Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Quantos paus custa um euro?

Por vezes, há palavras que pensamos mortas e reaparecem de imprevisto. É o caso dos paus como forma de falar da moeda.

A nossa unidade monetária era, até 2002, o escudo — ou, em linguagem de rua, o pau. Um café custava uns 50 paus (ou algo do género), um livro ainda eram uns 1500 paus…  Depois de 2002, o escudo desapareceu e o mesmo pensei que tivesse acontecido ao pobre pau, o escudo reguila.

Foi com muita surpresa que, há uns tempos, ouvi um amigo mais novo referir-se a uma quantia em euros usando a velhinha unidade pau. Havia, dizia-me ele, um computador muito bom à venda numa certa loja por 400 paus. Estranhei não só o termo, mas também o valor: um computador por 400 escudos? Não: o pau valorizou bastante — 1 novo pau vale 200 antigos paus (e mais umas migalhas). Depois da surpresa, acabei por encontrar muitas outras pessoas que usam o convertido pau.

Estas sobrevivências não são exclusivas da transição do escudo para o euro. Quantas vezes não ouvi eu a palavra merréis — a versão despachada de mil-réis — da boca dos meus avós, como equivalente de escudo? O real (com o plural réis) ainda aparecia na boca dos portugueses no início do século XXI! E, no entanto, a moeda tinha sido substituída pelo escudo em 1911…

A conversão entre réis e escudos era fácil: um escudo eram mil réis. Assim, a palavra mil-réis manteve-se na boca dos portugueses. Os réis também sobreviveram no nome que dávamos à moeda de 2$50. Correspondia a 2$500 réis — e daí o nome moeda de dois e quinhentos. (Um milhar de réis escrevia-se 1$000; com o escudo, o cifrão passou a ser o símbolo decimal, mas não saiu do mesmo lugar, se pensarmos no valor da moeda.)

O próprio conto era ainda uma sobrevivência do real: um conto de réis era um milhão de réis. Com a mudança, um conto passou a valer 1000 escudos. Depois de 2002, o conto manteve-se nas contas mentais que fizemos durante muitos e bons anos — há aliás quem me garanta que ainda pensa em contos. De certa maneira, o real, a pairar como fantasma atrás do conto, sobreviveu mais tempo do que o escudo.

As palavras, por vezes, são mais sólidas do que pensamos. Quando começámos a usar o correio electrónico, mantivemos velhas palavras como endereço, remetente, destinatário… Hoje, há canais no YouTube, como há canais na televisão. Temos murais no Facebook. Aliás, não ficaria nada mal publicarmos por lá postais, que têm a dupla vantagem de serem bem portugueses e não se afastarem muito dos mais habituais posts ingleses — mas, enfim, ninguém consegue controlar as palavras que ficam e as que desaparecem (podemos tentar, claro está). Até uma palavra tão localizada no tempo como disquete sobrevive em frases como «clique no símbolo da disquete para gravar o ficheiro»…

Para sobreviver, uma palavra adapta-se. Muda de som, muda de significado, às vezes até muda de língua. São resistentes, as palavras. São também maleáveis: através das metáforas, conseguimos usar uma palavra simples para designar realidades mais complexas. Esta é uma característica de todas as línguas. Há metáforas que são quase universais: quando representamos um valor que aumenta, quase sempre representamo-lo como estando a subir. É tão natural que nem percebemos estar perante uma metáfora — e, no entanto, quando a temperatura aumenta, nada sobe (talvez o mercúrio nos antigos termómetros). O certo é que os falantes de português e de muitas outras línguas compreendem perfeitamente quando se diz que a temperatura está a subir — é o mecanismo mental que permite ao nosso cérebro ver o aumento da temperatura.

Também acontece algo parecido quando falamos do tempo a passar: como não o vemos, usamos termos relacionados com o espaço. Usamos as mesmas palavras: vou de Lisboa a Braga e trabalho de segunda a sexta; ele está perto de casa e telefona perto das duas; estamos longe desses tempos; entramos no novo ano, como entramos em casa… O tempo não anda para trás, todos sabemos. Na verdade, também não anda para a frente. Não anda, ponto final — e, no entanto, para o nosso cérebro, parece que sim. São truques que a mente usa para compreender o mundo, que são revelados quando olhamos com atenção para a língua.

A língua é um depósito de sedimentos em que encontramos invenções recentes e materiais antigos — sejam as metáforas que usamos para falar do que não se vê ou os nomes que damos às moedas, mesmo quando elas mudam.

Sugestão de leitura (e de tradução): A importância da metáfora para o funcionamento das línguas, muito para lá do uso literário, há muito foi reconhecida pelos linguistas. Um livro com um excelente capítulo sobre o assunto é The Unfolding of Language, de Guy Deutscher. É pena não estar traduzido em português.

(Crónica no Sapo 24. Obrigado à Ana, à Patrícia e à Vera pela sugestão!)

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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13 comentários
  • Desafio. Palavras que eram erros e, pela força do uso, deixaram de ser. Exemplo, a palavra ficheiro que foi erradamente traduzida de “file”.

    • No Brasil usa-se a palavra arquivo como tradução para ficheiro . Não sei se é menos ou mais correta

  • Ave!
    Curioso o comentário sobre apelidos das moedas em Portugal, pois muitos foram e continuam sendo naturalmente usados no Brasil, uma vez que o padrão monetário durante muito tempo foi o mesmo.
    O uso do “pau” também acontece, só que muito mais associado aos paulistanos e talvez em outras paragens deste grande país, mas que desconheço. Como o termo é por sua vez utilizado como gíria na menção do órgão masculino, é de se supor que em paragens mais conservadoras não tenha grande aceitação.
    Saudações,
    Cesar B.

  • Marcos, aqui no Brasil (pelo menos onde moro) também se fala “contos”, “paus” e “mirréis” no lugar do “Real” das notas. Geralmente se fala “mirréis” para se referir a algo barato “O produto X custa só trinta mirréis”, enquanto “pais” e “contos” geralmente algo mais caro. Interessante saber que o uso também permanece em Portugal.
    Abraços.

  • Também já ouvi um jovem referir-se a não sei quantos ‘paus’, como sinónimo de euros, mas ignoro a vitalidade de “paus” na actualidade. Talvez apareça em linguagem de jovens, algo efémera e talvez mais na área metropolitana de Lx., não sei… Já mil-réis soava popularmente como “memréis”, pelo menos nunca ouvi outra forma e já cá ando há quase 75 invernos.
    A natureza extensamente metafórica da ‘língua’ começa logo na própria palavra ‘língua’ que de designação do órgão-músculo da cavidade bucal passa a significar o sistema de sons dupalmente articulado (Martinet) com vários outros significados como ‘ o língua’ para significar ‘intéprete’, etc., etc. Metáfora é o conjunto de duas palavras gregas cuja junção dá o significado de transporte, tranportar para além, para depois (meta/trans). A metáfora como expressão poética é, não raro, uma criação idiossincrática. Artigo de novo interessante, que se lê com prazer e até algum proveito.

  • Seu artigos são excelentes. Este então… Pois com ele somos capazes de constatar que a moeda que usamos aqui no Brasil é a mesma que é usado aí em Portugal: paus. Claro que o uso de paus em relação a moeda é de cunho popular, vulgar e não dentro do sistema econômico ou de forma escrita quando se quer referir a valores. assim também é o mil réis, que também já foi moeda aqui. Fico muito contente com essas identificações com o povo português. Não que eu queira ser europeu, longe de mim isto, mas porque é a mais forte origem de nosso povo. Pena que houve um afastamento muito grande entre Portugal e o Brasil, parecendo-me até que a proximidade entre brasileiros e italianos ser muito maior, já faz algum tempo. Mesmo assim, ainda temos muito da cultura portuguesa em nossas raízes, muito.

  • Muito interesante. Em Espanha não aconteceu o mesmo com os apelidos da nossa “peseta” (pela, cala, rubia…), talvez por serem femininos e o euro masculino. Mas com a peseta tínhamos o “duro”, que eram 5 pesetas, singularidade que nos fazia contar como múltiplos de 5 algumas quantidades concretas: “cinco duros”, “diez duros”, “veinte duros”, “cien duros” e “mil duros”, nomeadamente (25, 50, 100, 500 y 5.000 pesetas). E ainda hoje algumas pessoas (eu também) vemos vir a palavra “duro” e as suas multiplicações à nossa cabeça ao vermos as moedas de cêntimos, que tem, alias, valor parecido com o que tinham as pesetas no tempo em que desapareceram.

  • A mesma coisa no Brasil. 400 paus significa 400 reais. As vezes o pessoal é mais criativo e nas notas de maior valor diz o nome do animal que está estampado na nota (no Brasil há muito tempo se tem homenageado a fauna e flora nas notas). Hoje a nota de duzentos reais é chamada de Lobo-guará.
    Vale um lobo-guará! Ou seja, vale 200 reais.
    Essa de mil-reis meu sogro de 95 anos ainda fala.

  • Boa tarde !
    Fantástico estr artigo sobre o “repescar” do termo popular “paus”, referente a escudos.

    Também já o ouvi de um jovem que, certamente, quando o escudo passou a euro seria ainda muito criança.

    São termos que de uma certa forma “enriquecem” e dão cor à expressão coloquial. Não direi sempre mas, de vez em quando, em circuitos familiares, também a irei usar junto da miudagem, a fim de lhe passar estas expressões e de não as deixar cair em desuso.

  • Tínhamos o real com plural réis. Nos 40, criou-se o Cruzeiro, mas o povo continuou chamando 1 Cruzeiro e 1 mil-réis ou 1 mirréis. 1000 cruzeiros continuou sendo um conto de reis. Depois de hiperinflação, temos um novo real, com plural de reais. Mas até hoje tem gente que chama 1 real de 1 conto. E chegam a falar em contos. E tem gente que usa paus. Interessante à semelhança com Portugal.

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