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Qual é a língua mais antiga do mundo?

Será que o português é mais antigo do que o espanhol? E o irlandês — terá sido inventado no século XX? E o galego — apareceu no século XIX? Claro que não, mas há quem diga que sim. Porquê? E, já agora, qual é a língua mais antiga do mundo? Será o basco? Vamos lá a isto…

Entre o irlandês e o galego

As línguas são uma manifestação física da identidade de cada um — é por isso que os idiomas são campo pródigo a palavras inflamadas, corações aos saltos, faces ruborizadas de indignação e dedos a bater depressa na pressa de responder.

Gaston Dorren, autor do livro Lingo (mais do que recomendável!) e do blogue Language Writer, contou há meses como se meteu numa discussão de Twitter entre dois irlandeses: um unionista e um republicano… Dizia o unionista que a língua irlandesa era uma invenção do século XX. A coisa aqueceu e o irlandês do Sul disparou: cala-te lá, pá!, que o irlandês é mais antigo do que o inglês!

Também há discussões destas cá mais perto de casa. Ainda há pouco tempo assisti — e meti a colher — numa discussão bem quente entre galegos e um louco dum tuiteiro cá do burgo que insistia nisto: o galego foi inventado no século XIX! Um ou outro galego contrapunha, em modo agarrem-que-me-vou-a-ele, que o galego é mais antigo que o português.

Quem tem razão?

De certa maneira, ninguém — embora se tiver de ir à luta, terei de arregaçar as mangas contra quem acha que o galego foi inventado o mês passado. Ou seja, ninguém tem razão, mas quem diz que o galego foi inventado no século XIX está mais errado do que os outros.

O leitor terá imaginado que a resposta não seria fácil — mas talvez seja uma surpresa perceber a razão da dificuldade…

As línguas não nascem, transformam-se

Andamos por aí com uma certa ideia do que é uma língua que nos leva a compará-la a uma pessoa: nasce, desenvolve-se, às vezes morre. Esta metáfora serve-nos em muitos casos. Mas, noutros, dá origem a ideias um pouco desastradas.

No que toca à origem das línguas latinas, a ideia geral será esta: havia uma língua estabilizada (o latim), que se desfez e deu origem a embriões de outras línguas. Esses embriões acabaram por dar origem a línguas nacionais, muito mais tarde: o português, o espanhol, o francês, etc. — estas línguas desenvolveram-se até aos píncaros das idades de ouro das suas literaturas.

Bem, esta imagem não é completamente falsa — mas engana-nos. Para percebermos isto a fundo, temos de fazer um exercício: temos de esquecer a escrita. Pensemos, para já, apenas na língua falada na rua.

Imagine a época de Afonso Henriques — ou mesmo antes. Imagine aquilo que se falava nas ruas de Guimarães 100 ou 200 anos antes de Portugal ser um reino independente.

Na escrita, o latim imperava. Na fala, será que a linguagem das gentes era pior do que a nossa, ou seja, menos capaz de expressar as emoções ou incapaz de permitir conversas, amores, combinações?

Não parece provável: afinal, ninguém encontrou até hoje uma língua que limite os seus falantes, que impeça de sentir esta ou aquela emoção. Repare na língua que sai da boca dos portugueses de agora: repare na extraordinária variedade e riqueza das palavras com que conversamos, mesmo com quem mal sabe escrever. Sim, eu sei que há quem tenha pouco jeito, mas, em geral, sabemos convencer, discutir, ironizar, brincar, namorar — às vezes, escrevemos um romance inteiro com a mera entoação de voz numa simples frase… Às vezes, insinuamos as maiores patifarias com uma pequena interjeição dita de certa maneira…

Piadas no pátio da escola… Discussões de namorados… Histórias antigas contadas aos netos… Conversas profundas no terraço… Reuniões estratégicas numa empresa… As palavras saem da nossa boca a todo o minuto e servem-nos para tudo e nada.

Esta capacidade de conversar e de viver não diminuiu quando o Império Romano desapareceu.. Nunca houve um momento em que a língua deixasse de ser uma língua inteira na boca de cada falante.

Da mesma forma, os romanos já receberam a sua língua do que vinha antes — e assim continuamos.

Ou seja, não há um momento em que possamos dizer: esta língua nasceu hoje. Em geral, a linguagem é transmitida sem cortes radicais entre gerações.

Como explicou Gaston Dorren na discussão de que falei, o inglês e o irlandês não têm idade. São ambas tão antigas como a linguagem humana.

Então e o basco? Não é mais antigo que o português?

Ora, dirá o leitor mais desconfiado: isso é tudo muito bonito, mas a verdade é que falamos hoje uma língua muito diferente do latim — enquanto, por exemplo, os bascos falam a mesma língua há 7000 anos! Ou seja, o basco é mais antigo que o português… Há mesmo quem diga que é a língua mais antiga do mundo.

Continuemos longe da escrita. Continuemos apenas a pensar no que se fala. Ora, o basco mudou tanto ou mais do que o latim nestes quase 2000 anos que nos separam dos romanos (e o próprio latim nunca tinha parado de mudar durante o Império — já Cícero se queixava da língua das ruas…).

O basco mudou — e dividiu-se, tal como o latim. O basco falado em família tem diferenças tão marcadas como as diferenças entre as várias línguas latinas. Não acredita? Pois veja este vídeo, que mostra como o basco tem uma variedade dialectal que podia perfeitamente ser interpretada como uma família de línguas diferentes.

O basco oficial e ensinado nas escolas é o basco batua, uma norma — um registo escrito e formal e uma linguagem literária — baseada nos dialectos centrais do basco (mas com algumas contribuições dos outros dialectos). Percebe-se que os bascos tenham criado uma língua unificada — seria mais difícil proteger e promover o basco se este fosse uma colecção de línguas incompreensíveis entre si.

Ou seja, o basco não se manteve inalterado e indivisível durante milénios, ao lado de línguas a nascer a partir do latim. No fundo, a situação basca é semelhante ao que aconteceria no universo alternativo em que tentássemos ressuscitar o latim desta forma: institucionalizamos o dialecto francês, mudamos-lhe um pouco o vocabulário e a gramática para o aproximar dos outros dialectos latinos — e chamamos «latim» a essa norma. Em casa, todos falámos durante séculos (neste universo alternativo) qualquer coisa parecida com o português, o espanhol, o italiano — até que, com uma norma institucionalizada, as escolas, a televisão e a urbanização começam a espalhar o novo latim em todo o Novo Império Romano (neste universo alternativo, o sul da Europa unificou-se num só estado). Na Lisboa dos dias de hoje, os avós ainda falam o dialecto da terra (o português do nosso universo). As gerações mais novas, no entanto, já usam o latim (o francês do nosso universo), excepto quando conversam com os avós.

Parece estranho? É estranho. Mas é o que acontece no País Basco — que tem a complicação adicional de haver outra língua em concorrência com este sistema de dialectos incompreensíveis e uma norma comum (chamada, já agora, de euskera batua) — falo do castelhano, claro está.

O grego sobreviveu milénios?

Há também o caso do grego. Mantém o mesmo nome desde a Antiguidade — não é óbvio que é mais antigo do que o português?

Na verdade, um grego de hoje em dia terá tantas ou mais dificuldades em ler um texto em grego antigo do que um português em ler um texto latino.

Houve, na verdade, desde o século XIX até aos Anos 70 do século passado, uma tentativa de aproximar o grego moderno do grego antigo — tentou-se impor uma língua literária artificial com algumas formas clássicas. Essa língua artificial chama-se katharevousa, em contraste com o grego demótico, ou seja, o grego da rua que é hoje oficial.

As lutas foram terríveis — houve mortos! A língua grega tem o seu quê de sagrado para os gregos e o katharevousa ia beber à tendência para mitificar a língua do passado como mais perfeita e genuína (é uma tendência universal).

A norma do grego moderno acabou por se libertar desse peso e, hoje, a língua oficial está mais próxima da língua da rua. Ainda há quem suspire pelo regresso da velha língua, mas a verdade é que o grego não ficou parado na Antiguidade e é muito diferente do grego antigo. Tentar mantê-lo congelado é um esforço inglório, que apenas prejudica os gregos.

Todas as línguas são assim — mudam constantemente. É certo que, por vezes, há cortes um pouco mais marcados. Por exemplo, quando uma população assume como sua a língua de outra população — a língua costuma dar então um salto através duma simplificação acelerada (falei disso neste artigo). Mas, mesmo assim, uma população nunca cria a sua língua do nada — uma língua não nasce: transforma-se. (Curiosamente, não nasce, mas pode morrer.)

Quando nasce uma língua?

Falei do basco e do grego para dizer isto: é quase impossível determinar a idade de uma língua.

Se usamos o critério do nome da língua ou mesmo a permanência no mesmo território, acabaremos por considerar que o grego moderno e o grego antigo são a mesma língua. Não faz muito sentido: as diferenças linguísticas são comparáveis às diferenças entre o latim e o português.

Se acharmos que uma língua nasce no momento em que se separa de outra, deixando de haver compreensão mútua, então teremos de falar de várias línguas bascas — e todas bastante recentes. Já o português, nesse caso, terá surgido quando se separou, por exemplo, do galego — e quando foi isso? Já aconteceu?

As línguas são como aquelas bactérias que se multiplicam através da divisão: surgem novas bactérias, é certo, mas nenhuma é mais antiga do que a outra — nenhuma é mãe da outra. As línguas são um bicho esquisito.

Alguém dirá: ora, a língua nasce quando nascem os primeiros documentos escritos. É um critério apetitoso — é concreto, é físico, podemos comprovar a data. Mas, se assim for, a maioria das línguas humanas nunca chegou a nascer.

No fundo, o ponto em que começamos a contar a História de uma língua é sempre uma escolha, tem sempre muito de arbitrário.

Viagem ao princípio da língua

Tudo isto pode ser assim, mas o que importa a muitos é a norma associada à língua escrita — e formal, já agora —, ou seja, o registo particular baseado na fala de determinada zona ou grupo social, normalmente o grupo de prestígio que habita nas cidades mais importantes de cada sociedade.

Por outras palavras, quando perguntamos a idade duma língua, estamos a perguntar a idade da tradição escrita e literária dessa língua. Nesse ponto, podemos ter algumas datas: a data em que o português se tornou oficial; a data em que o galego começou a ser usado na literatura; a data em que o irlandês ganhou uma norma escrita…

É esta associação entre língua e norma escrita que justifica que alguém considere o irlandês uma língua recente — os irlandeses já o falam há milénios, mas a sua norma escrita actual é mais recente — no entanto, esta maneira de encarar a história é muito enganadora: os irlandeses falam essa língua há muito tempo, apesar de agora já só sobreviver em zonas particulares.

Essa associação estrita (e errada) entre língua e escrita também explica que haja quem considere o galego uma «invenção» do século XIX: a literatura galega moderna renasce nesse século — mas mesmo assim, para dizer que o galego nasceu no século XIX, é preciso ignorar que já tinha havido textos bem mais antigos escritos na língua dos galegos.

A mim, na verdade, interessa-me a história do uso escrito das línguas, mas há tanto que se esconde por trás — tanto e tão interessante!

Gosto de pensar como o português não surgiu do nada quando surgem os primeiros documentos — mesmo que seja muito difícil ter certezas sobre o que se passou antes.

Gosto de pensar que a palavra «mãe» veio da «mater» latina, mas entre uma e outra existiram muitas formas pelos séculos fora, todas tão expressivas e maternais como a nossa.

Gosto de pensar que a «mater» latina veio de qualquer coisa de anterior, até chegar à «*méh₂tēr» indo-europeia, uma forma reconstruída duma língua que ninguém escreveu.

Gosto de pensar que os tais indo-europeus nunca se chamaram assim e nunca escreveram a palavra «*méh₂tēr» — mas fosse qual fosse a forma da palavra «mãe», existiu na boca de pessoas reais que percebiam e sentiam a sua língua como nós sentimos a nossa.

E gosto de pensar que essa «*méh₂tēr» também terá vindo doutra «mãe» mais antiga, assim até chegarmos ao dia em que alguém, pela primeira vez, disse a palavra «mãe» (mas sobre isso falaremos noutro artigo).

A língua e o barro

A linguagem humana e a sua variabilidade será como o barro, sempre moldável e sempre a caminho de ser outra coisa. De vez em quando, há quem pegue num pedaço desse barro e coza uma língua-padrão — mas, na rua, as pessoas continuam a brincar com o mesmo material, mudando a forma da língua até a forma rígida da norma se partir e ter de ser substituída por outra (felizmente, a norma não tem de ser assim tão rígida; e é bom que não o seja, pois só assim garantimos que não se parte, como aconteceu com o katharevousa).

Note-se: a norma não pode inventar uma língua do nada — tem de usar os materiais que existem. A norma é uma força que actua sobre esses materiais, por vezes como política consciente, com mais ou menos êxito, outras vezes através de mecanismos inconscientes de aproximação à fala do grupo de prestígio. Houve gregos que tentaram moldar o barro para se parecer ao grego antigo — falharam, embora algumas palavras dessa norma artificial tenham sobrevivido. Os bascos ensinam agora uma língua unificada e esse processo tem corrido bem. Curiosamente, a língua dos galegos e dos portugueses viveu séculos debaixo de normas diferentes, mas o material comum ainda lá está, a permitir que nos entendamos, quando vemos quão parecido é o barro dum lado e doutro da fronteira.

Bem, voltemos à nossa pergunta: qual é a língua mais antiga do mundo? A única resposta razoável é explicar que as línguas não têm idade, como diz Gaston Dorren. As línguas mudam, passam por fases, vão-se sujeitando a diferentes normas, misturam-se e influenciam-se umas às outras. Neste percurso complexo, damos-lhes nomes e assumimo-los como bandeiras das nossas identidades. Por isso, é normal que queiramos saber quando nasceram as tais bandeiras.

É normal, da mesma forma, que um português queira saber se o espanhol é uma língua mais antiga do que a sua — mas a resposta, mais uma vez, só pode ser esta: nenhuma delas nasceu, apenas se foi moldando ao longo dos séculos, a partir de materiais anteriores, num processo que começou há muitos milénios — e não acabou!

A língua que o leitor tem na cabeça tem pergaminhos tão antigos como a língua de todos os outros seres humanos. Todos falamos o que resultou da sucessão ininterrupta de gente a falar desde o princípio dos tempos — e assim continuaremos, de palavras na boca, a moldá-las sem fim, por muitos e bons séculos.

(Este texto foi incluído no livro Palavras que o Português Deu ao Mundo: Viagens por Sete Mares e 80 Línguas.)

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Marco Neves

20 comentários

Desde criança que ouvia falar lá em casa da evolução das línguas; e os nossos Pais tinham formas de nos fazer compreender o que poderia parecer complicado…

Hoje, o meu único desgosto, foi não ter aprendido árabe; condição imposta pelo meu Pai: falar e escrever Português correctamente. O que quer isto dizer? Que aos olhos dele eu não atingi essa meta….

Rosa Machado

Obrigado pela análise, lúcida e despretensiosa.
Uma dúvida, que acho que não nega a linha do artigo: a reinvenção do hebraico como língua falada.
Já nos últimos séculos antes da ocupação romana, o hebraico era uma língua morta, reservada a uso litúrgico e documental. E assim se manteve por dois milénios, até à fundação de Israel em 1948, onde, por motivos políticos, se recupera o hebraico como língua falada. Nesse sentido, o hebraico será mais “antigo” do que as outras línguas dadas em exemplo? Na medida em que ficou congelado no tempo?
Seria interessante perceber se nestes 70 anos que leva de vida “normal” já se começam a verificar os mesmos processos de transformação e evolução…

Excelente questão! Ainda há poucos dias li um artigo sobre o hebraico e o seu processo de recuperação. Não consigo encontrá-lo agora, mas irei procurar para o referir aqui. Mas lembro-me disto: todos os processos de mudança entre gerações estão já bem presentes. Há um outro caso que não se encaixa bem no que escrevi no artigo: uma língua gestual criada de raiz na Nicarágua, numa comunidade de meninos surdos. Espero conseguir escrever um artigo sobre estes casos excepcionais muito em breve.

Obrigado. Se puderes pegar nessa história do tal lar na Nicarágua era bem interessante. Em tempos li algo sobre isso e, se bem me lembro, diziam que ao fim de duas gerações (de ‘alunos’; o que dá uns~15-20 anos) teria surgido uma segunda língua do mesmo género.

Não pretendo ser impertinente mas, pergunto: Existe uma Língua Espanhola? Aproveito, também, esta “janela” para lhe pedir que fale, no seguimento deste belo artigo, sobre as línguas crioulas com origem no português. Cumprimentos.

João.

“Ninguém encontrou até hoje uma língua que limite os seus falantes, que impeça de sentir esta ou aquela emoção. ”
É provavelmente verdade, mas também é verdade que o volume de léxico das línguas pode limitar, e muitas vezes limita, a forma de expressão nessa língua, não? O João Paulo Esperança ainda há dias partilhava um artigo precisamente sobre a língua indonésia (uma evolução do malaio, eivada de holandesismos), em que os escritores se queixavam disso. Dizia-se nesse artigo que as obras literárias indonésias ganhavam muito com a tradução para outras línguas, e que as obras de outras línguas, quando traduzidas para o indonésio, perdiam sempre…

Fiquei curioso em ver esse estudo. Terei de ver os problemas particulares para perceber o que se passa… 🙂 Mas, havendo uma base malaia e tantas palavras de origem holandesa, o natural seria pensar que o vocabulário seria até mais rico do que o malaio. Vou ver…

Mesmo que seja verdade, o vocabulário pode sempre sempre enriquecido — a minha questão é mais com a ideia (falsa) de que uma ou outra língua (ou fase da língua) tem uma falha estrutural que impeça a criação, importação ou uso de determinadas palavras ou a expressão de determinado pensamento ou emoção. Os escritores terão, por vezes, de ser criativos para expressar esses pensamentos ou emoções, claro…

Excelente artigo! Simples na linguagem, inteligente no conteúdo. Os meus parabéns! Continuarei a segui-lo .

Hugo

Ao ler o artigo tive um pensamento perturbador será que as diversas línguas não estão seriamente ameaçadas de morte por este novo globalismo que muitas vezes nos impõem o inglês e expressões do mesmo no nosso dia-a-dia? Será que o português como língua falada não vai passar a ser um mero dialeto falado pelos mais antigos dentro de suas casas? Pois eu temo que está evolução da linguagem vai nos conduzir nos tempos futuros a uma única língua, talvez não o inglês que hoje conhecemos, mas algo que evoluirá dele e todas as outras línguas passaram a ser meros dialetos que se perdem e se diluem no tempo.
Fátima Sousa

Acho em falta, já que falou do galego, um mapa no que se veja o espaço ocupado pelo galego antes de ser silenciado na Galiza durante os Séculos Escuros. Há quem diz que se falava -e escrevia- de jeito uniforme desde o Návia ao Mondego. Visto o qual, quando nasceu o português “em terra de mouros”?
Quanto ao grego, certamente: “quase nada” a ver o de agora com o dos clássicos: o que conservamos (e muito) do clássico nas nossas línguas fica distante do significado das palavras do grego oficial de hoje. Imensa piada para um engenheiro de Telecomunicação -como- eu o “kathodós” e o “anodós” das escadas, ou para um químico os “átomos” dos elevadores…

No que diz respeito ao basco “…com este sistema de dialectos incompreensíveis …” não era bem assim. Na altura, acontecia que os falantes de diferentes dialectos ao ter alguma dificuldade o incomodidade na hora de perceber algo deitavam logo a mão ao castelhano (recorriam ao castelhano). Porque é que assim o faziam? Isso é outra história que tem muito a ver e com a repressão de que foram alvo todas as expressões culturais e políticas que ficaram fora da ideologia do régime. Mas também não eram para os bons falantes tão incompreensíveis os dialectos que não eram próprios.
Obrigado por esta entrada.

Sempre muito interessante.
Quando trouxe à baila a diferença entre o grego clássico e o grego moderno fiquei à espera que também falasse do Hebraico antigo e do Hebraico moderno. De facto aqui tratou-se, penso, de ressuscitar uma língua morta (de uso quando muito litúrgico) e torná-la utilizável por falantes de várias linguas diferentes. Pergunto-me o que teve de ser feito a partir da língua antiga para a tornar apta para a comunicação nos dias de hoje…

Mais um a ser impertinente e logo triplamente…

1 – Não existe nenhuma língua espanhola. É certo que, correntemente, se fala de «espanhol». Mas isso não é exacto nem correcto. E num texto especializado… O que existe como língua oficial do Estado espanhol e que este pretende fazer passar como «espanhol» é simplesmente o castelhano e como tal deve se tratada.

2 – A utilização da denominação «espanhol» para o castelhano tem implicações políticas graves na medida em que pactua com o imperialismo de Madrid em relação às outras nações e línguas subjugadas dentro do Estado espanhol. A chamada «língua» «espanhol» é um dos elementos principais na criação da fraude da «nação» espanhola.
Esse imperialismo castelhano existe não apenas em relação às nações actualmente incorporadas no Estado espanhol (até ver…) como também em relação a Portugal, nunca esquecendo a nossa ocupada Olivença.
Graças a 1640, safámo-nos de ter essa língua de trapos como língua oficial. Assim, nem fomos proibidos pelos Bourbons, nem pelo Franco, de falar a nossa língua! Mas a castelhanada ainda não engoliu Aljubarrota, nem o 1.º de Dezembro, nem as batalhas que se seguiram durante 28 anos — como se comprova na recente provocação de Vox ao incluir Portugal num mapa de Espanha.
Conclusão moral da História: olho vivo e nunca devemos falar em «espanhol» para designar o castelhano.

3 – «(…) afinal, ninguém encontrou até hoje uma língua que limite os seus falantes, que impeça de sentir esta ou aquela emoção.»
Não é verdade que todas as línguas tenham a mesma capacidade e facilidade para exprimir ideias ou sentimentos. Basta conhecer razoavelmente duas línguas — bastam duas — para verificar as diferenças. Estas derivam quer da maior ou menor riqueza do léxico e das suas especificidades, quer da flexibilidade gramatical.
Quanto ao léxico, os tradutores bem podem traduzir «saudade» por «nostalgie», que não chegam lá… Ou, ao contrário, «engagé» por «comprometido»…
Quanto à flexibilidade gramatical, nas línguas que, por exemplo, têm menos modos e tempos verbais, ou não têm artigos, a facilidade de expressão com precisão também não é a mesma.
A riqueza e especificidade do léxico depende do desenvolvimento e particularidades civilizacionais: culturais e técnicos. Com o desenvolvimento cultural e técnico vão surgindo novos conceitos, dando origem a novos termos. Numa civilização em que não há certos conceitos, não pode haver o correspondente léxico… Ora, por cá, no que diz respeito a conceitos criados ou importados, nomeadamente no campo das técnicas, com a nossa Academia das Ciências a funcionar ao retardador, podemos esperar sentados. Entretanto, vai-se falando com estrangeirismos e fora de norma…

Muito obrigado pelo excelente comentário. Em relação ao ponto 1 e 2, já o tratei longamente num livro (O Galego e o Português São a Mesma Língua?) e noutros artigos, onde, aliás, defendo a necessidade de olhar para as várias nações do Estado espanhol e não nos deixarmos iludir pelas tentativas castelhanas de impor uma nação única em Espanha. Também defendo o uso do termo “castelhano”, mas o certo é que, em português, é antigo o uso de “espanhol” como referência a esse idioma em particular. Na nossa língua, os dois termos são sinónimos. Em relação ao último ponto, conheço razoavelmente bem três línguas, trabalho em tradução todos os dias e mantenho o que disse. Nem sempre é possível expressar o que queremos, mas esse é um problema de inefabilidade e não de intraduzibilidade. Perante um texto numa língua, é sempre possível dar a volta e expressar o conteúdo cognitivo noutra língua, mesmo que seja necessário usar modulações e outras técnicas de tradução. Quanto às conotações de cada palavra, sim, perdem-se em muitos casos, mas isso também acontece na leitura de textos na nossa língua. Em relação às diferenças entre línguas: línguas com flexão verbal muito simples (como o inglês ou o chinês) usam recursos riquíssimos noutros pontos da sua gramática, sendo, por isso, difícil comparar a relativa complexidade gramatical de línguas diferentes. Concordo, no entanto, que o léxico acompanha a necessidade de criação de conceitos. Tal não implica, no entanto, que uma língua não consiga criar o termo logo que dele necessite ou que não consiga usar descrições para chegar ao mesmo ponto. (O assunto está muito bem tratado no livro The Language Hoax, de John McWhorter, que recomendo. Uma posição ligeiramente diferente, e mais próxima da sua, é a de Guy Deutscher, em Through the Language Glass.) Cumprimentos sinceros,
Marco Neves

Quando o senhor usa o termo “castelhanada” está a ser exactamente igual aos monstros do Vox que critica! Não me admirava nada que você fosse admirador do nariz de símio do Ventura do Chega. E se assim for, então é mais uma prova que é um clone dos fascistas do Abascal e do Ventura! Lá por sermos contra a supremacia do estado espanhol na Península Ibérica (eu sou, assumidamente), não quer dizer que tenhamos que odiar os espanhóis! Uma coisa é o estado espanhol representado pelos parasitas dos Bourbons, outra é o povo espanhol, do qual nada tenho contra! Cresça, homem!

Uma coisa eu percebi quando estive em Bilbao, os Vascos esforcam-se para nos ajudar em castelhano. Mas o Basco é uma delícia, ouvi -los é verdadeiramente fascinante. Apesar de ter facilidade de expressão e compreensão em várias línguas admito a minha pobreza no que diz respeito ao Basco. Kalea e etorbidea, até por deformação profissional foram as únicas palavras que fixei. Em suma das 4 línguas oficiais Espanholas o Basco é a que mais me intriga e a que carece deveras de ser preservada pela riqueza oral e escrita e pelos milénios de tradição que ostenta.

Texto espectacular e muito bem escrito.
Em relação à origem do Indo-europeu, novas investigações feitas por alguns peritos (desde 2018) parecem indicar que a verdadeira origem desta língua primitiva terá sido a sul da Ucrânia (mais propriamente entre as montanhas do Cáucaso e o norte do Irão, inclusive). Isto deveu-se à descoberta que os antigos Hititas (que escreveram os mais antigos textos indo-europeus) não estavam geneticamente relacionados com os primitivos ucranianos (Yamnaya), mas sim com os caçadores-recolectores mesolíticos do Cáucaso e com os agricultores neolíticos iranianos, e, segundo os mesmos investigadores, terão sido eles que terão introduzido a primitiva língua (que mais tarde daria origem ao Indo-europeu “moderno”) por um lado na Anatólia e por outro na Ucrânia, que por sua vez, se difundiu daí (Ucrânia) pela Europa e Ásia. Evidentemente, no que respeita às origens das línguas indo-europeias, existe sempre uma certa controvérsia e nem todos os investigadores pensam a mesma coisa. Gostaria muito de saber qual a sua opinião a respeito disto.

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