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Crónicas

Natal, sexo e escadas rolantes

Há um paradoxo escondido nesta época de Natal — e que também se esconde nas escadas rolantes.

Vou explicar, começando pelas escadas rolantes.

Note o leitor que as tais escadas que transportam multidões nas suas épicas viagens entre os pisos dos centros comerciais, estações de comboio ou outros edifícios mais ou menos públicos são das mais feias traquitanas que nos passam à frente dos olhos (e debaixo dos pés) a cada dia. São uma espécie de dentadura metálica a pingar óleo em rotação eterna, com ruídos de maquineta infernal — sem falar daquele gordurento corrimão negro.

Pois é esta maquinaria metálica e ruidosa que nos transporta todos os dias — e, por estranho que pareça, há algum mistério e algumas delícias escondidas no horrível apetrecho.

Primeiro, o mistério: as escadas rolantes paradas enganam o cérebro. Não sei se acontece a todos ou é como aquele vestido branco e dourado para uns e preto e azul para outros — o certo é que eu sinto sempre uma vertigem quando dou o primeiro passo numas escadas rolantes paradas. Para o caso, também servem as passadeiras rolantes — qualquer coisa que ande à volta e, no momento, esteja parada faz-me qualquer coisa à barriga que não sei explicar.

O que se passará? Ponho o pé e, mesmo se estiver concentrado, desequilibro-me durante umas décimas de segundo. Depois passa, mas fico a pensar: que raios é isto?

Mas o grande mistério — ou delícia — é outro: a máquina é feia, está sempre cheia de gente — e, no entanto, tantos casais sobem para o bicho e… beijam-se! Não sei se será do saboroso desnível que põe as caras mais a jeito, se talvez aquele momento de pausa na correria dos centros comerciais ou dos aeroportos… Enfim, confesso: também eu já fui infectado por esta estranha tendência do metal rolante: já abracei e beijei numa escada rolante. Quem é imune a tal feitiço que se acuse.

Pois aqui está outro mistério, desta vez sobre esta quadra que agora nos atropela.

Explico. Antes de mais, julgo que concordamos todos que o Natal tem muito de irritante. Desde a música de elevador que se eleva, estrondosa, a toda a cidade e rebenta os nossos ouvidos em incessantes melodias de sinos cantantes — até às decorações a clamar pelo consumismo desenfreado, aos cornos de renas nas cabeças de insuspeitos funcionários, às enchentes de gente em alegria postiça que chega e sobra para vinte mundos… Tudo é tão excessivo e doloroso que é difícil encontrar alguém que diga algo tão simples como «gosto do Natal» sem, logo a seguir, deixar cair um «mas»: «ah, gosto do Natal, mas não gosto disto ou daquilo — o meu Natal é outro».

Só as crianças mantêm a crença na época e é por elas que os adultos passam esta provação invernal.

Será? Pois, há qualquer coisa que não bate certo nesta nossa teoria. Parece que esta época é, nos países de tradição cristã, a época em que mais se faz algo muito pouco natalício, mas bem delicioso: sexo. Pois só assim se explica o pico de nascimentos no insuspeito mês de Setembro (também eu sou filho do Natal).

Houve quem estudasse o fenómeno e parece que não tem a ver com o frio: tem mesmo a ver com as Festas Felizes (debaixo dos lençóis). Noutras tradições, o efeito também se sente, mas nove meses depois das respectivas festas maiores — como, por exemplo, o fim do Ramadão no caso dos muçulmanos.

Ou seja, passamos os dias a bufar, cansados, adoentados, irritados, mas depois, à noite, como o casal que dá um beijo no meio duma escada rolante, sentimos uma peculiar felicidade ou uma especial propensão para o amor — não para o amor sentimentalista dos anúncios, mas para o amor bem real que, de propósito ou num qualquer descuido natalício, dá direito a bebés de Setembro.

Não querendo misturar o sexo e a Consoada (mas queira o leitor misturar a seu bel-prazer), a verdade é que também a noite de Natal é uma espécie de pequena lareira de consolo (não direi de felicidade) nos dias complicados, em que nos juntamos com aqueles que nos importam de maneira especial. Já sei, já sei: há consoadas que acabam aos gritos e — todos sabemos — mais tarde ou mais cedo a Noite de Natal lembra-nos mais quem já não está do que aqueles que conversam à nossa volta.

Mas, mesmo assim, quando as escadas rolantes nos centros comerciais param por fim, o trânsito desaparece das ruas e cai a noite de 24 de Dezembro, surge um certo calor difícil de descrever e brindamos a todos os que estão e os que nos faltam, num sorriso que até hoje ninguém conseguiu pintar.

Depois, as crianças vão dormir a pensar nos presentes, uns quantos adultos vão à Missa do Galo — e há ainda quem vá preparar a felicidade de Setembro no quentinho dos lençóis.

A todos: Feliz Natal!

(Crónica no Sapo 24 publicada no dia 24 de Dezembro de 2017.)

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Marco Neves

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