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Um pescoço bem cortado

Devereux tremeu ao ouvir os passos do meirinho e do carrasco.

Enquanto era transportado para a morte, gritava:

– Eu sei onde está o tesouro!

Mas desistiu. Em breve, a sua cabeça rolaria pela terra molhada do pátio da Torre de Londres.

Limitou-se a pedir ao carrasco que fosse rápido – e decidiu informá-lo:

– Já fui amante da rainha, sabia?

O carrasco olhou para aquele homem e sentiu um calafrio. Era a primeira vez que executava alguém.

O primeiro golpe acertou no cabelo, sem beliscar a pele ao pobre conde. Devereux atirou, como se estivesse a falar com um criado nos seus tempos de riqueza:

– Ó homem, mas é assim tão difícil acertar no pescoço? Vá, despache-se que a minha vida não é isto.

Mas de repente calou-se. A lâmina do carrasco brilhava e em breve acertar-lhe-ia no pescoço. Seria rápido? Iria sentir dor? E depois? O que se seguiria?

A segunda estocada já acertou no pescoço – e a terceira separou a cabeça do amante da rainha. Naquele momento, o olhar do homem apagou-se para sempre – e para sempre se perderam as suas memórias de rainhas nuas, salteadoras esplendorosas, guerras e feitos de admirar, tesouros escondidos pelo mundo e muita vontade de aventura. Tudo acabou naquele momento – mas foram décadas duma vida bem preenchida.

Conto tudo isto porque tenho muito a agradecer a este nobre inglês. Aquele pirata inglês, enquanto esperava pela morte, contara as histórias do Tesouro de Saturno ao seu companheiro de cela. Se não o tivesse feito, eu nunca teria ouvido aquelas histórias da boca do meu avô.

O carrasco pegou pelos cabelos na cabeça de Robert Devereux, mostrou-a à assistência e gritou «God Save the Queen».

(Capítulo 25 de A Baleia Que Engoliu Um Espanhol)

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Marco Neves

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