Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

História do inglês em 10 palavras

As línguas guardam destroços das histórias dos povos. Dentro do inglês, por exemplo, encontramos vestígios da História da Europa e do mundo.

1. Arthur (e uma nova língua a chegar)

Façamos uma viagem no tempo e aterremos ali pelas frias praias do que é hoje a Inglaterra por alturas do fim do Império Romano.

Talvez consigamos, apesar do frio, olhar em volta e ver a sair das brumas duma floresta antiga os vultos de artures, guiniveres e lancelotes a conversar sobre távolas redondas, cavaleiros andantes e outros mitos.

Estamos na velha Bretanha celta, de onde saíram tantas histórias e figuras do nosso imaginário.

Como também estamos numa página sobre línguas, vamos querer saber o que falavam aqueles seres arraçados de mito.

Na escrita, haveria certamente algum latim. A ilha tinha sido romana — ou, pelo menos, a parte sul da ilha, que já à época o Norte não gostava de se confundir com o Sul.

Já da boca dos ponderados britânicos ouvimos sair línguas celtas, aqueles idiomas que deram origem às línguas que ainda hoje se falam no País de Gales, em certas zonas da Irlanda e nas Terras Altas da Escócia.

Continuamos a vaguear por aquela terra brumosa. Talvez encontremos, perto do mar, uns estrangeiros louros, de ar rude, de língua bastante diferente e um barco acabado de chegar à praia…

Como quem não quer a coisa, foram chegando, aos poucos e ao longo dos anos, uns quantos viajantes ali da zona que vai da Dinamarca ao norte da Holanda. O caminho era curto: uma pequena viagem de barco e, pronto, lá estamos nós numa ilha agradável e com muito que ver.

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Fonte da imagem: WikimediaCC BY-SA 3.0

Eram povos a que hoje chamamos, de forma genérica, anglo-saxões. Mas eram anglos, eram saxões — e eram ainda povos com outros nomes. 

Muitos chamam invasão à chegada destes bárbaros. Mas foi uma invasão em câmara lenta.

A chegada destes invasores germânicos foi também a chegada das línguas que vieram a dar origem ao inglês que hoje conhecemos.

E os celtas? Que lhes aconteceu?

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2. To do (ou vestígios de antigos celtas)

Vamos dar agora um salto no tempo.

Acordamos ali por volta do século VIII. Por esta altura, os anglo-saxões já governam o Sul da ilha, divididos em vários reinos. Da Bretanha celta, passámos à Inglaterra propriamente dita — Inglaterra, terra dos Anglos & Companhia.

As histórias tradicionais do inglês dizem que as influências das línguas celtas no inglês são mínimas. Os celtas teriam sido escorraçados para as extremidades sem oportunidade de influenciar a língua dos invasores.

Os celtas fugiram para o norte (a actual Escócia), para o ocidente (o actual País de Gales) e para a ponta sul (a actual Cornualha) — tudo sítios onde hoje se fala uma ou outra língua celta (no caso da Cornualha, a língua já se perdeu e está hoje a ser recuperada).

A expulsão teria sido tão eficaz que a língua dos novos habitantes não lhes guardou memória — isto segundo a tal história mais tradicional.

Porém, alguns linguistas encontram hoje vestígios dos celtas no inglês — e bem no centro do palco desta língua hoje tão importante.

Para encontrarmos uma das possíveis influências, olhemos para a forma como se constrói a negativa ou a interrogativa (ou o passado, já agora) dum verbo inglês? Com o verbo «to do», ou seja, «fazer»: «I don’t speak German…»; «Do you speak English?».

Isto é uma originalidade do inglês entre as línguas germânicas (há uma construção semelhante em alemão, mas está muito longe de ser tão central na sintaxe da língua).

Curiosamente, este uso do verbo «fazer» parece uma cópia do funcionamento de outro grupo de línguas.

Qual?

As línguas celtas, como o galês. Estas línguas usam o verbo «fazer» para construir interrogativas e negativas.

Por outras palavras: é possível que algumas características centrais do inglês sejam vestígios do processo de aprendizagem do inglês antigo pela população celta. Os celtas faziam perguntas e negações com o verbo «fazer» e não perderam o hábito quando aprenderam a nova língua. O uso do auxiliar «to do» será uma interferência das línguas anteriores.

Tal significa que, provavelmente, uma grande parte dos celtas não foi chacinada nem fugiu. Muitos ficaram no mesmo sítio, mas aprenderam a língua dos anglo-saxões, com muitas interferências — isto, claro, sem contar com aqueles celtas que ficaram ao canto, a falar (até hoje) as suas línguas antigas.

O inglês da época era, assim, a língua dos anglo-saxões mastigada pelos celtas.

Sobre esta hipótese, podemos ler vários capítulos do livro Our Magnificent Bastard Tongue, de John McWhorter.

3. Beowulf (e outros monstros escandinavos)

Estamos na Inglaterra do século VIII.

À nossa volta, ouvimos muito inglês antigo, uma língua bem curiosa — e muito diferente do inglês actual.

Se por ali ficássemos uns meses, talvez percebêssemos quão diferente era a língua falada nas várias regiões de Inglaterra. Esta variedade pode ter origem não só nos diferentes idiomas que por lá se falavam anteriormente, como também nas diferenças linguísticas dos povos que chegaram.

O inglês nunca foi uma língua uniforme — nem hoje, nem nunca.

Quanto à escrita, começou por ser feita usando as famosas runas. Com o tempo, a língua começou a ser escrita com o alfabeto latino, mas este foi complementado com algumas letras com aquele sabor de velhas sagas. (Ainda hoje vemos essas letras na ortografia do islandês, como no nome do parque Þingvellir.)

Runas

Já tinham passado alguns séculos desde a chegada dos povos da costa continental à ilha.

Alguém escreveu então um longo poema nessa língua antiga, poema esse que hoje simboliza toda a literatura em inglês antigo pela sua força e beleza — que sentimos mesmo à distância de séculos.

Para ler esta obra, um inglês dos dias de hoje tem de aprender Old English ou usar uma tradução.

Aqui fica o início desse poema (a imagem abaixo é a deste texto). Reparemos no uso das letras adicionais, que mais tarde viriam a perder-se no inglês:

HWÆT: WE GAR-DENA    IN GEARDAGUM
þeodcyninga    þrym gefrunon.
Hu ða æþelingas    ellen fremedon!
Oft Scyld Scefing    sceaþena þreatum
monegum mægþum    meodosetla ofteah,
egsode eorl,    syððan ærest wearð
feasceaft funden.    He þæs frofre gebad,
weox under wolcnum,    weorðmyndum þah,
oð þæt him æghwylc    þara ymbsittendra
ofer hronrade    hyran scolde,
gomban gyldan.    Þæt wæs god cyning.

Curiosamente, este inglês antigo da escrita não usava o verbo «to do» para fazer negativas e interrogações. Qual será a razão? Afinal, por esta altura, já a tal influência celta se deveria sentir há muito tempo…

Uma das possíveis explicações é esta: a língua da rua seria diferente da língua da escrita. As influências celtas seriam vistas como erros, erros que todos dizem, mas que eram evitados na escrita. Por outras palavras, o auxiliar «to do» era típico do registo informal e da oralidade.

Um escriba anglo-saxão poria as mãos na cabeça se lhe disséssemos que, séculos depois, a boa escrita implicaria usar o verbo «to do» para criar negativas ou interrogativas. Que erro! Para quê? Não é lógico!

Ah, nem imaginava o velho monge que o uso do «to do» era uma brincadeira de crianças em comparação com o que viria a acontecer à sua língua no futuro. Novos invasores mudaram o inglês de forma tão radical que a língua ficou irreconhecível…

4. They (víquingues a invadir línguas)

Vamos agora dar um novo salto no tempo até ali por volta do século IX.

Na mesma ilha, encontramos agora novos invasores: os víquingues.

Se olharmos com atenção para esses invasores escandinavos, vemos que nenhum deles usa chapéu com cornos. Temos de pôr os pontos nos ii, ou seja, tirar os cornos da cabeça dos víquingues. Ninguém usava cornos na cabeça! Foi uma invenção muito posterior.

Dito isto, podemos avançar para informações mais relevantes sobre a língua inglesa.

Na sempre animada Idade Média, os escandinavos andaram pelo mar a pilhar e a conquistar tudo o que encontravam. Chegaram à Grã-Bretanha. Aliás, chegaram ao que viria a ser Portugal. Até há quem diga que chegaram à América antes de Colombo.

Se, por outras paragens, chegavam, pilhavam e iam embora, na Grã-Bretanha acabaram por governar um território chamado Danelaw — e decidiram aprender a língua dos nativos (neste caso, “nativos” são os antigos anglo-saxões misturados com os celtas).

A língua dos víquingues era germânica, como o inglês, mas com muitas diferenças. Neste processo de aprendizagem em grupo, os víquingues acabaram por mudar a língua. Torceram-na até ela se submeter aos novos senhores, como bons invasores que são.

Algumas das palavras oferecidas pelos víquingues ao inglês são extraordinariamente importantes. Um exemplo é «they». Sim, «they» é uma palavra víquingue! O pronome em inglês antigo era «hīe»

Representação dos víquingues em Miscellany on the Life of St. Edmund (século XII).

Também foi por esta altura que o inglês começou a perder o género gramatical nas palavras que representam seres inanimados.

Até então, tal como é comum nas outras línguas indo-europeias, o inglês também atribuía um género às mesas, às árvores, ao mar e à praia…

Ora, os víquingues tinham de decorar os géneros das palavras, que eram, muitas vezes, diferentes dos géneros na sua língua. Como já aprenderam a língua enquanto adultos, acabaram por aprendê-la de forma um pouco simplificada, esquecendo os géneros — tal como um inglês de hoje em dia, ao aprender português, também tem dificuldade em saber que género atribuir aos objectos.

Os invasores eram tantos e o seu domínio tão importante que esse inglês sem género acabou por se tornar no inglês falado por todos. Esta é, claro, uma das explicações. Estes processos linguísticos são muito mais complexos do que parecem…

É bem provável que este processo de aprendizagem da língua numa idade tardia por uma grande parte da população tenha ajudado a desbastar não só o género, mas também os casos e outra tralha gramatical da língua inglesa — a velha gramática começou a ruir, deixando uma língua um pouco mais simples (mas tão útil e expressiva como antes).

Pormenor da Tapeçaria de Bayeux, que representa a conquista normanda de Inglaterra.

5. Mon Dieu! (1066 e tudo isso)

Enquanto a língua levava pancada dos escandinavos, os reinos dos anglo-saxões iam-se unindo.

Alfredo, o Grande — Ælfred, em inglês antigo —, rei de Wessex, fez um acordo com os víquingues e começou a governar todos os anglo-saxões. Podemos dizer que foi o primeiro rei de Inglaterra.

Pois bem, este rei falava inglês antigo, claro. Era a língua da corte — embora o latim ainda tivesse alguma importância, como acontecia na Europa toda.

O inglês, que já não era a língua duns quantos invasores vindos das selvas ali do Norte da Alemanha, era agora uma língua culta, com literatura, documentos, escribas — enquanto na rua, mudava sem freio na boca da população. Foi aprendida pelos celtas, foi aprendida pelos víquingues — e, assim, é bem provável que a língua falada fosse já bastante diferente da língua escrita.

Ora, em 1066 aconteceu qualquer coisa de muito importante. Os ingleses foram invadidos pelos normandos, que eram víquingues, mas já adaptados à França — e misturados com a população local.

Os normandos falavam que língua? Uma língua muito parecida com o francês, mas que também não era bem francês. Era francês normando.

Os anglo-saxões defenderam-se dos normandos, mas perderam. O rei de Inglaterra passou a ser um normando chamado Guilherme I (em inglês, William the Conqueror). A actual monarquia britânica começou a contar os nomes dos reis com esse tal Guilherme. Se o actual príncipe William chegar a rei e escolher esse nome para reinar, será Guilherme V, continuando a contagem iniciada por esse invasor francês.

A corte inglesa passou a falar francês normando. O resto da população lá continuou a falar inglês, pois não é por vir um francês armado em bom que os ingleses mudam de língua.

Ainda hoje subsistem vestígios do tempo em que o francês era a língua da corte. Por exemplo, o lema do monarca do Reino Unido é (repare na faixa por baixo do brasão):

Repare bem: «Dieu et mon droit». (Ainda ali pelo meio, o lema da Ordem da Jarreteira: «Honi soit qui mal y pense».)

O lema da rainha é em francês! «Deus e o meu direito» (de mandar nisto tudo).

Entretanto, os ingleses já não ligam tanto nem a Deus nem ao direito da rainha em mandar naquilo tudo. E também já não ligam muito ao francês — mas o lema lá continua…

Esta entrada do francês na Inglaterra enquanto língua de prestígio teve duas consequências curiosas.

Primeiro: o inglês começou a absorver palavras normandas como se não houvesse amanhã.

Segundo: a língua viu-se à vontade. Não havia uma corte que a usasse e determinasse, assim, qual era o uso de prestígio. Quando alguém escrevia inglês, já não seguia o padrão da corte (que andava metida no francês), o que levou a uma aproximação entre a língua da escrita e a língua da oralidade.

As velhas influências celtas, as mais recentes influências víquingues, as palavras normandas… Já ninguém tinha vergonha de as usar! O inglês libertou-se.

6. Pork (uma língua deliciosamente impura)

Chegámos ao inglês médio.

Ainda não é uma língua fácil de ler, mas é bem mais parecida com o inglês de hoje em dia do que o velho Old English.

Vejamos o início dos Contos de Cantuária de Chaucer:

Whan that Aprill with his shoures soote
The droghte of March hath perced to the roote,
And bathed every veyne in swich licour
Of which vertu engendred is the flour;
Whan Zephirus eek with his sweete breeth
Inspired hath in every holt and heeth
The tendre croppes, and the yonge sonne
Hath in the Ram his half cours yronne,
And smale foweles maken melodye,
That slepen al the nyght with open ye
(So priketh hem Nature in hir corages),
Thanne longen folk to goon on pilgrimages,
And palmeres for to seken straunge strondes,
To ferne halwes, kowthe in sondry londes;
And specially from every shires ende
Of Engelond to Caunterbury they wende,
The hooly blisful martir for to seke,
That hem hath holpen whan that they were seeke.

Não me vou pôr a traduzir tudo, mas repare no «Engelond» na terceira linha a contar do fim. Falamos da famosa «England». Repare ainda na expressão «smale foweles». Falamos de pequenas aves. E temos ainda o «sonne», que é o sol…

O leitor está a viajar pela imaginação. Pois garanto-lhe que, se ouvir alguém da época a ler este poema, estranhará ainda mais do que o aspecto das palavras na escrita.

A ortografia começou a fixar-se durante a época do inglês médio, quando a corte voltou a falar inglês e a imprensa veio dar um empurrão à fixação da maneira de representar os sons. Isto significa que a ortografia inglesa representa, em certa medida, a fonologia daquela época — e é por isso que hoje a consideramos tão caótica.

No fundo, a ortografia inglesa é uma ortografia pensada para a língua que se falava há muitos séculos. E também por isso a escrita da época nos é menos estranha do que a maneira de falar da altura.

Se olharmos para o texto, vemos muitas palavras com sabor latino. O inglês absorveu mesmo muitas palavras normandas. Algumas destas importações levaram à existência de pares de palavras com significado parecido (mas raramente igual) — uma delas anglo-saxónica, outra de origem latina.

«Pig», por exemplo, é o simpático porco. «Pork» é o simpático porco, mas morto — e pronto a ser comido. As quintas têm «pigs», mas à mesa comemos «pork». Interessante, não é?

O inglês tornou-se assim uma língua híbrida: tem muito vocabulário germânico, mas também muito vocabulário latino — e este vocabulário latino também foi enriquecido com importações directas das línguas clássicas (e por isso há também muitas palavras gregas) por altura do Renascimento.

Temos «freedom», que pode ser uma série de coisas, desde «freedom fighters», «freedom of speech», «freedom to do whatever one pleases», etc. — e temos «liberty», que fica muito bem no nome duma estátua ou de um sino.

Apesar desta história tão animada, a verdade é que, por estes tempos, o inglês ainda era uma língua obscura, escondida numa ilha no Mar do Norte, um idioma que nem sequer era usado pela corte. Mal imaginavam os seus falantes até onde chegaria.

7. To out-Herod (ou os inventores de palavras)

Entre os séculos XVI e XVII, viveu aquele que viria a simbolizar a língua no seu esplendor literário: Shakespeare.

Shakespeare é, no fundo, o Camões lá do sítio — só que escrevia teatro e não era dado a epopeias.

O bardo moldou o material linguístico que lhe foi oferecido por esses séculos de celtas, romanos, bárbaros e víquingues — e usou-o sem medo e com muito talento. Lá pelo meio, inventou palavras e expressões que ainda hoje são usadas pelos falantes de inglês (algumas até acabaram noutras línguas, incluindo o português — será tema de um artigo futuro).

Uma expressão que inventou e que tem muita graça aos meus ouvidos latinos é «it out-Herods Herod», que aparece em Hamlet. Para quem tem medo das palavras que saltam de categoria, deve ser um horror — para mim, é uma delícia. Um nome próprio é transformado, à força, num verbo. «Out-herods Herod» significa algo como «é mais Herodes que o Herodes» — algo como «é mais papista que o Papa»…

Hamlet: ser ou não ser. Uma caveira na mão. Algo está podre no reino da Dinamarca. Tantos séculos depois de Beowulf, os ingleses ainda sonhavam com as velhas terras de onde tinham vindo…

8. Fetish (ou a língua para lá do oceano)

Na época de Shakespeare e Camões, portugueses e ingleses andavam aos tropeções pelo mundo — como seria de esperar, o inglês absorveu algumas palavras portuguesas. Há uns tempos, deixei aqui uma lista de dez palavras inglesas de origem portuguesa. Uma delas é fetish, que andou para trás e para a frente pela Europa fora, como contei neste outro artigo.

Não foi só ao português que o inglês foi buscar palavras. É um idioma que parece um aspirador de palavras… Aspira palavras porque os ingleses andavam a aspirar o mundo. Chegam à América, dão um pontapé aos holandeses ali em Nova Iorque e dão uma nova vida ao seu idioma. Só isto dava para mais uns quantos capítulos.

Para já, avançamos, não sem antes notar um fenómeno curioso: no território imenso de língua inglesa na América do Norte, a variedade dialectal é menor do que no pequeno território britânico deste lado do mar.

Por que razão acontece isso?

Quando a língua se transplanta para um novo território, vai na boca de um número relativamente reduzido de falantes, em que a variedade é menor do que no conjunto total dos falantes que ficam no território original. Ora, essa uniformidade de partida dilui-se ao longo dos séculos, mas devagar — e, por isso, ainda hoje temos menos variedade dialectal no inglês dos EUA que no do Reino Unido.

Basta ouvir um escocês ou um inglês de Manchester para percebermos isso mesmo — para ouvirmos sotaques tão diferentes nos EUA teríamos de andar bastante mais quilómetros (aliás, milhas).

A variedade dialectal nos EUA existe: só que se nota em distâncias bem maiores que no Reino Unido. Como, entretanto, chegámos à época da escolarização de toda a população, esta maior uniformidade ainda hoje se nota e vai, talvez, manter-se por muito tempo.

Isto não significa que os EUA sejam um país linguisticamente aborrecido. Afinal, Nova Iorque é provavelmente o território onde se concentram mais línguas no mundo…

Sobre o inglês de lá e de cá, aconselho um belíssimo livro: The Prodigal Tongue, de Lynne Murphy. Ficará a saber, entre muitas outras coisas, que a palavra «soccer» não é um americanismo.

9. OK (ou o século do inglês)

O Reino Unido foi uma das grandes potências do século XIX. Os EUA foram uma das superpotências do século XX. Os dois países estavam do lado dos vencedores nas duas guerras mundiais. Enfim, por estas e outras razões, o inglês acabou por se tornar uma língua com uma força internacional que, hoje, parece inabalável.

Mas não nos esqueçamos que, ainda há uns séculos, a língua inglesa era um falar do povo, enquanto os nobres conversavam em francês. Hoje, é uma língua aprendida por quase todos os jovens europeus, como segunda língua. Sim, até os jovens que vivem nos territórios de onde saíram os Anglos & Companhia — ali na zona da Dinamarca, Alemanha, Países Baixos — aprendem a língua desses velhos bárbaros…

Esta é também a língua que mais se insinua nas outras, pela força cultural e económica (talvez mais esta do que aquela) dos países que a usam. Por outro lado, como vimos, também absorve vocábulos de todas as línguas sem grande pudor. Um bom livro sobre estas dinâmicas é Empires of the Word, por Nicholas Ostler.

O que acontecerá daqui a 500 anos? Não sabemos. Talvez o inglês já seja uma velha língua esquecida — ou não.

Esta secção tem «OK» no título. A razão é simples: esta é uma das palavras que mais se ouvem por esse mundo fora, representando a força desta língua. É uma palavra com uma história engraçada — que fica para outro dia.

10. Brexit (e os prazeres de uma língua impura)

«Brexit» — a palavra, não o próprio — é uma palavra criada pela justaposição de outras duas: «British» e «exit». Os seres humanos são assim: criam palavras, misturam-nas, moldam-nas, destroem-nas ao criar outras — tudo isto sem pedir perdão a ninguém.

Os ingleses sempre estiveram mergulhados nas guerras e confusões da Europa, como bem atestam os estratos que encontramos ao escavar a sua língua — mas, como habitantes duma ilha a umas quantas léguas da costa, gostam de se imaginar um pouco menos europeus do que os outros.

E, no entanto, o inglês é uma língua europeia como poucas. Mesmo na União Europeia, continua a ser uma das muitas línguas oficiais e continua a ser muito usada na prática, embora seja agora a língua materna de menos cidadãos europeus do que o português (ou, se não me enganei nas contas, que o catalão!).

No fundo, o uso que fazemos do inglês já está desligado do inglês enquanto língua daquele país em particular. Quando um alemão conversa com um português, fá-lo — muitas vezes — em inglês. Quando um checo conversa com um grego, o inglês também lá estará. Até já é relativamente comum encontrar portugueses e espanhóis a conversar em inglês.


Escrevi esta pequena história só para que víssemos como o inglês é uma língua interessante, impura como poucas, com uma história bastante peculiar, cheia de palavras de todas as línguas.

Essa história vê-se, por exemplo, na proximidade que tem ao frísio, uma língua falada nos Países Baixos, numa das regiões de onde partiram aqueles bárbaros germânicos para convencer os celtas britânicos a mudar de língua…

A história do inglês também nos aparece na persistência das línguas celtas em certas zonas da Grã-Bretanha, línguas que parecem ter moldado, subtilmente, a gramática do inglês.

Depois, temos o inglês tão diferente de região para região — o próprio inglês antigo nunca foi uma língua uniforme, dividido como estava entre muitos reinos, cada um com vários sabores do idioma.

É ainda uma língua que ganhou outros sabores por esse mundo fora, da América à Austrália, passando pela Índia e por muitos outros territórios onde os falantes chegaram, às vezes de forma um pouco (digamos assim) brusca.

O certo é que uma velha língua de umas tribos ali nas costas do Mar do Norte é hoje ouvida em todo o mundo.

A sorte e o azar dos idiomas têm muito pouco que ver com as suas características intrínsecas ou a sua pureza, qualidade que pouco adianta numa língua. A sorte da língua é consequência do que acontece aos povos que a falam, das suas viagens, guerras, conquistas e derrotas. Também por isto as línguas humanas são um tema tão interessante.

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Autor
Marco Neves

Professor na NOVA FCSH, tradutor na Eurologos e autor de livros sobre línguas e tradução.

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