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Línguas do mundo

Viagem às línguas da final do Mundial

Há uns dias, prometi a mim mesmo: iria escrever um texto sobre as línguas da final do Mundial. Estava descansado: afinal, o mais provável seria um duelo entre ingleses e franceses. Podia falar da velha ligação entre as duas línguas, da história milenar que levou o inglês a ter tanto francês lá dentro que às vezes parece uma língua latina. Se a Bélgica se intrometesse, enfim, não era difícil: a Bélgica é dos países linguisticamente mais interessantes da Europa…

Pois, calhou-me a Croácia e a França! O que liga as duas línguas?

Bem, antes de avançar, pensemos durante uns segundos no jogo para apurar o 3.º e 4.º lugares. É o jogo mais triste do Mundial: as equipas já foram eliminadas, mas têm de jogar. No fim, ganham uma medalha de bronze e sorriem com muito amarelo na boca. Neste caso, e já que falamos de línguas, gostava só de apontar para um facto curioso: parece que, em campo, vão falar todos em inglês. Isto porque a selecção belga usa o inglês como língua habitual, já que ter de escolher entre o francês e o neerlandês poderia levar a batatada. Assim, assumem a língua da ilha que fica ali ao largo e pronto. Ninguém se importa: os jogadores belgas jogam quase todos nessa ilha.

Adiante. Domingo lá teremos a grande final. Um dos espectáculos mais vistos no mundo. O jogo que define o campeão do desporto mais amado neste planeta e no outro. Mesmo quem não gosta não terá maneira de evitar saber qual será o país campeão. Explodirá Paris em festa, exorcizando os seus éderes? Ou será que a taça irá para um país que, enquanto Estado independente, tem menos anos do que eu?

Veremos. Antes disso, uma viagem por três palavras, num jogo entre o croata e o francês:

1. «Le football»

O francês dá o pontapé de saída. Sim, começamos pelo «football». É assim a palavra na língua dos gauleses, sem mudanças gráficas neste século e um tanto que o desporto já leva desde que saiu lá das ilhas.

Claro que a pronúncia é à francesa — o que me faz pensar sempre no velho ‘Allo ‘Allo quando oiço um francês dizer «le football».

Uma curiosidade. O desporto é de origem britânica, mas a FIFA tem um nome francês: «Fédération internationale de football association». «Football association» é o nome francês que decalca o nome original do desporto em inglês: «association football». E continuando com a bola a rolar, digo que a palavra «association» deu origem, nas universidades inglesas, ao nome alternativo do desporto: «soccer». Hoje em dia, esse é o nome típico do desporto nos E.U.A., mas a sua origem é bem britânica…

Passemos a bola à bela língua croata…

2. «Karta»

Por lá, «mapa» pode dizer-se «karta». Os dois países têm um mapa bastante característico: a França é um hexágono que muitos de nós aprendemos na escola. Já a Croácia parece o Pacman a comer a Bósnia-Herzegovina:

Note-se que «Croácia» é «Hrvatska». O nome da língua, por lá, é «hrvatski jezik» («jezik» é língua, pois então). Podíamos agora estar aqui horas a falar do nome da língua. Porquê? Porque saber se o croata e o sérvio são a mesma língua é uma interessante discussão que nos levaria por outros caminhos.

Concentremo-nos no mapa. Se olharmos com atenção, vemos como Dubrovnik está ali num pedaço de Croácia separado do resto do país por um corredor bósnio (em Neum). A costa croata é, ali, muito estreita: o país esvai-se e quase não chega a «Crna Gora», o nome montenegrino de «Montenegro» (neste mapa, o Montenegro ainda não era um país independente e, por lá, quase toda a gente juraria que a língua era o sérvio — ou talvez o sérvio-croata). Enfim, com tantos países criados nas últimas décadas e fronteiras tão imbricadas, é normal que seja difícil saber onde começa uma língua e acaba outra. O giro é pensar que mesmo numa das fronteiras mais antigas da Europa (o Rio Minho), o problema é o mesmo: há quem não saiba onde acaba o galego e começa o português. (Peço desculpa. Tenho este problema: a mão escapa-me para assuntos mais próximos. Se Portugal tivesse ido à final, já sabemos qual teria sido o assunto…)

3. «Gravata»

Bem, não estamos na final, mas alguém deu um grande chuto e a bola veio parar até cá. Uma palavra portuguesa aqui? Porquê? Por isto: o nome desta peça de vestuário liga as duas selecções que vão jogar a final.

A palavra «gravata» vem do francês «cravate». Não nos admiremos: fomos buscar tudo e o seu contrário à língua do Hexágono. O curioso é pensar que os franceses foram buscar a sua «cravate» directamente ao «hrvat» eslavo (lembremo-nos de «Hrvatska») — ou talvez tenha passado pelo alemão (esses já não fazem parte deste campeonato). Os caminhos das palavras são difíceis de descortinar, mas uma coisa parece certa: na história da língua francesa, há uma ligação entre «cravate» e «croate».

Mas o que tem a gravata a ver com os croatas? Parece que havia, sob o rei Luís XIII, um regimento de cavalaria formado por croatas ao serviço do monarca francês. As manigâncias da moda militar puseram ao pescoço desses croatas uma espécie de cachecol curto, parecido com uma… gravata. Assim, na língua dos franceses, passámos dos «croates» às «cravates» que esses «croates» tinham ao pescoço. As «cravates», todas lampeiras, atravessaram os Pirenéus, puseram-se à estrada pela Espanha fora — onde algumas assentaram arraiais com o nome «corbatas» — e vieram aterrar na nossa língua na forma de «gravatas».

Se alguém desconfiar desta transformação de «c» em «g», repare que os sons são extraordinariamente parecidos. A língua faz os mesmos movimentos: para usar os termos técnicos, estamos a falar de duas consoantes oclusivas velares. A diferença está na vibração das cordas vocais, um pormenor que deve ter enganado os portugueses que ouviram «cravate» pela primeira vez.


E pronto: foram só três palavras, mas já deu para viajar um pouco pelas duas línguas em confronto no domingo — e ainda demos uma volta pelas cordas vocais dos portugueses. 

Antes de terminar, gostava de recordar este outro texto deste blogue em que falei duma antiga língua latina falada no que hoje é a costa da Croácia: «O que perdemos quando morre uma língua?». Aproveito para anunciar que o texto foi agora publicado em inglês na novíssima revista Language Travels, onde irão aparecer alguns dos meus artigos traduzidos para a língua do jogo de sábado… 

E agora: que ganhe o melhor!

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Marco Neves

2 comentários

O leitor Luciano Eduardo de Oliveira avisou-me de um erro na versão original deste artigo: a palavra «Karta» tinha um acento que apenas aparece em dicionários e não em textos normais. Serve o tal acento para indicar o tom da sílaba — sim, o croata também tem tons! Fica o agradecimento e a pista para outra viagem à procura das línguas que usam os tons para distinguir significados.

Quando leio o seu blogue pasmo com o mundo por detrás das palavras. A história dos tempos na língua, ou as voltas da linguagem ao longo do tempo, é coisa surpreendente.

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