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Crónicas

Três armadilhas do Facebook

Sim, o Facebook é perigoso. E não há dia em que não tropecemos numa das suas armadilhas.

1. O Facebook atira-nos açúcar para os olhos

O que quero dizer com esta frase? Isto: no Facebook, estamos expostos a notícias (verdadeiras, falsas, assim-assim) — e algumas notícias falsas são irresistíveis… Ainda esta semana ouvi, ao meu lado — sim, às vezes oiço conversas de quem se senta ao meu lado ao almoço — um casal muito sério, muito ponderado, a discutir afincadamente a notícia de que Trump quer ficar com a Ilha Terceira por usucapião. Onde tinham lido a notícia? No Facebook, claro.

Não me interpretem mal: já devo ter acreditado em notícias tão ou mais parvas. Mas a minha boca abriu-se, o garfo caiu e olhei arregalado para o casal, que me ignorou por estar embrenhado em bizantinas discussões sobre essa agressão de Trump ao nosso país.

Como era possível acreditarem em tal disparate?

Parece que engolimos tudo o que tenha a ver com a nossa tribo e meta figuras que, por uma razão ou outra, desprezamos. Quando alguém encontra uma notícia sobre Portugal e que meta algum suposto inimigo, é ver o espírito crítico a ir pelo ralo.

E acontece o mesmo com os clubes, com os partidos… As notícias são lidas pelo lado da tribo e da necessidade de atacar os inimigos — e é difícil escapar disto. As redes sociais não criam estas tribos, mas atiram-nos açúcar em forma de notícias apetitosas, que alimentam esse mesmo tribalismo. Há por lá açúcar com as cores de todas as tribos e notícias à medida de todas as obsessões.

2. Levamos tudo a mal (e não gostamos das ideias dos outros)

As notícias absurdas do tipo «Trump vem aí conquistar-nos as ilhas» também se espalham porque é difícil dizer «olha, isto é falso» sem parecer que nos estamos a armar em espertos. No dia-a-dia, em privado, gozamos uns com os outros, brincamos com os nossos erros, rapidamente percebemos quando pisamos o risco. No Facebook, estamos a apontar o erro em público e não podemos sorrir, encolher os ombros, dizer «deixa para lá»…

Mais: nessa rede social cujo nome não vou repetir, não temos maneira de acabar a discussão com um aperto de mão, um sorriso ou uma outra conversa sobre assuntos menos complicados. Enredamo-nos em comentários atrás de comentários, como se fosse um jogo. E, claro, ninguém quer perder.

Parece que vivemos e discutimos com holofotes apontados à cabeça. Sentimo-nos num palco, com todos os amigos a ouvir, na plateia, enquanto gritamos com o nosso oponente de ocasião (embora, na maior parte das vezes, não esteja ninguém a ver).

Tudo isto é a receita para discussões intermináveis, em que ninguém dá o dedo mindinho a torcer.

Depois, claro, todos nós carregamos as nossas ideias e inclinações particulares enquanto andamos na rua — e poucas vezes as atiramos à cara dos outros. Já no Facebook (lá tive de repetir o nome), as ideias dos outros estão ali e temos de viver com este facto: às vezes, não concordamos com aquilo que os nossos bons amigos dizem. Mais: há pessoas com ideias muito diferentes das nossas. E ainda mais: há quem acredite em ideias absurdas. (Há dias em que somos nós.)

E temos o problema das certezas indignadas: quando acontece qualquer coisa que nos deixa com o coração aos saltos, como os incêndios da semana passada, apanhamos com todas as certezas do mundo e com aquela indignação tão comum «mas porque é que ninguém faz o que eu digo»?

Cansa. A sério que cansa. E todos nos cansamos uns aos outros.

3. Desistimos ainda de chegarmos ao que é bom

É precisamente por ser cansativo que muitos acabam por cair numa outra armadilha: desistir. Quantos não andam por aí que julgam ser o Facebook e tudo o que o rodeia um mundo infecto, que não vale a pena visitar?

Mas, na verdade, com um pouco de esforço, a tal rede (tal como muitas outras destas invenções que alguns desprezam e quase todos usam) dá-nos muita coisa boa.

Quando os excitados já passaram ao próximo assunto, quando os memes e as imagens e as frases compungidas já desapareceram sob o peso do novo caso do dia, é então que aparecem discussões interessantes, comentários um pouco mais bem pensados, gente que até explica as coisas, ensina, aprende, discute. Esperar por esses momentos é mais cansativo do que andar sempre na crista da onda. Essas conversas estão menos visíveis, são menos tribais, dão origem — em certos dias — a esse crime imperdoável que é haver gente que muda de opinião (mesmo que ligeiramente) perante bons argumentos e novos factos. Sim, isto existe. Só temos de estar atentos.

Nessas conversas escondidas, li e aprendi alguma coisa sobre a floresta portuguesa nesta semana terrível. Não chega para ter uma opinião que valha a pena divulgar, mas deu para ler artigos e ouvir falar de livros sobre o assunto. Chegou para desbravar algum caminho — e para ter menos certezas e menos ideias simplistas.

Então se daí partirmos para boas conversas, para leituras mais profundas e, depois, para a acção — talvez esse mundo difícil e armadilhado das redes sociais até valha a pena. E, depois, já há quem tenha aprendido as regras de etiqueta para dizer «não, o Trump não quer a Terceira». Já não é tão difícil resistir à tentação de comentar tudo. Já não é tão surpreendente ver as ideias diferentes dos outros… Devagar, aprendemos a viver com mais esta maneira de conversar, de viver, de estarmos com os outros, mesmo à distância. Embora, claro, nada substitua uma boa conversa mesmo ali em frente ao nosso amigo — e no fim um abraço.

(Publicado no Sapo 24 no dia 25 de Junho de 2017.)

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Marco Neves

6 comentários

Calma. A NET é um mundo novo, ainda não se aprendeu as suas regras de etiqueta. Depois da paranóia egóica que o Facebook estimula, virá uma nova sabedoria, para os que gostam de aprender e conviver…

Acredito que essa sabedoria já começa a aparecer aqui e ali. É como diz: é preciso ter calma. Obrigado!

O facebook é como tudo tem que ser usado com critério e espírito crítico… não será assim?
Talvez faça perder muito tempo à procura das tais pérolas que valem a pena, mas que forma extraordinária de aproximar pessoas, difundir ideias, discutir problemas, um mar de possibilidades a explorar.

Cansei-me tanto de todo o mau que rola no fb e de ser alcunhada de ignóbil e desconhecedora quando explicava assuntos que conheço de olhos fechados mas que as minhas palavras não concordavam com os demais interlocutores perfeitamente energúmenos que me afastei completamente.
Louvo os persistentes.

É original como até aqui no blog as pessoas reagiram ao assunto das redes sociais… na RPC em vez do Facebook é o WeChat, ou Weixin, que eles afirmam ser muito mais avançado.

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