Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Quem tem medo de «fazer a barba»?

Há quem insista: a barba não se faz — desfaz-se! Mais: há quem julgue uma grande estupidez afirmar o contrário. Pois, desculpai-me, mas afirmo mesmo: «fazer a barba» é perfeitíssimo português!

A ideia começou não se sabe bem onde, mas espalhou-se como fogo pelos quartéis e pelos barbeiros deste país: uma pessoa desfaz a barba, não a faz. Uma barba sai da cara: por que razão dizemos que é feita nesse momento? Esta lógica impecável obrigou muita gente a começar a dizer «desfazer a barba» ou a refugiar-se na alternativa «cortar a barba».

Ora, trago-vos uma boa notícia: as palavras podem ter vários significados. Aliás, raríssimas são as palavras com um significado sólido, único, imutável. Todas as línguas são assim! Não é um problema dos portugueses: é feitio dos seres humanos. Os humanos aqui do lado, por exemplo, usam a mesma palavra para «sono» e «sonho» («sueño»). Confuso? Ora, nós dizemos «sono» para a vontade de dormir («tenho sono») e «sono» para o estado de quem está a dormir («sono profundo»). Faz confusão? Só a quem não fala português.

Pois bem: quando chegamos aos verbos, temos de reconhecer: muitos destes bichos variam de significado de acordo com a roupagem. O verbo «tirar» significa uma coisa em «tirar o prato da mesa», outra em «tirar a pinta», outra ainda em «tirar uma fotografia»… O verbo «dar» não é exactamente a mesma coisa em «dá três passos», «dá um presente», «dá uma cambalhota», «não dá uma para a caixa»…

Da mesma forma, o verbo «fazer» muda de significado em frases como «fazer um texto», «fazer a cama», «fazer tempo» e «fazer a barba» — são apenas exemplos: o verbo é ainda mais variado do que parece.

Não se trata de significados alternativos a um significado principal: todos são significados perfeitamente legítimos! Por que carga de água «fazer um texto» (escrever) ou «fazer a cama» (arrumar) hão-de ser significados mais legítimos que «fazer a barba» (cortar)? (Aliás, em todos os casos, se virmos bem, fazemos alguma coisa, no sentido de acção…)

Enfim, o certo é que a utopia da língua bem-comportada, com um só significado por palavra, seduz muita gente. No entanto, lamento informar, as línguas humanas não são feitas a regra e esquadro. Há palavras com muitos significados, há conceitos expressos por várias palavras, há desarrumações em todos os recantos do léxico e da gramática. Mesmo que conseguíssemos, depois de muito trabalho, limpar estas belas confusões, rapidamente os nossos cérebros começariam a inventar novos significados para as coitadas das palavras.

Note-se: as palavras têm muitos significados, mas não têm qualquer significado: têm os significados que vão ganhando ao longo do tempo, devagarinho, no uso de uma língua pelos séculos fora. Não posso dizer que «fazer um livro» significa «ler um livro». Mas posso dizer que «fazer a barba» significa «cortar a barba». Por outro lado, não posso simplesmente declarar que um significado tem de deixar de existir só porque sim. «Fazer a barba» é uma expressão que faz parte do português, queiramos ou não (e não vejo razão nenhuma para não querer). A língua não se faz à vontade do freguês. Faz-se à vontade do uso de milhões de fregueses, ao longo de muito tempo. O rigor também é isto: não impor o mais absurdo dos simplismos ao funcionamento da língua.

Enfim, neste como noutros casos, estou convencido que estamos perante um exemplo de chico-espertice. Alguém encontrou uma palavra com vários significados (a coisa mais banal do mundo!) e viu aí uma oportunidade de brilhar. Imagino mesmo o chico-esperto, na rua, a parar e a bater com a mão na testa: «A barba não se faz!» Quando vai ao barbeiro, dias depois, já vem com o sorriso espertalhão na boca: «Já repararam que a barba não se faz? Desfaz-se!» Pronto: está armada a confusão.

Como piada no barbeiro, dizer que «fazer a barba» é erro não faz mal a ninguém. Como ideia sobre o funcionamento da língua, é um grande disparate.

A barba faz-se, tal como a cama e o tempo — cada um à sua maneira. As línguas são assim: matreiras e muito interessantes.

(Crónica no Sapo 24.)

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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4 comentários
  • Caro professor, embora entenda que as mudanças linguísticas sejam um processo natural e esperado, um fenômeno um tanto quanto recente no Brasil me deixa muito contrariado ! Como sou engenheiro dou muito valor às regras lógicas e a sintaxe da língua portuguesa permite justamente construir suas regras necessárias à comunicação. Refiro-me à tendência local de se omitir o pronome em alguns verbos pronominais e reflexivos. Não muito comum no Rio de Janeiro mas amplamente comum em São Paulo.
    Como exemplo: “Eu assustei” ao invés de “Eu me assustei”; “Eu aposentei” ao invés de “Eu me aposentei”; “Eu reprovei na prova” ao invés de “Eu fui reprovado” etc.

    Esta forma de falar tira completamente o sentido da frase posto que quem assusta assusta alguém, e por aí vai !

    Bem professor, a pergunta é simples: devo me conformar ou me mudar para Portugal ?

  • Eu uso barba na cara mas faço-a no pescoço. Gostos de ler os seus artigos, é claro que nem sempre temos que coincidir nas opiniões. Parabéns por mais este. Parabéns também por não ser um “espetador” passivo enquanto vão destruindo a nossa língua a golpes de burrice. Resistirei até à morte a uma uniformização deformante que, afinal, quase ninguém parece querer, especialmente além-fronteiras. Defendo que os outros povos têm direito a ter a sua língua, com origem no português certamente, mas ofende-me que lhe chamem português, pior, que pensem que a língua portuguesa é a que falam. Está visto que não é o português que defendem. É a nós que cabe fazê-lo.

  • Há anos brinco com essa expressão! Eu gosto de falar assim: “eu não faço a minha barba, eu a desfaço, quem a faz é a natureza!” Obvio que sei que “fazer a barba” é a expressão comum, correta e cristalizada da língua.

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