1826 e 1827, por Nicéphore Niépce, que lhe chamou heliografia.

Estamos perante um interessantíssimo telhado francês. Essa fotografia é importante, por ser a primeira, mas falta-lhe vida. Não é de admirar: tirar uma heliografia demorava umas boas oito horas. Quem se sentaria quieto durante tanto tempo? Só mesmo um telhado.

Uma década depois, a tecnologia estava bastante mais desenvolvida. Bastavam uns curtos quinze minutos para registar uma cena. Foi o que fez Louis-Jacques Mande Daguerre neste registo do Boulevard du Temple. Estamos perante um daguerreótipo, palavra criada a partir do nome do inventor.

Estávamos em 1838 (ou talvez 1839). Aquele era um boulevard muito movimentado, mas nem os humanos nem os cavalos ficavam parados 15 minutos. O daguerreótipo regista apenas a rua, os prédios, as árvores, ou seja, o cenário da cidade… Os cavalos, os cães, os gatos ou os seres humanos esfumam-se, fugazes como são.

Ah, mas ali, no canto inferior esquerdo da imagem… O que será aquilo? Olhando com atenção facilmente vemos um engraxador e o seu cliente — os primeiros seres humanos registados numa fotografia. Mal sabiam que se tornariam imortais como duas manchas negras numa fotografia.

Escrevi fotografia, mas a palavra não era usada por Daguerre. Não é fácil saber quem a inventou: parece ter aparecido de forma independente em alemão, francês e inglês. Não é difícil perceber porquê. As novas palavras para representar uma invenção, nas línguas europeias, vão beber, com frequência, ao latim e ao grego. É natural que várias pessoas se tenham lembrado das palavras gregas photos e graphé, criando o termo fotografia, ou seja, desenho de luz. O termo não era surpreendente, mas note-se que também não era inevitável — tivessem as palavras caído no goto de quem escrevia no século XIX e podíamos hoje ter os telemóveis a abarrotar de heliografias ou daguerreótipos. Na verdade, estes dois termos acabaram por denominar dois métodos particulares de obter aquilo que, retroactivamente, chamamos fotografias.

Voltemos àquelas duas pessoas numa rua aparentemente vazia de Paris, ali no final dos anos 30 do século XIX. Foram mesmo apanhadas por acaso? Graham Robb conta a história da fotografia no livro Parisians e pergunta: será que engraxar um par de sapatos demorava quinze minutos? Não terá Daguerre pedido a um amigo para ficar ali durante o tempo suficiente para aparecer na fotografia? Será uma fotografia encenada? Talvez a primeira fotografia encenada da história?

Não importa. Olhamos para o engraxador e o seu cliente e sentimos a vertigem do tempo. Passaram quase 200 anos e aqueles dois ainda ali estão, numa avenida vazia.

(Crónica no Sapo 24. A fotografia está em espelho; também é possível encontrar a versão corrigida, com as pessoas à direita.)

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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1 comentário
  • Memórias do tempo. E em menos de 200 anos, chegámos às fotografias digitais e ao armazenamento na nuvem, isto é, nem as vemos!!
    Obrigado Marco pela ideia.

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