Categorias
Crónicas

Que fazer quando o nosso nome deve dinheiro?

Quase todos partilhamos o nome com mais pessoas. Quando encontramos um homónimo, sorrimos — mas, às vezes, as coisas não correm muito bem…

Descobri esta semana que o tenista João Sousa é assombrado pelo tenista João Souza, que é outra pessoa e ainda por cima, dizem as notícias, com tendência para a malandrice. Várias pessoas ficaram convencidas de que o português João Sousa (com S) foi banido do ténis. Ora, quem foi banido foi o João Souza, que tem um Z no nome e é brasileiro. Curiosamente, os dois tenistas já chegaram a jogar um contra o outro, em 2015. Tenho pena do João Sousa — mas tenho ainda mais pena do comentador desse mítico jogo.

O certo é que muitos de nós temos homónimos a passear pelas ruas de Portugal e, provavelmente, doutros países. Já descobri vários dos meus queridos homónimos. Um deles é professor na minha escola primária e já cheguei a cumprimentá-lo. Outro é professor na mesma universidade que eu. Há ainda um homónimo especialista em inteligência artificial, que acompanho à distância por me interessar pelo tema. Descobri há poucos dias que há ainda um Marco Neves especialista em tacógrafos (o que dá sempre jeito). Soube também, depois de receber umas mensagens transviadas, que, no Brasil, trabalho na área do petróleo (o que não me parece nada mau). Por fim, há por aí um homónimo meu que não pagou a prestação do carro.

Descobri este último homónimo — que não conheço e espero não estar a envergonhar com esta crónica (não se preocupe, somos muitos, ninguém sabe quem é!) — ao receber uma mensagem a informar que devia pagar a prestação. Pensei que fosse mais um exemplo de spam. Recebi duas mensagens, três, quatro… Olhei com mais atenção para o texto e para o endereço. A ausência de erros ortográficos fez-me desconfiar. Aquilo se calhar não era a brincar.

Respondi a uma das mensagens a dizer que não era eu, que devia ter havido algum engano. Disseram-me que não havia engano nenhum e que este era o endereço de e-mail que eu tinha indicado. Lá lhes disse que talvez fosse o endereço de e-mail que alguém tinha indicado, mas não eu… A nova mensagem dos meus supostos credores já dava mostras de maior desconfiança. Estaria eu a tentar fugir às minhas obrigações? Não me chamava eu Marco Neves, com o endereço de e-mail tal e tal? Sim, chamo-me Marco Neves, tenho esse endereço de e-mail, mas não comprei nenhum carro a V. Ex.as, nem devo o dinheiro que me dizem que devo.

Informaram-me então de que, perante esta atitude, teriam de enviar o caso para os advogados.

Depois de contar até 10, olhei para a assinatura por baixo da mensagem e telefonei para o número. Quando disse o meu nome, a senhora expeliu um «Ah!» em tom de «já te apanhei!». Com calma, expliquei que haveria um homónimo devedor — e ladrão de endereços alheios — mas que não era eu. Por fim, a senhora acreditou em mim — não é maravilhoso usar a voz para esclarecer imbróglios? Pediu-me muitas desculpas, disse que iria corrigir as informações no sistema e que eu não iria ser contactado de novo… Ainda pensei em perguntar: nem se eu quiser comprar um carro? — mas calei-me.

Desligámos o telefone, preparei-me para voltar à minha vida habitual, quando recebo uma chamada do número para o qual acabara de ligar. Mau…

«Sr. Neves… Só uma pergunta: por acaso não sabe qual é o e-mail do outro senhor?…» Informei-a de que por acaso, não sabia — mas que se viesse a saber, lhe dizia. Até hoje, não encontrei o homónimo, mas recebi algumas mensagens de e-mail a agradecer o pagamento da prestação. Fico feliz pelo outro Marco!

Enfim, esta crónica não explicou o Brexit, não se arreliou com nenhum vírus e não resolveu nenhum problema grave deste país, mas informou o mundo de que o João Sousa não foi banido do ténis e que o autor deste texto não deve a prestação do carro. Já não é coisa pouca.

(Crónica publicada no Sapo 24.)

Receba os próximos artigos

Marco Neves

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *