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Crónicas

O dia em que perdi os óculos no mar

Onde conto como o mar me levou os óculos e tudo o que aconteceu depois.

Os óculos são um objecto estranho. Ao contrário dos outros equipamentos de correcção dos nossos defeitos, podem muito bem servir de acessório de moda. Fazem parte da identidade de quem os usa duma maneira que, por exemplo, um equipamento auditivo nunca faz. Afinal, estão na cara — são parte daquilo que nos define aos olhos dos outros.

E, no entanto, também é verdade que este objecto carrega algumas ideias sobre o tipo de pessoas que o usa — e até serve para aquele insulto quase simpático do «caixa-d’óculos».

Pois, é verdade, sou um dos caixa-d’óculos deste país. Os óculos servem-me há muitos anos para me ajudar a viver. Já tentei lentes de contacto, mas nunca me adaptei — não às lentes, mas ao processo de as enfiar nos olhos, que demora sempre, com os meus dedos trapalhões, uns bons quinze minutos. Para cada olho.

Pois bem, há dois dias os meus óculos foram ter com os peixinhos.

O que se passou foi o seguinte. Fui passar um fim-de-semana no Algarve com a minha mulher para comemorar os 10 anos de casamento. Chegámos ao hotel e zarpámos de imediato para a praia.

Ora, a praia não fica perto do hotel. Tivemos de zarpar de carro. Chegámos à praia e percebemos que o único estacionamento era pago. Enfim, pensámos nós, vamos só ficar uma ou duas horas, não é caro.

Andámos, andámos, andámos. A praia ainda era longe — mas valia a pena. Cansados, chegámos e decidi logo ir ver como estava a água, como qualquer veraneante que se preze. As ondas pareciam simpáticas. Avancei um pouco mais. Fui sentindo a areia nos pés, o calor do ar, a água à minha volta e o cheiro bom do Verão. Na cara, os meus óculos — é raro não os deixar na toalha, mas só tinha vindo molhar os pés. Não estava a pensar mergulhar.

Não estava a pensar, mas mergulhei. A culpa não foi minha: apareceu uma onda bem maior do que eu estava à espera que rebentou mesmo em cima de mim. Virei-me um pouco para não levar com a água de chapa na cara, tropecei — e quando dei por mim estava sem óculos.

Procurei-os com os braços atarantados dentro da água turva da areia — o que é especialmente difícil quando, enfim, não se tem óculos na cara. A água estava agitada, muita areia, muitas ondas. Tentei encontrá-los com os pés, mas só encontrei pedras — e bem afiadas.

Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava a 300 quilómetros de casa, com o carro num estacionamento pago — e sem óculos.

Não podia conduzir, não podia fazer nada.

Comecei a agitar os braços, a ver se a minha mulher me via. Não fazia ideia onde ela estava. A praia, para mim, era uma mancha amarela. Onde estavam pessoas, agora via umas quantas borradelas deitadas em pinceladas de várias cores. Estava preso num quadro abstracto. Um horror.

A Zélia apareceu então — e pediu ajuda a uns rapazes que ali estavam. Procurámos todos juntos, eu atarantado sem saber o que fazer nem para onde me virar.

Bem, quem safou o dia do nosso 10.º aniversário foi um casal de Fafe — Paulo e Dolores —, os pais dos tais rapazes, que abandonaram um dia de praia como há poucos e se ofereceram para tirar o carro do estacionamento para nos levar até à óptica mais próxima.

Pouco depois, percebemos que a óptica mais próxima não tinha maneira de me ajudar. Andámos mais uns quilómetros e lá consegui arranjar umas lentes de contacto de emergência, para me permitir andar sem bater nas paredes.

Tive de passar de novo pelo martírio de pôr as lentes. A certa altura tinha os funcionários da loja, a minha mulher e o casal que nos salvou a olhar para mim, numa roda atenta. Quando finalmente pus a lente direita, todos se alegraram como quem via a sua equipa a marcar golo. Pronto: só faltava a esquerda! Mais quinze minutos e podíamos ir embora.

Por fim, a chorar (experimentem passar quinze minutos a espetar o dedo no olho para ver se não choram), levantei-me, de novo a ver, e cumprimentei a sorrir os nossos salvadores — é que ainda não os tinha visto! Ainda conversámos muito nesse dia — que se perder os óculos é aborrecido, pelo menos serve para fazer novos amigos.

Estávamos aliviados. Não fosse o preço dos óculos a morder-me a consciência e quase que podia dizer que estava feliz com as minhas novas lentes de contacto.

Pergunta-me o leitor desta crónica: a história é muito gira, mas o que é que eu tenho a ver com isto?

Nada, de facto, mas esta aventura levou-me a pensar nisto (e espero que tão interessante reflexão compense o relato): podemos desconfiar do progresso, essa palavra tão suspeita, mas há que dizer que há, neste mundo que nos enerva, alguns progressos que ajudam muito. Pois imaginam o que seria a minha vida antes da invenção dos óculos? Obrigado ao inventor dos óculos, seja ele quem for! (Já tenho, vejam bem, tema para novas leituras: não vou descansar enquanto não encontrar uma história dos óculos.)

Por outro lado, aprendi uma lição: não sair de casa sem um par de óculos a mais. E também aprendi (à força de ter de usá-las o dia inteiro) a pôr e a tirar as lentes mais depressa. Pode ser que seja desta que comece a usar a minha cara sem óculos.

(Já agora: se alguém encontrar uns óculos pretos no mar, diga-me alguma coisa. Agradecido!)

(Crónica no Sapo 24.)

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Marco Neves

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