Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Viagem por 7 beijos em 7 línguas

Fazemos uma viagem por várias línguas a partir de um beijo antigo.

Os amantes de Ain Sakhri

Os amantes de Ain Sakhri. Foto por User:geni. Permissões: GFDL CC-BY-SA

O primeiro beijo desta viagem é uma pequena escultura com 11 000 anos. Foi criada antes da escrita da Suméria, antes dos faraós do Egipto, antes da Bíblia, numa época em que começávamos a dar os primeiros passos na agricultura — precisamente na zona onde dávamos esses passos.

Foi encontrada perto de Belém, numa gruta de Ain Sakhri, e está hoje no Museu Britânico.

Na perspectiva da foto vemos um abraço, mas se virarmos a escultura temos surpresas…

Aparece-nos, à vez, um pénis, uma vagina, um par de mamas e ainda (como se não bastasse) dois testículos. É só ir virando este brinquedo antigo… Tem 11 000 anos, mas parece saído da imaginação febril de um adolescente (o que talvez até seja verdade).

A estátua é um comovente abraço — e uma antiquíssima representação do acto sexual e dos órgãos sexuais.

Sabe-se pouco sobre quem criou a escultura ou para que serviria. Foi encontrada entre objectos domésticos: era qualquer coisa que estava na casa de alguém. Talvez fosse um objecto religioso, para um ritual de fertilidade. Talvez não passasse de uma brincadeira para divertir os vizinhos e amigos.

Imagino o que pensarão, daqui a 11 000 anos, arqueólogos que encontrem uma qualquer parede de uma cidade antiga com uma obscenidade lá rabiscada em graffiti. Ficarão tão fascinados como nós?

Lá fascinado fiquei… Encontrei a estátua pela primeira vez no livro A History of the World in 100 Objects, de Neil MacGregor. (Fica a ideia de leitura.) Convido ainda a ouvir o episódio de rádio da BBC sobre a estátua, num programa que deu origem ao livro referido.

E agora, os 7 beijos em 7 línguas…

Natufiano. Começamos no momento em que a estátua foi criada, perto de Belém. Que língua falariam os criadores da estátua? A sua cultura é hoje chamada «cultura natufiana». Foi das primeiras culturas a desenvolver a agricultura, ainda de forma incipiente. Não fazemos ideia que língua falariam. Especula-se que poderiam falar uma língua que veio a dar origem às línguas semíticas e indo-europeias, ou talvez apenas às línguas semíticas, mas pouco sabemos de concreto. No entanto, não é difícil imaginar que teriam palavras para beijo, amor, sexo — e um palavrão para cada um dos órgãos representados na estátua.

Egípcio. Atravessamos o Sinai e chegamos ao Egipto. Na língua dos hieróglifos, a mesma palavra servia para «beijar» e «cheirar». Era algo como /san/. Poderá ser coincidência, mas uma das razões normalmente apontadas para a existência do beijo entre os humanos é a necessidade de cheirar os possíveis parceiros… Por isso, aliás, nos preocupamos tanto com o hálito. O certo é que é um hábito que não partilhamos com outros animais — e parece nem ser universal entre os seres humanos. Ainda hoje, há culturas de caçadores-recolectores em que as pessoas não se beijam na boca.

Árabe. Ainda no Egipto, mas no presente, encontramos a palavra árabe «bawsa» para beijo. Em muitas línguas, o beijo começa por /b/. Poderá ter havido empréstimos, origem comum — ou estarmos perante um efeito de onomatopeia. Afinal, o /b/ pronuncia-se com os dois lábios. Já que falamos do árabe, podemos fazer a pergunta: será que a língua que se ouve nas ruas do Egipto é a mesma língua que se ouve nas ruas de Marrocos (por exemplo)? Aqui fica um artigo sobre o tema.

Maltês. Nesta viagem, saímos do Egipto e vamos até Malta. No maltês, beijo diz-se «bewsa», que mostra a origem semítica da língua. A palavra tem também a forma colectiva «bews» (beijos em geral) e «bewsiet» (um plural particular, chamado paucal, que representa quantidades até 10, ou seja, «uns quantos beijos»). Pois é: há línguas em que os nomes têm mais do que duas formas quanto ao número…

Italiano. O maltês é uma curiosa língua híbrida, com uma origem e gramática semíticas, mas muito vocabulário italiano. Pois bem, aportemos à Itália: por lá, um beijo é «bacio», que se lê /ˈbatʃo/. O plural é «baci».

Francês. Em francês, o verbo «baiser», que significava «beijar», passou a ser uma forma muito crua (digamos assim) de designar o acto sexual. Tal como na estátua lá em cima, há pouca distância entre um beijo e o sexo. E também tal como na estátua, o abraço anda a rondar. Em francês, «embrasser» tomou o honroso lugar da palavra caída em perdição («baiser») e significa hoje «beijar na boca». Diga-se que, no Canadá, o «baiser» manteve-se com o sentido um pouco mais inocente.

Português. Saltando para o português, criámos, a partir do beijo, o «beijinho». Como acontece muitas vezes, o diminutivo muda o significado, mas não designa algo pequeno. É apenas um outro tipo de beijo, mais inocente. Já agora, um aviso: o beijinho português, se passarmos a fronteira para Norte, é o «bico» galego. Sim, «muitos beijinhos», em galego, diz-se «moitos bicos». Se voltarmos para sul e começarmos a falar de bicos, rapidamente percebemos que uma palavra inocente ganha contornos bem mais adultos num instante…

Entre beijos franceses e bicos galego-portugueses, estas palavras parecem andar sempre a resvalar (para a cama).

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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7 comentários
  • Apenas um pormenor, caro amigo Marco: num galego bem padronizado, «bico», no sentido de «beijo», seria (ou é) apenas sinónimo de uso familiar ou coloquial de «beijo», que é vocábulo também corrente na Galiza. O problema com o galego é que os seus codificadores patrocinados polo poder político (supremacista castelhano) desprezam a coordenaçom galego-portuguesa e nom sabem distinguir o formal do coloquial, o culto do vulgar.

  • Ollo, a palavra formal para beijo, em galego normativo é “beixo” (ou seja, exactamente a mesma palavra que em português, mas com a ortografia da Real Academia Galega). A palavra bico (não sou nem linguista nem filólogo) é, suponho, uma palavra popular que tem sido imposta até ser usada em qualquer âmbito.
    Da mesma forma, temos outros exemplos deste fenómeno, como a palavra formal “diñeiro”, que está a perder terreno para a palavra popular “cartos”, que também é cada vez mais utilizada em todos os campos.

    • Caro José Luís, se com a expressom «galego normativo» se refere ao galego codificado pola Real Academia Galega (RAG) e polo Instituto da Lingua Galega (ILG), que som as instituiçons codificadoras patrocinadas polo atual poder político (mas há ainda outros dous modelos de galego «normativos»), fique a saber que, em contra do que você explica, nesse modelo de galego, isolacionista e castelhanista, «bico» e «beixo» correspondem ao mesmo registo expressivo (neutro), como umha consulta ao dicionário da RAG testemunha e como patenteiam os usos vocabulares que, dentro desse modelo, se estám a verificar hoje maciçamente em galego.
      De facto, esse escandaloso fenómeno de indistinçom de registos também se verifica com o par, referido na sua mensagem, dinheiro/quartos, e ainda, por exemplo, com urina/ourinhos. Assim nos formulários médicos do oficial Serviço Galego de Saúde, é freqüente deparar-se com «análise de ouriños».
      A «filosofia» atrás deste proceder é: «o galego é língua popular; a culta, o castelhano».

      • Bem, como eu disse, não sou nem filólogo nem linguista, por isso não me explico muito bem. É óbvio para mim que quando falo dos pares beixo/bico e diñeiro/cartos e digo que as formas populares ou coloquiais estão a ganhar terreno, o que quero expressar é precisamente esse fenómeno aberrante de indistinção dos registos culto/coloquial do modelo RAG/ILG, e é por isso que não compreendo a sua frase “fique a saber que, em contra do que você explica…”
        Quanto ao meu uso do termo “galego normativo” para o modelo RAG/ILG, é verdade, deixei-me levar por uma denominação que também está a ser imposta e está a tornar-se habitual na fala para designar ese modelo imposto na administração, nos media ou na educação na Galiza.
        Finalmente, saiba que acredito firmemente que a única forma possível de salvação para a língua galega é a adopção da norma reintegracionista em todos os âmbitos. Cumprimentos.

  • Professor Marco Neves, e qual terá sido a origem do KISS inglês e do KUSS alemão?

    Parece que os “seus beijos” e o OSCULUM (suavium) latino tiveram origens bem diferentes; porém, os romanos também de beijavam, creio; e de várias maneiras, nem sempre inocentes!

    No respeitante à antiguidade civilizacional, era costume ser ensinado que uma das mais antigas seria a do Vale do Indo (civilização Harapa) 3 500 A.C. Porém, mais recentemente, já se conhece uma civilização, também indiana, já desaparecida, cujos vestígios (radiometria) datam de entre 7 380 a 6 200 A.C., na região compreendida entre o rio Chaggar-Hakra e o Baluquistão (entre os actuais Índia e Pakistão): certamente que também se beijavam. Assim como os construtores do primeiro templo conhecido Göbekli Tepe (actual Turquia), cerca de 9 000 A.C., com as suas gravuras antropomórficas, esculpidas em lajes e grandes pilares do Templo.

    Finalmente deixo-lhe uma pergunta difícil, própria para ser formulada a um professor universitário, para a qual lhe “imponho”, por precaução, como convém, uma resposta respeitosa:

    Os Talibãns também beijam? Por cima ou por debaixo da bu… ?

    Cumprimentos.

  • No português do Brasil temos bitoca, que é um beijo mais inocente, muitas vezes na bochecha, é um beijo que pedimos para uma criança por exemplo, e o selinho que é uma demonstração de afeto, permitida até em relações de amizade.

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Marco Neves

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