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Elogio da pontuação

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As frases acima são difíceis de ler? Pois era assim que se escrevia, em geral, no tempo dos Gregos e dos Romanos. Era a chamada escrita contínua. Não havia muitos sinais de pontuação — e nem sequer espaços. Ao longo do tempo, lá fomos inventando os espaços, os pontos, as vírgulas. Não é um alívio?

Estes sinais começaram por assinalar pausas e entoações, para ajudar na leitura em voz alta. Também começaram a mostrar como se organizam os textos e as frases, ajudando a ler em silêncio.

A pontuação é muito parecida nas várias línguas da Europa, mas há alguns pontos em que as línguas seguiram caminhos diferentes. Basta pensar nos pontos de interrogação e exclamação ao contrário que vemos no início de muitas frases em castelhano: também já existiram em português, mas perderam-se ao longo do século XX.

O uso dos sinais também vai mudando ao longo do tempo: por exemplo, se formos ver livros publicados no século XIX, encontramos muito mais vírgulas, mesmo entre sujeito em predicado (o grande pecado da pontuação actual).

Não sei porquê, mas gosto muito destes sinais. Talvez seja porque gosto de escrever. Quando conversamos uns com os outros, usamos a voz, mas também o resto do corpo: a cara, os olhos, as sobrancelhas, as mãos… A própria disposição do corpo ajuda-nos a transmitir a mensagem — e, às vezes, até transmite mais do que queremos. Ora, quando escrevemos, estamos a conversar sem que nos vejam. A pontuação ajuda-nos a substituir aos mãos, a cara, o corpo. Não chega, mas ajuda muito.

Nos dias de hoje, escrevemos constantemente, provavelmente mais do que em qualquer outra época da história. Conversamos por escrito, namoramos por escrito, zangamo-nos por escrito. Ora, a pontuação ajuda quem nos lê a compreender-nos melhor, mas também ajuda quem escreve, ao obrigar a pensar onde pôr a vírgula, onde usar um travessão, onde deixar reticências… Ajuda-nos a conversar melhor, ajuda-nos a viver melhor.

Isto, claro, se ligarmos alguma coisa à pontuação. E vale a pena! Podemos não acertar sempre: ninguém acerta sempre. Podemos discutir esta ou aquela vírgula. Podemos exagerar neste ou naquele sinal. Mas, se pensarmos na pontuação que usamos, mostramos que nos preocupamos com quem nos lê. Há também um certo encanto nestes sinais, do simples ponto tão final ao arrogante travessão — a riscar a linha e a ocupar o espaço de uma palavra — passando pelo musical ponto de interrogação e pela caprichosa vírgula.

Para lá das regras e das proibições, a pontuação dá-nos várias opções. É um excelente sinal do grau de proximidade que queremos demonstrar… É ainda um piscar de olhos no papel. Mesmo numa mensagem rápida, cada sinal (ou a falta de sinal) transmite mensagens diferentes:

  • Beijo.
  • Beijo
  • Beijo!
  • Beijo!!!

O beijo com ponto parece‑me mais formal — ou mais seco — que o beijo sem nada. O beijo com ponto de exclamação é um beijo ligeiramente mais premente… Já o beijo com uns excessivos três pontos de exclamação revela um entusiasmo que talvez decorra da personalidade da pessoa — ou da vontade de beijar.

(Crónica no Sapo 24. Se gosta de pontuação, não se esqueça de ler o meu livro Pontuação em Português.)

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Marco Neves

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