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Sete animais escondidos na língua portuguesa 

A língua tem destas coisas: muitas surpresas, algumas voltas menos claras — e tem também alguns animais escondidos, que de vez em quando lá arrebitam a cabeça e dão um ar de sua graça nas nossas conversas e nos nossos escritos. Lembrei-me destes sete exemplos, embora saiba que há muitos outros animais escondidos na nossa língua: são os autarcas armados em dinossauros, são os espertos que nem raposas, são os sujos que nem porcos — mas deixemos os insultos para outro dia. Hoje quero animais inocentes. A começar na pulga…

  1. A pulga atrás da orelha. Haverá pulga mais simpática do que aquela que se esconde por trás da nossa orelha? Sim, é simpática, mas também perigosa. Às vezes, uma frase dita assim de passagem, uma palavra com uma certa entoação, uma alusão muito vaga, muito disfarçada, uma conversa que deixamos passar por distracção — e ficamos com a tal pulga a picar-nos a pele por trás da orelha. E a partir daí, começamos a puxar o fio à meada e às vezes a coisa começa a transformar-se numa bola de neve. Bem, chega de lugares-comuns. Qual é o próximo animal?
  2. Cobras e lagartos. Dizemos dos outros cobras e lagartos — que, coitados, nem sabem o uso que têm na nossa língua. Eles que até são tão pachorrentos, apesar dos medos que temos na cabeça. Quer lá a cobra saber do que andamos a maldizer. O que elas querem é paz e sossego (e um ou outro animal para matar a fome).
  3. Lágrimas de crocodilo. Não deixando o mundo dos répteis, temos ainda os crocodilos que choram a fingir. Quer dizer, na verdade somos nós, animais matreiros como poucos, que andamos a inventar essas calúnias sobre os bichos.
  4. Cães e gatos a caçar. Por cá, não dizemos que os cães e os gatos chovem, como em inglês. Mas dizemos que quem não tem cão, caça com gato. E olhem que se calhar até ficamos bem servidos, se o objectivo for caçar moscas ou ratos (ou coelhos). Ou qualquer coisa pequena que se mexa muito.
  5. Nem que a vaca tussa. Não sei muito bem porque não há-de tossir a vaca, mas pronto, a língua é assim (ou se calhar a língua até acertou e a vaca não tosse mesmo). Mas diga-se que o pacato animal, nesta expressão, até tem sorte. Quando chegamos ao mundo dos insultos, a coitada da vaca está bem servida, está.
  6. Bicho-carpinteiro. Aquilo que se mete nos móveis — mas também nas crianças e aí é que (7) a porca torce o rabo. Só o sono ou às vezes os desenhos animados aliviam essa comichão que deixa os putos aos saltos, às vezes sem saber o que fazer. Há dias em que o único antídoto é uma boa história contada no sofá, de preferência com animais que falam.

São vacas a tossir, porcas a torcer o rabo, crocodilos a chorar… Já sabemos que isto, no fundo, são tudo bichos na nossa cabeça. Será que algum destes animais, ao falar com um amigo, encolhe os ombros e diz «não sejas complicado como um humano»?

27 de Dezembro de 2016

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Marco Neves

32 comentários

CONHECIA ERA A EXPRESSÃO : Não deixo que me façam o ninho atrás da orelha.
NO SENTIDO: A mim não deixo que me enganem ou me tentem ludibriar-

O MEU BISAVÔ UTILIZAVA A EXPRESSÃO: Bresundela indistintamente também como ,a hoje tão falada GERINGONÇA .Desta última sabemos o sentido,mas da BRESUNDELA.nunca consegui obter uma informação concreta.
Coisas antigas e outras que os meus 85 anos,arrecadaram no nosso armazém mental.
Cumprimentos,reiterando os meus desejos de que tenha um feliz NOVO ANO,repleto de coisas positivas,mas,especialmente felizes.
COSTA-PEREIRA

mais alguns exemplos!
– O primeiro milho é para os Pardais.
– Aqui há gato! ( com ou sem rabo de fora).
– … Ou entra mosca ou sai asneira.

Se não gostar do meu comentário acerca do que vai em algumas cabeças e do que se pode tirar do nariz, tenha a bondade de me mandar pentear macacos.

Marco

Por mero acaso tropecei agorinha mesmo numa palavra, na qual a fera está tão bem escondida que lhe deve ter escapado… Piurso!

O corretor automático ficou “piurso” comigo.

Boas entradas e um 2017 repleto de Palavras bem “vivinhas”, repletas de emoções partilhadas e construtivas!!

Obrigada,

Paula Carvalhal

Devo confessar que passo muitas vezes por este blogue como cão por vinha vindimada.

É que há tanta coisa a distrair-nos na net, todas ao mesmo tempo a tentar atrair a nossa atenção, tudo num treco lareco, pardais ao caneco…

O caso é que, na minha já provecta idade, custa-me adaptar-me a estas novas tecnologias. Lá está: mula velha não toma andadura (e se toma, pouco lhe dura).

Ainda se ao menos eu conseguisse acordar com os pardais e vir para a net logo de manhãzinha bem cedo, antes desta agitação… Aí sim, era capaz de me deter a saborear este ou aquele texto mais interessante, que isto, já se sabe: Primum milium pardalorum est.

Em suma: outro galo cantaria.

Ainda assim, vá lá que, de quando em vez, aqui me detenho em Certas Palavras, e tenho apreciado, diria até saboreado, um ou outro dos textos aqui publicados.

Sim, que eu não sou como o porco (animal de vista baixa, com licença de vossa senhoria), que engole sem saborear tudo o que lhe botam na gamela.

Mas pronto, também não me vou pôr aqui a dizer cobras e lagartos deste blogue que tantas coisas boas me tem proporcionado. É que, lá diz o ditado: a cavalo dado não se olha o dente.

Por último, permito-me recomendar ao Marco que não dê demasiada importância a essas carraças que estão sempre a inventar erros na língua portuguesa. Deixe-os papaguear à vontade, que cão que ladra não morde.

Este comentário vale mais do que o próprio artigo! Muitos parabéns — e obrigado por cá aparecer de vez em quando.

Dizem que “filho de peixe sabe nadar”…pois, não é bem o caso!…o meu Papá é fantástico!…e eu só posso dizer que “cada macaco no seu galho”!

E, também, depois do bacalhau da consoada, devemos dizer que “peixe não puxa carroça”!
E espero que amanhã não estejam muitas gaivotas no porto!…porque…”gaivota em terra…

Burro velho não aprende… Línguas? 😉

A mãe galinha dizia: Os cães ladram e a caravana passa.

E já agora, uma saudação muito especial ao Joaquim Jordão pela tão poética e inspirada resposta. Parabéns.

Aqui pelos algarves, em certas regiões. Olhão, Fuzeta,…. diz-se”tá o mar fête num cão”.

Há quem, só com um copinho, fique com um grãozinho na asa e comece a arrastar a asa à mulher do vizinho. Este chateia-se, e o pândego tem de bater a asa.

Algo que não tem valor ou importância: “água de ouriços”. Na Galiza marinheira.

Quando alguém está mui delgado: “Fino como um rabo de bacalhau”

Quando uma coisa não é mui boa, mas é para alguém pouco importante “para quem é o burro, bem vale a albarda”

E quanto mais não seja, albarda-se o burro à vontade do dono! Nem que seja para ver qual a cor do burro quando foge

para aumentar o zoológico:

BR:

Comer mosca:
perder uma oportunidade;
errar algo e não perceber.

Em Portugal e na Galiza há algo assim?

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