Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

As vacas do País de Gales (e como se diz «futebol» em galês)

Desde que o meu irmão foi viver para Inglaterra, às vezes lá vamos nós visitá-lo — e aproveitamos para passear.

Numa dessas viagens, há uns cinco anos, ainda sem filhos, decidimos ir de Cambridge até ao País de Gales. Lá fui eu, o meu irmão, a Zélia e a Sofia.

Saímos de manhã, prontos para ir almoçar a Cardiff — e perdemo-nos.

Andámos entre aldeias inglesas que ninguém conhece, estradas onde nunca um carro parece ter passado, auto-estradas que iam para todo o lado menos para Gales — enfim, um delicioso labirinto britânico, que nos libertou, por fim, ao fim da tarde, a tempo de jantar em Cardiff. Acabámos por decidir lá ficar de noite.

Por esses dias, o meu irmão ainda andava a descobrir o mundo mental inglês e passou-me a viagem a descrever os estereótipos sobre os galeses: na mente de muitos ingleses, o vizinho pequenito é um canto cheio de gente obcecada com vacas.

Ri-me desses simplismos — e, claro, Cardiff é uma cidade que desmente essas ideias inglesas sobre o país.

O problema é que, fosse eu inglês preconceituoso, teria visto as minhas ideias confirmadíssimas quando cheguei ao hotel.

Porquê?

cows-1013108_640Ora, quando cheguei ao quarto, liguei a televisão ávido de encontrar a televisão local, para ouvir um pouco a língua galesa. Finalmente lá encontrei o tal canal: canal esse em que estava a dar um programa apresentado por um homem de suíças gigantescas, que discutia em galês qualquer coisa relacionada com… vacas! Pois que apontava e ria e discutia entusiasmado o que devia ser o mundo das vacas, pois estava rodeado dessas simpáticas criaturas.

Fiquei em choque e o meu irmão a rir às gargalhadas.

Logo a seguir deu um programa sobre poetas galeses, sem vacas à vista, e eu sorri um pouco. Dizem que aquele é um país de poetas. Será também um simplismo? Enfim, simplismos há em todo o lado, como sabemos — e têm sempre aquele fundo de verdade de que se alimentam as mentiras que contamos sobre os outros.

O certo é que, com vacas ou não, não percebi patavina do que diziam os tais galeses. A língua é exótica aos ouvidos portugueses.

Diga-se que, na rua, como sabemos, o que se ouve em Cardiff é inglês. O galês já se ouve pouco nas cidades, embora nos rodeie nas placas das ruas, nas estradas e nalguns livros nas montras das livrarias.

Aproveitei para comprar um livro sobre a situação social da língua (uns é com vacas, outros é com línguas, cada um na sua). Pus-me a ler. Descobri alguns aspectos curiosos da língua galesa: vivendo lado a lado com o inglês, quem protege a norma do galês tenta afastar a língua o mais possível do vizinho poderoso.

Assim, o galês, uma das línguas do Reino Unido, está estranhamente livre de anglicismos…

Repare-se, assim, na palavra para futebol em várias línguas:

  • Inglês: football
  • Português: futebol
  • Alemão: Fußball
  • Dinamarquês: fodbold (!)
  • Basco: futbol
  • Neerlandês: voetbal (esta foi-me oferecida por Fernando Venâncio, que me disse ainda que «oe» soa a «u»)
  • Francês: football
  • Galês: pêl-droed

Sim: na quarta a nossa selecção vai jogar uma boa partida de PÊL-DROED com os nossos amigos de Cymru.

Querem mais estranhos exemplos de palavras em que os galeses resistiram aos anglicismos? “Internet”, em galês, traduz-se por “rhyngrwyd“. E computador? “Cyfrifiadur“.

Sim, naquele país, até os termos informáticos parecem saídos da boca do Rei Artur.

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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6 comentários
  • Li atentamente e ri-me um bocadinho, mas o estereótipo à seria não será relacionado com vacas mas sim com ovelhas. Quem nunca ouviu a piada parva: “why do the Welsh have two holes on the toe caps of their wellies?” … há quem diga que é para a ovelha não fugir!,

    Fica a nota parva é o comentário semi-racista de quem passou por terras alheias.

  • Antônio de Castro Lopes bem que tentou substituir futebol por ludopédio, mas cardápio foi a única das suas muitas invenções que vingou. Coocorre com menu e é até mais frequente que o galicismo, no Brasil.

    Eu não sei muito o que achar dessas iniciativas. Se me parecem ridículas, vistas à distância de décadas, sei que não mo pareceriam se tivessem vingado, tal como cardápio, que sai da minha boca tão naturalmente quanto futebol.

  • Outras línguas que usam termo próprio para computador: húngaro – számítógép, turco – bilgisayar, finlandês – tietokone, checo/eslovaco počítač.

    Uma língua com termo próprio em uso para futebol: kopaná em checo, mas futbal é mais usado. E não nos esqueçamos do calcio italiano, relacionado com o coice português.

    Nós podemos usar tranquilamente computador, de pura cepa latina.

  • Fiquei mesmo com vontade de ir ao Youtube e procurar vídeos onde possa ouvir alguém a falar galês.

    Rodrigo: O que referiu acerca de Antônio de Castro Lopes (pelo acento circunflexo na letra ‘o’, suponho que tenha sido brasileiro?) parece-me ser uma ideia mesmo muto interessante.
    Estou num dispositivo móvel e por isso não me é possível ir já fazer a respetiva pesquisa, mas assim que ‘assentar poiso’, irei logo satisfazer a curiosidade…
    Obrigado.

    • Caro Vítor,

      Sim, era brasileiro. Inventou também ludâmbulo (turista), ancenúbio (nuance), convescote (piquenique), lucivelo (abajur), castelete (chalé) etc.

      Encontra aqui um pequeno texto sobre ele, redigido por um jornalista e escritor brasileiro: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/curiosidades-etimologicas/convescote-nao-tem-cardapio

      O tom é jocoso, como verá. Tenho mais respeito por Castro Lopes e penso que, se é verdade que o tempo lava os estrangeirismos, é também verdade que a resistência tempestiva impede a sua fixação, como o prova chamarem os portugueses rato ao que chamamos mouse.

      Algum português acha ridículo dizer rato em vez de mouse? Não, acham-no normal, como também o acharíamos os brasileiros se houvéssemos oposto resistência ao anglicismo na hora certa.

      Eu, como o Marco, tenho uma visão mais arejada da língua, mas vejo com alguma reserva a ideia de que o uso faça a norma: professores podem impedir a normalização de barbarismos facilmente substituíveis, se houver concerto de esforços para isto.

      • Muito obrigado pelo excelente comentário! Em relação ao que diz no fim, sim, concordo: podemos intervir na língua no que toca ao que nos aparece de novo (embora nunca haja garantias de que determinada palavra “pegue”). O que não me parece frutífero é lutar contra aquilo que já se impôs, que já é transmitido a novas gerações. Ou seja, podendo optar, opto por “rato” (e julgo que os professores têm, de facto, uma função importantíssima neste ponto). Felizmente, foi o que fizemos por cá e ninguém diz “mouse”. Mas quando já não há opção (por exemplo, “futebol” ou “dossier”), parece-me que não vale a pena andar a batalhar para recuperar palavras próprias. (Mas, e porque gosto de complicar, há estrangeirismo que pegam e, depois, desaparecem, como “corner” e “offside”.)

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