Certas PalavrasMarco Neves | Línguas e outras viagens

Qual é a origem da palavra «água»?

O confinamento começa a aliviar e para onde sentimos vontade de ir? Para perto da água… Somos feitos de muita água e somos atraídos pela água: gostamos de mergulhar, pelamo-nos por passeios à beira-rio, queremos viver com vista para o mar. O ser humano precisa de água — nem que seja ao espreitar pela janela do carro. Ora, qual é a origem do nome que damos ao mais precioso dos líquidos?

Água a correr em bocas francesas

A nossa «água» vem do velho latim, onde tinha a forma «aqua». Se virmos bem, nós pouco fizemos à «aqua» latina. É certo que alguns portugueses fazem uma troca ali dentro e transformam a «água» em «auga». Nada a assinalar: as palavras dão estas belas piruetas nas suas navegações pelos séculos fora. Aliás, na Galiza, a palavra também tem pelo menos duas formas («água» e «auga»), mas, curiosamente, a forma adoptada pela norma oficial do galego é aquela que relegámos para o purgatório do português fora da norma: «auga» — sim, a forma popular da palavra em partes do nosso país, quando salta a fronteira, torna-se na palavra oficial.

Não acusemos, no entanto, aqueles que dizem «auga» de estragarem a bela palavra latina. Se eles estragaram, o que dizer dos catalães, que lá enfiaram uma letrita («aigua»)? O que dizer dos romenos, que a transformaram em «apă»? E, se podemos deixar descansada a palavra nas mãos dos italianos (pelo menos os que falam o toscano a que chamamos italiano), o que dizer dos franceses?…

Ah, os franceses! Não olhemos para as palavras escritas, que essas enganam bem, engalanadas como estão daquela ortografia pirotécnica. Oiçamos com atenção os sons… E aí temos uma língua que passou o latim pela trituradora. Pensemos na conjugação verbal, que na escrita ainda distingue as várias pessoas, mas na fala vai a meio caminho de deixar os verbos, pelo menos no presente do indicativo, quase tão simples como os ingleses (quelle horreur!). Pensemos no velho mês de Agosto, que os franceses, pimpões, escrevem «août», mas lêem «u» (ainda haverá uns quantos que lêem o «t»). Pensemos, por fim, na pobre «aqua» latina, que acabou transformada em «eau», três vogais que se lêem como um «ô», que nem lá põe os pés quando escrevemos a palavra.

Em busca da água perdida

Viajemos agora pelas águas turvas do tempo à procura da origem da palavra. Se recuarmos uns milénios, temos a forma proto-itálica «*akʷā» (o asterisco indica que a palavra foi reconstruída). A palavra reconstruída é feia: mas valha-nos que ninguém a escreveu no dia-a-dia! Uma ortografia à latina (que seria anacrónica, claro está) dar-nos-ia algo parecido com «aqua».

Se continuarmos a andar para trás no tempo, encontramos a forma indo-europeia «h₂ékʷeh₂» — é, mais uma vez, uma palavra reconstruída pelos linguistas. É difícil ler esta palavra que ninguém usou na escrita, mas temos ali um «ékwe» que lembra um fantasma da nossa própria palavra, mas enterrada cinco mil anos no passado.

E o que veio antes? Não sabemos… Há quem julgue encontrar uma ligação profunda entre as várias palavras para «água» em muitas famílias linguísticas, mas parece-me ser uma quimera tentar descobrir as primeiras palavras humanas. A verdade é que a grande parte dos milénios de conversas atrás de conversas ficou perdida para sempre e o método comparativo, usado pelos linguistas, só consegue perfurar o passado uns quantos milhares de anos… As palavras que existiram antes desse tempo perderam-se — mas podemos ter a certeza de que essas palavras perdidas deram origem a muitas das palavras que dizemos hoje.

Águas portuguesas, ilhas inglesas

Pois bem, chegámos ao ponto mais remoto a que nos é possível aceder. Fazemos agora inversão de marcha e começamos o nosso regresso ao futuro. Vemos que essa forma indo-europeia não acabou só nas palavras latinas para água. Seguiu pelos séculos fora, na boca de outras pessoas, até chegar ao proto-germânico — a língua que deu origem a muitos idiomas ali do Norte da Europa.

No proto-germânico, a palavra indo-europeia já se dividira em dois. Primeiro, temos a forma «*ahwō», que, muitos anos depois, veio a dar, por exemplo, no «eddy» inglês — um turbilhão ou um redemoinho.

Depois, temos a forma «*awjō» — aqui a viagem torna-se mais interessante. Esta forma proto-germânica deu, em inglês antigo, «īeġ» — a maneira como as palavras se tornam umas nas outras talvez pareça impossível, mas quem estudou o processo sabe que existem regras e formas de reconstruir com alguma segurança o caminho. Pode haver enganos, claro está, como em tudo.

Ora, o inglês antigo juntou «īeġ» a «land» e ficou com «īeġland». O inglês médio já tinha «yland» e o inglês actual tem a nossa conhecida «island». Note-se que o «s» não se lê, o que ajuda a perceber a sucessão real no som que sai das bocas dos falantes. Curiosamente, a palavra «island» não está relacionada com «isle», que é uma palavra inglesa de origem latina — mas o tal «s» mudo aparece em «island» porque alguém achou que as duas palavras, sendo parecidas e tendo um sentido parecido, deviam ter um «s» também parecido… A ortografia inglesa está cheia destas marteladas de quem achava isto ou aquilo: por exemplo, a palavra «debt» nunca teve ali um «b» na oralidade. Mas como a palavra latina tinha um «b», houve alguém que, num lindo dia, enfiou ali um «b» para atrapalhar a vida de quem quisesse aprender a ortografia inglesa.

Já agora, onde fomos buscar «ilha»? Não deixa de ter uma certa parecença com a «island» inglesa — mas é coincidência. A nossa palavra, diga-se, não veio directamente do latim para o galego e português, mas passou — imagine-se! — pelo catalão. A «illa» catalã saltou Castela e veio aterrar na nossa «ilha».

Em suma, a mesma palavra indo-europeia acabou como «água» nas bocas latinas e como «island» nas bocas inglesas… Belas viagens fazem as palavras — e nós, por estes dias de calor e perigos, sonhamos com ilhas e mares. Lá vamos olhando para a água no horizonte — sempre com cuidado.

(Crónica no Sapo 24, com base em artigo anterior.)

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Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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