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Línguas do mundo

Viagem do português ao maltês a bordo da palavra «praia»

Viajemos de Portugal a Malta — teremos muitas praias onde mergulhar e muito para descobrir… Encontraremos até um pedaço do Algarve escondido numa palavra maltesa! Vamos, então, a mais um mergulho nas belas línguas da Europa.

Entre «praias» e «playas»

Desta vez, só para não me acusarem de andar a bater sempre na mesma tecla, não peço ao leitor que passe a fronteira lá no Norte. Avancemos, sem medo, para Sul, até ao Algarve. Tem muita gente por estes dias? Imagino que sim.

Ora, ali em Vila Real de Santo António temos praias, não é verdade? Passemos o rio a nado ou de barco — ou só pela imaginação. Do outro lado, o que temos? Temos «playas», claro está, ditas com um belo sotaque andaluz.

São as chamadas cócegas das línguas latinas: muito fica igual, mas o que muda é interessantíssimo. E, neste caso, digo que o interessante não é o «y» — usarmos nós um «i» e os nossos amigos andaluzes um «y» é apenas uma convenção ortográfica. Afinal, em português de há uns séculos também o usávamos na palavra «praya», como vimos na estrofe d’Os Lusíadas que mostrei há uns dias.

O interessante das diferenças entre «praia» e «playa» é aquele «r» em vez do «l». Em muitas palavras, os galegos e os portugueses foram transformando o «l» latino num «r» ao longo dos séculos. Já os nossos vizinhos castelhanos mantiveram o «l». Isto acontece na «praia», sim, mas também acontece na «praça» — e no «prazer» e em muitas outras palavras (e não só com o «pl»): «branco», «brasão»…— e tantas, tantas outras.

Curiosamente, o som «pl» por vezes transformou-se em «pr» e noutras em «ch» (na «chuva», por exemplo). Outras vezes, por via de a palavra ter sido importada muito depois, manteve-se «pl» («pluviosidade», por exemplo).

Por outro lado, muitos brasileiros notam que alguns conterrâneos pronunciam um «r» onde na escrita está um «l» — fenómeno que é considerado um erro. Falo, por exemplo, da transformação de «blusa» em «brusa» (exemplo que fui buscar aqui). É um erro de acordo com a norma da língua — mas não deixa de parecer a continuação para lá do Atlântico desse fenómeno que, há muitos séculos, foi uma das maneiras como a nossa língua marcou as distâncias em relação à vizinha castelhana. Não há nada que obrigue a que um fenómeno de mudança linguística pare a certa altura — os desígnios da língua são insondáveis. A norma, claro, tenta domar a língua e acalmar a sua fúria de mudar. Consegue, umas quantas vezes. Outras vezes, nem por isso.

Mas avancemos! Estamos de férias, apetece viajar…

Uma terra entre «playas» e «platjes»

Ora, se seguirmos pela costa espanhola fora, vamos passando por uma série interminável de praias. A certa altura, passamos por Gibraltar, que tem as suas peculiaridades linguísticas — e algumas praias de nome inglêsMas nem perdemos tempo naquela que é uma das fronteiras mais pequenas do mundo. Avançamos pela Andaluzia, sem medo. O Mar Mediterrâneo estende-se a brilhar pelo nosso horizonte.

A viagem demora, mas como o nosso combustível é a imaginação, podemos acelerar sem medo. A certa altura, deixamos a Andaluzia e chegamos a Múrcia — e, pouco depois, vemos a placa que nos anuncia a chegada à Comunidade Valenciana. Pois bem, quando viajamos entre Múrcia e Alicante, a certa altura o nome das praias — pelo menos nalgumas placas — passa a ter «platja» no nome. Já o plural é «platjes».

O novo nome da praia aparece às vezes nas placas, noutras mantém-se a castelhana «playa» — a fronteira entre o castelhano e o catalão é bem diferente da fronteira entre o português e o castelhano. Os dois estados afadigaram-se a marcar de forma indelével a mudança linguística na paisagem. Dum lado, é tudo «praias». Do outro, é tudo «playas». Pois aqui, no sul da região de Valência, a fronteira entre o castelhano e o catalão não é nada clara. Temos uma situação complicada. A língua em que o nome da praia aparece depende de quem montou a placa… (Já tentei descrever um pouco a situação que vemos nas placas das estradas neste artigo.)

O Google atrapalhado entre «playa» e «platja» na zona de La Vila Joiosa.

Já na boca das pessoas, o valenciano (o nome que o catalão tem por estas paragens) é pouco usado tão a sul. Teremos de subir para norte e sair das cidades para ser fácil ouvir os valencianos a falar outra coisa que não castelhano.

Bem, mas olhemos para o plural de praias em catalão: «platjes». Como se lê isto? Se perguntarmos a um barcelonês, aquele último «e» é lido como um «a». Mas a pronúncia varia conforme a região onde se fala a língua… Os valencianos tendem a pronunciar aquele «e» como «e».

Este «e» transformado em «a» é estranho? Ora, se repararmos, os portugueses também lêem alguns «e» como se fossem «a». Pensemos em «coelho», por exemplo. O leitor garante-me que lê ali um «e»? Acredito. Mas experimente isto: leia em sequência «meia» e «mâia»… Nota alguma diferença? (Se for brasileiro, acredito que note…)

Entre «platjes», «plajas» e «spiagge»

Lancemos a nossa imaginação ao mar e rumemos à Sardenha. Surpresa: se o catalão aparece de mansinho, sem se notar, quando viajamos por Espanha, se nos fizermos ao mar e aportarmos numa terra italiana, ainda encontraremos falantes dessa língua. Sim: há uma terra italiana onde se fala o catalão. Hoje em dia, o seu uso é cada vez mais raro — mas não desapareceu. A terra chama-se, em catalão, «Alguer», em sardo «Alighera» e, em italiano, «Alghero».

Porquê esta anomalia na geografia das línguas? Isso implicaria falar um pouco da História do Mediterrâneo — digamos apenas que a História da Coroa de Aragão (a colecção de reinos e principados que, durante séculos, teve Barcelona como cidade mais importante) não é hoje tão conhecida como outras histórias… Mas avancemos, que isto hoje é viagem de praia.

Para o leitor que tem curiosidade em ouvir um pouco do catalão da Sardenha, deixo aqui um catalão à procura de falantes da sua língua pelas ruas de Alguer (é parte dum documentário catalão sobre o assunto):

Ora, a Sardenha oferece muito mais a quem por lá viaje com os ouvidos abertos às línguas na paisagem. É por lá que se fala o sardo, uma das línguas latinas de que nos esquecemos muitas vezes. O italiano está a substitui-lo entre as novas gerações, num fenómeno que encontramos na maioria dos territórios onde se falam línguas minoritárias. Fala-se menos, mas ainda lá está, bem presente nas conversas de café e também nas placas da rua — e não se pense que não há literatura em sardo ou que a língua não é reconhecida oficialmente.

O sardo é uma língua curiosa: é a língua que liga pelo mar as línguas ibéricas ao italiano (por terra essa ligação faz-se pelo francês e pelo occitano). Reparemos no nome da praia: «plaja». E no plural? «Plajas», o que parece naturalíssimo, mas já parecerá um pouco mais curioso se soubermos que, em italiano, o plural não se faz com «s».

Por outro lado, os artigos definidos desta língua são «su», «sa», «sos», «sas». Assim, «a praia» é «sa plaja». Onde é que isto é uma ligação com as línguas ibéricas? Bem, no dialecto do catalão falado nas Ilhas Baleares, os artigos também são assim, salgados… «A praia», em catalão balear, é «sa platja» — diga-se que, na escola, as crianças baleares aprendem a forma normativa, ou seja, «la platja».

Bem, e como soa a língua sarda? Aqui está um vídeo publicitário sobre a língua, com legendas em italiano. Para os ouvidos portugueses, o ritmo e a entoação soam a italiano — é o mesmo fenómeno que nos dificulta a percepção das várias línguas de Espanha. Mas oiça o leitor com atenção e compare com o que aparece nas legendas. Verá que está perante a «limba sarda»:

O estranho «s» da praia italiana

E em italiano, afinal, como é o nome da praia? A praia ganha ali um «s» inicial estranho… A palavra, no singular, é «spiaggia» (e no plural é «spiagge» — lá está, o plural agora já não é com o nosso conhecido «s»).

Ora, mas donde vem o tal «s» de «spiaggia»? Se fosse só «piaggia», percebíamos melhor a ligação à «plaja» sarda, à «platja» catalã, à «playa» castelhana, à «praia» galega e portuguesa… Dizem-nos alguns dicionários que aquele «s» é um prefixo de intensificação. Mas porquê? Não sei — mas concordo que uma praia intensa é uma boa descrição de algumas praias italianas…

Mas este é um prefixo peculiar. É um prefixo de intensificação, mas também pode ser usado para inverter o significado da palavra, como em «sfatto», que significa «desfeito». (O prefixo tem mais uns quantos significados — podemos encontrar alguns aqui.)

Um prefixo que serve para intensificar ou para inverter o sentido dependendo da palavra?… Muito confuso? Ora, temos o mesmo prefixo! No nosso caso, é «des». Pode intensificar em «desinquietar» ou inverter em «desfazer»…

Tudo depende da palavra — e, para dizer a verdade, também do registo. No registo popular, é um prefixo muito usado para intensificar a palavra, como em «deslargar» — um uso que pode ser um pouco arriscado na escrita (sei-o bem). No entanto, longe de ser um erro (é apenas um uso característico de certos registos e não de outros), este «des» intensificador consegue ser bastante subtil. Por exemplo: se o usarmos com a palavra «trocar», o sentido torna-se muito concreto: trocar uma nota por moedas mais pequenas… Quem diria que um prefixo tão informal pode dar um sentido tão rigoroso a uma palavra?

Bem, são tudo conversas interessantes, mas agora o que apetece é um mergulho, não é? Peço ao leitor um pouco mais de paciência. Temos ainda uma paragem. A partir da Sardenha, podíamos ir a muitos sítios — saltar para a bota de Itália, passear pelo Adriático, pensar nas praias gregas… Mas rumemos antes a um pequeníssimo país perdido no meio do Mediterrâneo…

«Xatt il-baħar»: palavras árabes em praias europeias

Convido então o leitor a rumar à última paragem da nossa viagem pelas praias do Mediterrâneo… Malta!

Em Malta, ali a sul, a praia chama-se assim: «xatt il-baħar».

Donde vem esta expressão tão diferente das outras praias do Mediterrâneo? Bem, se lhe disser que, em árabe, «costa» é «šaṭṭ» e «mar» é «baḥr», talvez o significado se torne mais claro.

Ah! Aquele «il-» ali no meio tem muito que ver com o famoso «al» do árabe — que também existe no início de tantas palavras portuguesas, a começar pelo Algarve…

O maltês é uma língua especial: não só a sua ortografia tem uns quantos símbolos que não encontramos em mais lado nenhum deste continente (como o «ħ» lá pelo meio da praia), como é a única língua semítica da Europa, ou seja, uma língua irmã do árabe e do hebraico. Na verdade, tem uma ligação estreitíssima ao árabe tunisino — o vocabulário é que foi beber muito ao italiano.

Se o leitor se encontrar nessa ilha (onde também nos podemos entender em inglês), procure ver placas nesta língua — e se quiser mandar-me umas fotos para publicar aqui, ficaria muito agradecido.

Para ficar a conhecer o aspecto daquela que é uma das línguas oficiais da União Europeia, deixo aqui o início do artigo da Wikipédia maltesa sobre o próprio país:

Malta, magħrufa uffiċjalment bħala r-Repubblika ta’ Malta, hija repubblika konstituzzjonali żviluppata Ewropew fi ħdan l-Unjoni Ewropea. Il-pajjiż ikkonsisti minn arċipelagu ta’ seba’ gżejjer li jinsabu fil-Baħar Mediterran, fl-Ewropa t’Isfel, 93 km mill-kosta ta’ Sqallija (l-Italja), 288 km fil-Lvant tat-Tuneżija u 300 km fit-Tramuntana tal-Libja. Dawn il-gżejjer igawdu minn klima Mediterranja.

Faz-lhe impressão esta misturada? Ora, não é a primeira nem a última língua a ser criada através da mistura sem vergonha de duas outras línguas. Até o inglês é assim: uma base anglo-saxónica com uma catrefa de palavras de origem latina (falaremos disso noutro dia).

Agora, a navegação podia continuar. Se rumássemos à Grécia, saberíamos que a praia grega é «αμμουδιά» [ammoudiá] (entre outras) — um pouco mais de mar e ficaríamos a saber que a praia turca é «kıyı» (também entre outras palavras). Com essas duas praias, discutiríamos a difícil situação linguística (e política…) de Chipre. Mas chega: o que apetece agora é mergulhar no mar, não é? Mergulhemos, pois…

Boa praia!

NOTAS
  1. Uma achega que me foi enviada agora mesmo por Luciano Eduardo de Oliveira, outro apaixonado pelas palavras: «Além de “kıyı”, o turco também usa, e muito, o galicismo “plaj”, em que o “j” se lê como em português e francês. Esta raiz, por sinal, também se usa nas línguas eslavas: “pláž” em checo e eslovaco e “plaża” em polaco, por exemplo. E em romeno: “plajă”, com “j” à portuguesa. Bom mergulho!»
  2. António Paiva chamou-me a atenção nos comentários para a necessidade de deixar alguma indicação sobre a pronúncia das palavras noutros alfabetos ou com caracteres diferentes dos nossos. Adicionei a transliteração do grego e deixo aqui dois artigos úteis: um artigo deste blogue sobre como pronunciar o i sem pinta do turco e um artigo do Omniglot sobre a pronúncia do maltês. A Wikipédia portuguesa também descreve os sons do maltês.

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Marco Neves

5 comentários

Quando escreve esses nomes em grego ou outros alfabetos diferentes do nosso ou com letras que se leem de modo diferente do português poderia pôr entre parêntesis a pronúncia aproximada no nosso alfabeto para termos uma ideia do som dessas palavras. Sem essa pronúncia aproximada a ortografia não nos diz nada.

Na Galiza hai muita praia chamada de Area, de Area Grande, de Arealonga… A praia dos meus anos felizes, a Madalena de Cabanas, é O Areal. Há casos semelhantes nas outras línguas latinas?

O maltês realmente é uma mistura linguística interessante. Esse texto faz me lembrar do papeamento, a língua falada no Caribe sul americano , onde estive há alguns anos . Português , espanhol , inglês e holandês misturam-se para formar uma língua singular , como o maltês !

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