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Línguas do mundo

Viagem por cinco línguas até à minha sobrinha

Há três dias, nasceu a minha sobrinha mais nova, a Olivia — nasceu em Cambridge e, por isso, não pude correr a ir visitá-la, como me apetecia. A vida é assim. Em compensação, faço uma daquelas viagens pelas palavras que já vão sendo habituais por estas paragens.

Comecemos então em Lisboa e acabemos em Cambridge. Quais as formas da palavra «sobrinha» que encontramos pelo caminho?

Antes de partirmos, olhemos com atenção para a palavra na nossa própria língua. Diga o leitor, devagar: «sobrinha». Parece um diminutivo, mas não é. É como «farinha», «cozinha» e outras quantas palavras. Só que, neste caso, o «inha» de «sobrinha», não sendo um diminutivo, mantém o ar de carinho… Mas quando queremos mesmo amaciar a palavra, diremos «sobrinhinha»? Raramente, que este «nh» parece não gostar muito de repetições… Enfim, a língua lá nos dá outras ferramentas: «a minha linda sobrinha», por exemplo.

Avancemos, que até chegar a Cambridge ainda há muito que andar (sei-o bem, que já fiz a viagem mesmo a sério; aventuras que ficam para outro dia).

«Sobrina»

A nossa carripana imaginária avança pela península. Já passámos Vilar Formoso. Já passámos Salamanca (a paragem valeu bem a pena). Estamos na zona de Burgos, mas não paramos, que se faz tarde.

Percebemos, no entanto, que por estas paragens bem castelhanas a palavra se diz «sobrina» — ou seja, a língua vizinha obriga os seus falantes a abrir mais as vogais e, chegados ao princípio da última sílaba, descem um pouco a língua em comparação com o som à portuguesa. Experimente o leitor: a diferença entre «nh» (ou «ñ») e «n» é a posição da língua em relação aos dentes. O «nh» é palatal, ou seja, a língua encosta-se ao palato, lá bem em cima. Já o «n» encosta a língua aos dentes. Sim, os sons da língua não são letras: são vibrações do ar ao passar pelos órgãos na garganta e na boca — a maneira como posicionamos esses órgãos é que origina as diferenças de som necessárias para criar frases com algum sentido…

Já tínhamos descoberto este truque há muito tempo quando inventámos as letras — que são rabiscos para prender as palavras ao papel. Ora, é precisamente por não haver o tal som palatal «nh» no latim que as línguas que dele descendem tiveram de se arranjar sozinhas ao passar os sons para a escrita: nós enfiámos ali um «h» para obrigar a língua a subir; os franceses têm o «gn»; já os espanhóis duplicaram o «n» — com o tempo, o segundo «n» começou a ser escrito por cima do primeiro até se transformar numa pequena onda que nós conhecemos como til. Foi assim que nasceu essa letra tão espanhola: o «ñ» — letra que, como vimos, não existe em «sobrina». A língua desce, pois então.

«Iloba»

A língua desce e nós subimos pelo mapa — já chegámos ao coração do território onde se fala o basco. Por estes lados, a palavra «sobrinho» não tem género: tanto se dá que seja um rapaz ou uma rapariga. Tem, no entanto, muitos casos (e temo perder leitores com esta tabela, que veio desta página, mas é um risco que estou disposto a correr):

Muitos portugueses terão aprendido latim ou alemão, línguas com casos. Até o português ainda conserva os casos nalguns pronomes. Se eu digo «Eu pinto-o.» ou «Ele pinta-me.», posso estar a falar das mesmas pessoas nas duas frases, mas na primeira o «eu» está no nominativo e na segunda está no acusativo. A palavra muda dependendo da função sintáctica que ocupa na frase.

Ou seja, línguas com casos há muitas. Mas o basco… O basco é outra coisa: tem estes casos todos que aparecem ali em cima e ainda por cima é aquilo que os linguistas chamam de língua ergativa: o que significa isto? Que o mesmo nome tem uma forma base quando é sujeito de um verbo intransitivo (a forma absolutiva) e uma forma diferente no caso de ser sujeito de um verbo transitivo (a forma ergativa). Neste último caso, o complemento directo terá a forma absolutiva.

É confuso? Vamos com exemplos: na frase «A sobrinha cresceu.», a tradução de sobrinha será «iloba»; já na frase «A sobrinha deu-me um livro.», a tradução de «sobrinha» será «ilobak» (é sujeito de um verbo transitivo) e a palavra livro, essa sim, ficará na forma mais simples. Dois exemplos com frases bascas (que fui buscar ao artigo da Wikipédia sobre este assunto):

  • Martin etorri da. > O Martin chegou.
  • Martinek Diego ikusi du. > O Martin viu o Diego.

Ou seja, a mesma palavra tem formas diferentes dependendo da transitividade do verbo. Eis uma pequena amostra da estranheza da língua basca para os nossos cérebros habituados às línguas latinas…

E, no entanto, esta língua assusta menos do que pensamos: das línguas não castelhanas de Espanha, é a única que tem subido em número de falantes nos últimos anos.

«Neboda»

Por esta altura, o leitor deve estar aflito, a querer respirar nas águas conhecidas das línguas latinas. Pois, faço-lhe a vontade: chegámos, depois de passar a fronteira, à França. Mas não pensemos já na famosíssima língua francesa: a França é um país bem menos uniforme do que nos querem fazer crer. No que toca às línguas, temos, por exemplo, o occitano, língua bem conhecida do tempo dos trovadores e a língua, aliás, em que escrevia um dos primeiros galardoados com o Prémio Nobel da Literatura: Frédéric Mistral.

Talvez o leitor se lembre de ouvir falar nas aulas de francês das «langues d’oc»… Sim, é a língua — ou grupo de línguas — a que também podemos chamar de occitano (o tal «oc» está no início: é a palavra para «sim»).

O occitano é ainda falado em muitas zonas de França — mas apenas é oficial fora de França, num cantinho da Catalunha chamado Vale de Aran, que tem três (!) línguas oficiais: castelhano, catalão e aranês (o nome do occitano por aquelas bandas).

Esta «neboda» occitana (o masculino é «nebot») aparece também no catalão. Para aqueles que ficam confundidos com essa língua e ora dizem que parece castelhano sem algumas letras ou francês à espanhola, fiquem portanto a saber: a língua mais próxima do catalão é o occitano. Será por muito pouco que não podemos dizer que o catalão é uma das «langues d’oc». Curiosamente, algo que lhe falta para ser uma verdadeira «langue d’oc» é a própria palavra «oc» para dizer «sim».

«Nièce»

Nesta viagem imaginária até Cambridge, temos uma catrefada de quilómetros para fazer no território da língua francesa. Depois, claro, chegamos ao Canal da Mancha, onde veremos, do outro lado, a brancura das falésias de Dover (isto se não nos enfiarmos num comboio que passa por baixo do mar).

Embora o que me tenha trazido aqui tenha sido a palavra «sobrinha», não posso deixar de pensar na maneira como há palavras que evocam imagens, poemas, certas ideias fugidias — mas só numa certa língua… Se eu disser «Falésias de Dover», estarei a dizer muito pouco. Se eu disser «Cliffs of Dover», estarei a dizer muito mais. Não me alongo nestes pensamentos, certamente provocados pelas brumas da Mancha a rodearem-me a cabeça, enquanto espero a chegada à ilha. Peço apenas que o leitor guarde a palavra francesa na cabeça: «nièce». É que, na escrita, é mesmo parecida com a prima inglesa…

«Niece»

Ora, a minha sobrinha, em inglês, é «my niece». Donde vem esta palavra? Diz-nos a etimologia que a palavra, andando para trás no tempo, vem de «nece» no inglês médio, que por sua vez veio do «nece» do francês antigo, que por sua vez tinha vindo do latim vulgar «*neptia» — palavra essa que foi beber à forma indo-europeia «*nepot-».

O tal francês antigo veio substituir no inglês a forma germânica «nifte» — o inglês é uma língua germânica invadida sem dó nem piedade por vocabulário à latina. Esta invasão aconteceu de várias maneiras — uma delas foi o prestígio do francês normando durante bastante tempo. Os nobres falavam francês e o povo falava inglês, sem ninguém que cuidasse de tal língua. Ninguém cuidou da língua e ela aproveitou para saltitar pelo tempo, mudando sem vergonha e engolindo palavras sem pudor. No fim, quando o inglês se tornou a língua da corte, era uma língua bem mudada, bem redondinha, com muitas palavras latinas no bucho.

Às vezes entretenho-me a pensar: nesses séculos em que o inglês era apenas o falar do povo e alguém que quisesse ser alguém tinha de falar francês, se chegássemos ao pé dum camponês ali como quem vai para Essex e lhe disséssemos que o seu linguajar viria a ser ensinado até nas escolas de França, o homem não acreditaria. Que nos sirva de lição: ninguém faz a mínima ideia de qual será a paisagem linguística daqui a uns 700 anos. O mais desprezado dos dialectos pode vir a ser a grande língua do futuro.

Volte o leitor atrás: repare nos asteriscos que usei há três parágrafos: «*neptia» e «*nepot». Estes asteriscos indicam que são palavras reconstruídas. Não temos forma de garantir que eram estas as palavras exactas: não sobrou nenhum registo escrito… O proto-indo-europeu, a língua que deu origem à grande maioria das línguas da Europa, é hoje conhecido através da comparação muito atenta e sistemática das várias línguas da família — mas não há um único registo escrito de tal língua.

Para terminar, gostava só de apontar a atenção do leitor para o tal «*nepot-» reconstruído. Onde já o vimos? Bem, a palavra occitana (e catalã) está extraordinariamente próxima dessa forma antiquíssima — e, vejam lá bem as voltas que as línguas dão, ainda vemos esta forma na nossa palavra «nepotismo», a arte de dar primazia aos sobrinhos e demais familiares quando não devemos.

A viagem foi longa, mas valeu a pena: foi em honra da Olivia, que agora está a dar os primeiros passos — ela que é «*nepot-» minha e da Zélia e «*dʰugh₂tḗr» do Diogo e da Sofia. Repare-se como a forma reconstruída dessa antiquíssima língua desaparecida lembra a «daughter» inglesa, principalmente por causa do «gh» que, no inglês, é apenas um fantasma dum som desaparecido. (Já a nossa palavra «filha» chegou até nós por outros caminhos, que isto das línguas nunca é linear.)

E assim viajámos até Cambridge e, de lá, até esse passado distante, para conhecermos algumas palavras duma língua falada há uns 5000 anos — foi a minha estranha maneira de dizer «olá» à Olivia, que agora vive os seus primeiros dias e, daqui a uns meses, dirá a primeira palavra. Será *méh₂tēr?

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Marco Neves

7 comentários

Tua apreciação leva-me a um questionamento interno: Se o Português deste lado do Atlântico (Brasil) é a língua falada em Portugal nos Quinhentos, como de fato alguns linguistas sustentam, então as palavras Mamãe e Papai (aqui faladas) eram as que se falavam pelo Velho Mundo. Que caminhos tomaram lá (que não tomaram cá) para dar nas de hoje em dia: Papá e Mamá?
P.S. : não vale sugerir buscar no Google. Obrigado

É sempre um prazer lê-lo e acompanhá-lo nas suas viagens. Quanto enriquecimento já me deu e quanto conhecimento também!
Muito obrigada.

Gostei muito, pois, para além do ensinamento, revela um grande amor à sua nova sobrinha! Parabéns!

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